Júlio e Ravel Andrade estrelam o filme 'Não Pare na Pista'

Atores se dividem entre o prestígio do cinema e a popularidade da TV

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2014 | 16h00

Júlio Andrade tinha um filme na programação do Festival de Gramado - Estrada 47, de Vicente Ferraz, sobre os pracinhas da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, durante a 2.ª Grande Guerra, na Itália. Na tarde antes da projeção - no sábado da semana passada -, Júlio sentou-se por um momento na frente do restaurante em que havia almoçado. As pessoas passavam e o reconheciam. Muita gente queria tirar fotos. "É o 'noia' de O Rebu", identificavam. Desde quinta, ocupando centenas de salas de todo o País com Não Pare na Pista - A Melhor História de Paulo Coelho, Júlio talvez fosse reconhecido pela mídia com que estourou. O cinema, rapidamente, fez dele um ator cultuado pelos próprios colegas.

De Cão sem Dono, o longa de Beto Brant, filmado no Rio Grande do Sul, até Não Pare na Pista, Júlio Andrade criou fama no cinema. Ele fez alguma TV, mas só agora com O Rebu, novela de George Moura e Sérgio Goldenberg, dirigida por José Luiz Villamarim, chega a ser assediado na rua. Interpretar o escritor vivo mais lido do mundo - Paulo Coelho, claro - foi um grande desafio para ele, que cria o personagem em diferentes fases da vida. O Paulo que fez o caminho de Santiago e o autor consagrado. Júlio Andrade tem a capacidade rara de se metamorfosear nos personagens. Seu Gonzaguinha - em Gonzaga, De Pai pra Filho, de Breno Silveira - impactou a própria família do cantor e compositor. Mas nunca, como em Não Pare na Pista, Júlio teve de atuar com aquela máscara de envelhecimento. “Foi muito difícil. Aquilo limitava muito a expressão facial e eu preciso de todos os meus instrumentos. Os olhos, a boca, a fala, os movimentos do corpo."

Não Pare na Pista ganha um significado especial para ele porque Júlio está apadrinhando a carreira do próprio irmão, Ravel Andrade, que faz o jovem Paulo Coelho. O filme abre-se com Ravel, que tenta o suicídio e é internado no instituto psiquiátrico. "Quando acertamos que eu seria o Paulo, Daniel Augusto (diretor) e a Carol (a produtora e roteirista Carolina Kotscho) me perguntaram se eu conhecia alguém que poderia fazer a parte inicial da nossa história. Indiquei o Ravel, eles o testaram e deu muito certo", diz Júlio. Ravel só agradece ao irmão. "Ele é meu ídolo, e me enche de orgulho."

Em perfeito gauchês, e usando o "Bá", ele conta - "Nada me deixa mais feliz do que me identificar como irmão do Júlio e as pessoas, principalmente se são da área, me dizerem: 'Bá, tchê, teu irmão é gênio'. Eu também acho."

Ritmos diferentes. Os irmãos Andrade, Júlio e Ravel, estão no cinema e na TV. Júlio tem aquele papel de destaque no remake de O Rebu. Ravel participou de um episódio na série Caçador e agora vai entrar na novela das 9 Império, de Aguinaldo Silva, como filho de Elizângela.

Ele também fez um personagem de Sessão de Terapia, do GNT. O caso desse último é especial. Feita por um diretor de cinema - Selton Melo -, a série começou como franquia de um êxito internacional, mas a nova temporada ganhou versão brasileira. “Meu personagem é original”, diz Ravel. As gravações obedeciam a um ritmo de cinema, e ele só teve uma ideia do que é o ritmo industrial da televisão fazendo O Caçador. A série da Globo, de José Alvarenga com Cauã Reymond, escrita por Marçal Aquino e Fernando Bonassi, o lançou no louco mundo das gravações aceleradas.

"E isso que não era novela. Todo mundo diz que o ritmo das gravações de Império vai ser muito mais corrido, mas estou preparado. É um personagem trilegal (de novo o gauchês) e, dessa vez, ao contrário dos outros, que já têm um arco completo, ele ainda está em aberto. Sua evolução na trama depende de um monte de fatores, inclusive se o público vai aprovar."

Nascidos e criados em Porto Alegre, os irmãos Andrade estão baseados em São Paulo, mas tanto Júlio quanto Ravel viajam bastante, por necessidades profissionais. Para as gravações de Império, Ravel terá de ficar bastante no Rio. "Ah, tudo isso ainda é muito novo pra mim."

