Juan Sarmiento
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Karim Aïnouz fala sobre seu novo filme, o documentário 'THF - Aeroporto Central'

'Na ficção como no documentário são as pessoas que me atraem', afirma o diretor brasileiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 05h00

Em 2014, quando Praia do Futuro integrou a mostra competitiva do Festival de Berlim, o diretor Karim Aïnouz ciceroneou o repórter do Estado numa visita aos locais da capital alemã que serviram de locações para o longa. Um deles se situava próximo à sua casa, o aeroporto Tempelhof, que Adolf Hitler construiu para ser o maior do mundo e terminou desativado em 2008, depois de ser ocupado por forças dos EUA, no fim da 2.ª Guerra. A imensa pista de Tempelhof se transformara em parque comunitário, no qual as pessoas da vizinhança podiam construir hortas. O prédio imponente passou a abrigar refugiados.

Estreou na sexta, 24, nas plataformas digitais Now, Vivo Play, Oi Play, Itunes, Google Filmes, Filme Filme e Looke, o longa documentário THF - Aeroporto Central, sobre Tempelhof, com direção de Aïnouz. O que começou como um filme sobre o edifício, como outro que ele fez sobre o Beaubourg, em Paris, terminou ganhando outro foco quando Aïnouz encontrou seu personagem, o estudante sírio Ibrahim, que busca asilo político na Alemanha. De Berlim, onde cumpre o isolamento social, Aïnouz conversou com o Estado pelo telefone. Sempre foi homem de 1.001 projetos. Está mais disciplinado que nunca.

“Estou isolado de verdade, até porque moro num prédio sem elevador e estou com um problema sério no joelho, o que me impede de subir e descer escada. Divido meu tempo entre a escrita de um novo roteiro e a montagem do documentário que fiz na Argélia, sobre meu pai. Encontrei o país convulsionado por manifestações contra o governo e fiz rapidamente o Nardjes A., que você viu no Panorama (mostra paralela da Berlinale), em fevereiro. Fui à Argélia em busca de minhas origens e encontrei um mundo novo que me encantou, a energia de um poder das ruas que não pode ser controlado, e que tem tudo a ver com o cinema, como o vejo.”

O filme deveria estrear logo no Brasil, mas foi adiado pela pandemia. Aïnouz conta que estava justamente nas redes sociais com sua personagem em Argel para tentar lançar o filme, pelo menos localmente, em plataformas digitais. “Como as manifestações estão suspensas pelo isolamento, seria uma forma de manter ativo o movimento”, avalia. Os documentários sobre Nardjes, Ibrahim e Qutaiba expressam o interesse de Aïnouz por gente. “Na ficção como no documentário são as pessoas que me atraem. E Aeroporto Central é sobre isso. Tem o prédio, mas, no limite, o que vai prender as pessoas é o drama do Ibrahim, que ganhou notoriedade, mas ainda pleiteia o asilo.”

Um assunto do qual não dá para fugir. No ano passado, com o prêmio para A Vida Invisível em Cannes e a indicação, pelo Brasil, para tentar concorrer ao Oscar, Aïnouz viveu seu ano mais agitado. “Foi uma loucura, ainda estou decantando tudo aquilo, a amizade, mais até que a parceria artística, com a Fernanda (Montenegro). O isolamento tem me feito pensar muito. Vamos sair disso. Temos a chance de reconstruir a utopia. É grande demais para ser desperdiçado.”

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