Kate Winslet é detaque em "Fogo Sagrado"

No ano passado, Fogo Sagrado era um dos títulos que participavam do Festival de Veneza. Não levou nada. Os críticos o consideraram decepcionante. Mas não há por que ser excessivamente rigoroso com o novo filme de Jane Campion, que estréia hoje. A diretora neozelandesa estabelecida na Austrália possui idéias interessantes, muitas delas verdadeiramente inteligentes e até brilhantes. O Piano que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, não ocorreu por acaso em sua carreira. Jane dirige bem Kate Winslet em Fogo Sagrado. Não falta ousadia à estrela de Titanic. Sua personagem é densa, difícil e, numa cena particularmente forte, Kate avança para a câmera em nu frontal, expressando o desnudamento físico e emocional dessa Ruth a que ela empresta toda a sua sensibilidade. Mal comparando, é uma cena parecida com a do novo filme de Liv Ullman, com roteiro de Ingmar Bergman, exibido no recente Festival de Cannes. Em Trölosa (Infidle), Liv e Bergman reinventam a batida cena em que o marido surpreende a mulher com o amante na cama. O amante levanta-se nu e tem uma crise descontrolada de riso. A dupla nudez, física e emocional, salta aos olhos do espectador, que percebe o que existe de patético na elaboração da cena. Jane não vai tão fundo, mas a nudez de Kate vai além do puro sensacionalismo caça-níqueis. A atriz está mesmo representando. A cena é uma necessidade dramática. Contribui para o crescimento da personagem. É um roteiro original de Jane e de sua irmã Anna. Uma fórmula sucinta de definir Fogo Sagrado é dizendo que parte do amor à religião para chegar à religião do amor. O filme começa na Índia, no momento em que Ruth Barron (Kate) tem a revelação, ao olhar nos olhos de um guru. Ela larga tudo - família, amigos, para vestir o sari, adotar um nome indiano e renascer como uma nova mulher. Numa cidadezinha chamada Sans Souci, na Austrália, a família fica alarmada com essa decisão e, convencida de que Ruth sofreu lavagem cerebral, contrata um especialista para devolver a filha à razão. Entra em cena PJ Waters, o personagem de Harvey Keitel, que também tem direito a uma cena de nudez parcial, não frontal. Jane Campion foi muito criticada por revelar o que muita gente considerou um excessivo desprezo pela família de Ruth. Formam um bando de pervertidos, na melhor das hipóteses são acomodados e vulgares. O pai tem uma amante, a cunhada é adúltera, a mãe tem uma obsessão doentia por limpeza - talvez porque, inconscientemente, saiba o que é o lixo de sua vida, o mesmo para o qual querem recuperar Ruth.A cura - Como parte do processo da cura da moça, Waters e ela ficam isolados numa cabana no deserto. Ele segue o figurino do comportamento tradicional a que está acostumado, nesses casos. Começa tentando ganhar a confiança de Ruth, depois tenta desmontar suas convicções, de forma a devolver-lhe o conceito de realidade (como se ela estivesse mesmo alienada). Só que as coisas tomam outro rumo quando Waters faz sexo com Ruth e fica obcecado por ela. É quando Jane Campion define o rumo que quer dar ao seu filme - e que o torna, afinal de contas, uma experiência da qual vale participar.As imagens do deserto são impressionantes, há uma textura da fotografia que realça o vermelho como cor dominante, na terra e até no céu. Vermelho de paixão e de sangue. Ambos são ingredientes fortes no drama, que o marketing de "Fogo Sagrado" define como o filme mais escandaloso da diretora. Mas o que realmente importa é a inversão que está na essência da dramaturgia do filme. As aparências enganam sobre quem precisa de cura. O frágil revela-se forte, o dominador é dominado e enfermo, emocionalmente, é aquele que no início parece habilitado para aplicar, e não receber, a cura.Num diálogo revelador com Waters, Ruth tenta fazê-lo compreender o que absorveu de mais profundo na sua experiência indiana. Foi o sentido mais puro e nobre do amor, um sentimento para o qual, muitas vezes, ela não se sente habilitada. Mas o filme não termina sem que Ruth manifeste, finalmente, esse sentimento de compaixão que é o supremo ensinamento do guru. O amor da religião vira mesmo religião do amor e Fogo Sagrado termina por merecer mais do que as resenhas apressadas nas quais foi imolado sem piedade. Talvez o grande desafio assumido por Jane em Fogo Sagrado tenha sido o de tornar mais explícito o erotismo contido de O Piano, sem cair na vulgaridade. Kate Winslet foi a cúmplice perfeita para isso. Depois do sucesso de Titanic, ela poderia ter saído em busca de um contrato milionário em Hollywood. A atriz, porém, preferiu filmes menores como esse, que representa um desafio profissional. Dessa maneira conquistou o cultuado Harvey Keitel, seu partner em Fogo Sagrado. Ao jornal The New York Post ele disse que Kate é a melhor e mais corajosa atriz de sua geração.

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