Com 22 anos, 16 menos que Júlio, ele não parece deslumbrado com a possibilidade de sucesso. "Quero fazer bem feito, cara. Com um irmão como o Júlio como farol, não posso vacilar. Não sei se os outros vão me cobrar, ou se eu me cobro. Gosto do que faço e quero fazer tão bem quanto ele."

Júlio Andrade, ator

'Paulo me deixou livre para criá-lo'

Carolina Kotscho disse ao jornal que Paulo Coelho lhe deu toda liberdade, exigindo apenas que o roteiro dela fosse original. E para você, o que ele disse?

Desde que fui contratado, sempre soube que precisaria conhecer o Paulo. Para captar o interior, eu tinha o roteiro da Carol, que desenha o conflito com o pai, mas eu precisava saber como era esse homem. Como ele mexe com as mãos, os olhos, como pega as coisas. Tudo isso é muito importante. Mas o Paulo repetiu uma coisa que tinha dito para Carol. Me deixou livre para criá-lo na tela porque, como diz, ‘eu sou o que as pessoas imaginam.'

Como você trabalhou com seu irmão?

Ravel e eu tivemos um preparador maravilhoso, o Eduardo MIlewicz, que trabalhou com a gente para dar unidade às interpretações. Tivemos um mês de preparação com ele, morando junto e repassando o roteiro diariamente. Tenho tido o privilégio de viver essas experiências bem intensas. No Cão sem Dono, eu morava na locação e, muitas vezes, acordava com a câmera na cara, totalmente imerso no personagem.

Para mim, a grande cena do filme é o confronto com o torturador, a quem o Paulo desmonta com sua loucura. Como foi fazer aquilo?

Foi realmente muito forte e o Daniel (o diretor Daniel Augusto) teve a sacada de me manter distante do outro ator que fazia o papel. Só nos defrontamos ali, com a situação armada e a possibilidade de recriar as falas do nosso jeito.

Você é bom demais, Júlio, mas o Enrique Diaz, que faz seu pai, arrebenta. Como foi fazer as cenas com ele?

Foi massa. O Enrique é fera e termina puxando a gente não para um duelo, que seria bobagem, mas para servir aos personagens. A relação com o pai é o nó da vida do Paulo. O filme começa muito fragmentado, mas na segunda metade a força dos conflitos se impõe.

E a maquiagem?

Pois é. Me vejo na tela e acho estranho. Foi o mais difícil. A maquiagem limitava a expressão facial. Para mim, foi cruel, mas necessário.

Ravel Andrade, ator

Como foi dividir o papel de Paulo Coelho com seu irmão?

O Júlio é meu ídolo, e nesse caso foi fundamental, porque além de me abrir as portas da produção, me indicando para o diretor e a produtora/roteirista, quando a gente iniciou o processo ele me deu uma máquina de escrever, daquelas velhas, para que me exercitasse. Se crio um cara que quer ser escritor, eu devia escrever minhas coisas. Aquilo foi muito importante para mim. Eu comecei a entender o Paulo a partir dali. Como parte da preparação, moramos juntos, mas o Júlio não queria ficar imerso no papel o tempo todo. Era importante relaxar, falar de outras coisas. Quando ele falava, era para dizer coisas precisas, para dar dicas que foram muito úteis.

Além do cinema, a TV rapidamente está abrindo as portas para você. Sessão de Terapia, O Caçador, Império... Você está saindo das participações para ter peso nas tramas. Como é isso?

Ainda não comecei a gravar Império (a entrevista foi feita há duas semanas), mas estou me preparando porque sei que o ritmo é outro. Mas, para um ator, é fundamental. Criar um personagem que não tem arco definido e, ainda por cima, gravando num ritmo industrial, a gente precisa se reinventar o tempo todo. Tem de estar aberto e ter pique.

Você começou sua carreira em Porto Alegre, não?

Se o Júlio é meu ídolo, meu mestre é o Zé Adão Barbosa, que foi quem abriu minha cabeça para a interpretação. Quando você quer ser ator, precisa ter um mestre que sirva como guia, para não se perder. Integrar o Jogo de Experimentação Cênica também foi muito importante para mim. Se escreve assim – Grupojogo de Experimentação Cênica – e faz instalações cênicas como laboratório de criação. Saindo desse universo, levei um choque ao chegar no set de Não Pare na Pista, mas o Eduardo (o preparador Eduardo Milewicz) e o Júlio me ajudaram a me sentir em casa. Estou muito feliz com tudo o que está acontecendo comigo.

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