Jurados de Cannes se desentendem

Vai ser um quebra-pau danado. A se julgar pelo que foi a coletiva do júri do 57.º Festival International du Film será mais fácil uma vaca voar do que a Palma de Ouro de 2004 ser conferida por unanimidade. O presidente Quentin Tarantino disse o que quis e imediatamente colheu a rebelião dos jurados sob sua presidência. As atrizes Tilda Swington e Emmanuelle Béart discordaram de quase tudo o que ele disse.Tarantino chegou com pompa e circunstância à Croisette. A presidência do júri de Cannes é um cargo honorífico como talvez não exista outro para os franceses. A França, afinal, é o país dos cinéfilos. O próprio George W. Bush, em plena crise dos abusos no Iraque, não teria tanta mídia se desembarcasse na França com Tarantino. Ele disse que se sente no paraíso. "Ouvi falar pela primeira vez em Cannes quando criança. Depois de descobrir que minha paixão era o cinema, passei a sonhar com a idéia de trazer meu primeiro filme a Cannes. Consegui (com Cães de Aluguel, em 1992). Sonhei depois em ganhar a Palma de Ouro e ganhei (com Pulp Fiction/Tempo de Violência, em 1994). Ainda faltava um terceiro sonho para realizar, que era o de ser jurado, e Gilles Jacob (o diretor do evento) me colocou logo na presidência. I´m in heaven", disse Monsieur le président.Ele foi logo desautorizando a expectativa de quem espera ver o festival transformar-se num palanque contra Bush. Recusou-se a fazer previsões antecipadas sobre Fahrenheit 911, de Micharl Moore, dizendo que seria "privilegiar um dos filmes da competição e isso seria prejudicial para os outros". Tarantino já anunciou que coloca a estética acima da política. Quer ver filmes que o emocionem, que o motivem. E se for um filme político? "Não tenho, a priori, nada contra também. O que me interesse é o cinema." Deixou subentendido que não tem nada, de cara, a favor da política no cinema, mas também não é contra. Nem poderia - um dos grandes momentos do festival será, com certeza, a exibição, na cópia restaurada, de A Batalha de Argel, em presença do diretor Gillo Pontecorvo. Clássico do cinema político, o filme tornou-se obra de referência para o próprio Pentágono, que, prevendo a transformação da Guerra do Iraque em guerrilha, exibiu o filme para o alto comando do Exército dos EUA.A briga surgiu quando Tarantino explicou que não existe indústria de cinema sem star system. Hollywood, a Índia (Bollywood) e Hong Kong: todos criaram o seu star system e é por meio dele e do cinema de gênero que essas cinematografias se tornaram poderosas. Tilda retrucou - o problema não é este. Muitas vezes as pessoas querem ver astros e estrelas locais em seus países e a hegemonia de Hollywood impede que isso ocorra. A bela Emmanuelle aproveitou a deixa para também reclamar do cinema hegemônico e de fórmula. "Estar em Cannes é ver o cinema do mundo e não apenas o americano", disse.

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