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Karin Viard interpreta a personagem infeliz em 'Lulu, Nua e Crua'

Mulher tenta se reinventar e buscar uma nova vida

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 03h00

Karin Viard compõe uma mulher frágil e atrapalhada em Lulu, Nua e Crua, da diretora Sólveig Anspach. No início, vestida de maneira desleixada para padrões corporativos, ela vai pedir emprego de secretária em outra cidade. Para se arrumar um pouco, entra no banheiro masculino, sem se dar conta. Claro, Lulu é uma “perdedora” (nessa curiosa classificação americana que divide a humanidade entre vencedores e losers). Mal ajambrada, mal casada, mal consigo mesma. 

É quase obrigatório, nesse tipo de história, que a personagem, no fundo do poço, tenha um momento de consciência de si. E descubra que pode, de alguma forma, alterar o curso de uma vida medíocre. Há, também, a constatação de que ninguém faz nada sozinho. De modo que uma determinação de mudança pessoal terá de encontrar forma no encontro com outras pessoas. No caso de Lulu, com um tipo estranho porém de boa alma e atitude sedutora (Bouli Lanners). Entram também em cena uma idosa (Claude Gensac) que precisa reparar uma falta do passado e teme morrer sozinha. E uma jovem garçonete (Nina Meurisse), que suporta o massacre moral da patroa porque julga inevitável. 

Esses personagens funcionam ora como estímulos ora como espelhos para a própria Lulu, que, apesar da rebelião inicial, não sabe bem o que fazer do seu futuro. Afinal, deixou para trás, pelo menos temporariamente, o casamento frustrante porém sólido, e a filha adolescente e cheia de problemas. 

Num tipo de filmagem direta e franca, sem quaisquer subterfúgios ou invenções formais, a diretora Sólveig Anspach mantém o leme virado para esse rumo - o da possibilidade de reinventar-se, mesmo quando a juventude já é uma lembrança um tanto distante. Inútil dizer que esta é uma das aspirações máximas da nossa época. Sentir que podemos fazer outra coisa de nossas vidas, mesmo na maturidade. 

Antes, determinismos tidos como absolutos (casamento, maternidade, emprego) impediam qualquer tipo de movimentação, ainda mais quando se tratava de personagem feminino. Agora, tudo parece ao alcance, mesmo com sacrifícios. Essa rebelião da iniciativa individual, mesmo nos tímidos, talvez seja uma das marcas da nossa época. Karin Viard dá um toque especial a esse filme. Nem particularmente brilhante ou bonita, ela representa essa reivindicação de independência do ser humano comum. 

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