Karine Teles
Karine Teles

Karine Teles é a alma de 'Benzinho', filme que fez em família com o ex-marido

Longa estreia nesta quinta, 23, em salas de todo o País,

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2018 | 06h00

Karine Teles é uma devoradora de prêmios. Duas vezes vencedora do Redentor como melhor atriz no Festival do Rio - por Riscado, 2010, e Fala Comigo, 2016 -, dois Kikitos em Gramado, como melhor atriz e roteirista de Riscado, que também venceu os prêmios de melhor filme e direção (Gustavo Pizzi). Ambos estão de novo na disputa de Gramado por Benzinho, que escreveram juntos, ele dirige e ela interpreta. “Não quero nem pensar”, ela desconversa. “A concorrência deste ano (em Gramado) está muito forte.” Por forte que seja, o júri terá de levar em consideração. O filme estreia nesta quinta, 23, em salas de todo o País, distribuído pela Vitrine. Um filme sobre afetos, sobre família - e algo mais.

Embora separados há quatro anos, Karine e Pizzi mantêm a união artística. “Foram 11 anos, e a gente tem dois filhos maravilhosos. Tudo isso une muito a gente.” Em novembro, iniciam novo trabalho conjunto, uma série para o Canal Brasil. Vai se chamar Gilda, com quatro episódios de 25 minutos cada um.” Gilda em homenagem a Rita Hayworth? Cinéfilo que se preze é capaz de descrever em detalhes a cena do filme homônimo de Charles Vidor, de 1946. Rita faz um strip-tease simulado, só tirando a luva, enquanto canta Put the Blame on Mame. “Que nada, é uma Gilda suburbana, mas que fica com todos os homens e provoca a reação da comunidade, que quer expulsá-la como imoral.”

Gilda é um projeto antigo da dupla. Deveria ter sido o primeiro filme, mas as coisas andaram diferentes. O importante é que agora sai. Quatro episódios de 25 minutos fazem um longa de 100. Benzinho também vem sendo gesta\do há anos. “Ambos saímos muito cedo de casa, e sempre quisemos abordar o assunto. Eu fui ser jogador de handebol”, diz Pizzi. E Karine - “Saí de casa aos 17. Sentia que precisava ir, ter minha vida, meu espaço. Minha mãe ficou mal, parecia que ia morrer, mas entrou para um grupo de teatro.” Pizzi reflete - “Quando saímos, não pensamos em nossos pais, e é natural que seja assim. Os filhos têm de viver suas vidas. Agora que somos pais, a gente não consegue nem pensar como vai reagir quando nossos filhos anunciarem que também estão indo.”

Na trama de Benzinho, de cara, logo no início, o filho mais velho anuncia que recebeu uma proposta para ser jogador de handebol na Alemanha. Todo o filme é essa preparação para a partida. É um filme sobre família, vale repetir. E por que Karine, como corroteirista, criou a personagem da irmã, interpretada por Adriana Esteves? “Porque não dá para falar sobre família, sobre mulher no Brasil, sem encarar a violência doméstica. As estatísticas comprovam que toda hora mulheres estão sendo agredidas e até mortas pelos companheiros. O Brasil virou essa loucura. Violência contra mulheres, negros, gays. Nosso filme não pode dar conta de tudo, mas lança um olhar sobre essa realidade.”

É um filme sobre família e o que mais? “Sobre a mulher. Eu venho da classe média baixa, o Gustavo (Pizzi), também. A gente sabe como é difícil para a mulher se afirmar nesse estrato social. Aliás, a gente vive numa sociedade muito deformada, em que o homem tem de ser provedor e muitas mulheres aceitam. Alguns - quantos homens? - não conseguem (ser provedores) e, como fracassados, reagem com violência?” No filme, olha o spoiler, há uma cena linda - Otávio Müller, sempre ótimo, agora como o marido, diz que gostaria de dar a Irene (Karine) tudo o que ela merece - “Uma mansão, um iate, um helicóptero.” Ela retruca que ele pare de bobagem e o que ela quer é trabalhar, ter o próprio rendimento, não depender de ninguém.

Afeto, empoderamento - o lugar da fala da mulher. A casa é personagem. “A casa é a mulher”, diz Karine. Uma casa que está desmoronando - “Essa velha estrutura familiar que não se sustenta mais”, ela reflete - e outra em construção, que ainda não está pronta. Muitas cenas ocorrem no espaço entre as casas. Outro spoiler, cuidado. No limite é um filme sobre o tempo. Irene olha a banda passar, com o outro filho. Benzinho é sobre isso. O tempo, e como os pais reagem, quando os filhos vão embora. Um filme lindo, lindo.

ENTREVISTA - Gustavo Pizzi, DIRETOR

'Karine conhece bem a luta dessas brasileiras anônimas'

Como é trabalhar com a ex-mulher?

A gente tem uma relação muito amorosa e equilibrada, até por termos dois filhos que amamos. E não dividimos o espaço para trabalhar, se é o que você quer saber. Existem ferramentas de internet. Ela escreve, eu reescrevo, os dois reescrevemos, e assim a coisa toma forma.

Karine (Teles) escreveu outro grande papel para ela...

...E o importante é que tem brilho e capacidade para interpretá-lo. Karine e eu temos a mesma origem, ela conhece a luta das mulheres brasileiras anônimas. É dela, com todo mérito.

Os gêmeos do filme são filhos de vocês, não?

Sim, e eu não queria que estivessem no filme. Fizemos testes, mas um dia um pediu para fazer, depois o outro. Foram os melhores, sem corujice.

 

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