Júlio Cortázar e a experiência da prosa do laboratório

Escritor foi tema frequente do 'Suplemento Literário', que acompanhou de perto sua produção

25 de junho de 2010 | 20h04

Prosa do Observatório, de Júlio Cortázar, é o volume 3 da Coleção Signos, da Editora Perspectiva, na qual estão incluidos Panorama do Finnegans Wake, de Augusto e Haroldo de Campos, Mallarmé-Poemas, entre outros. Traduzido por Davi Arrigucci Jr., estudioso da literatura hispano-americana e autor de um excelente livro de interpretação da obra de Cortázar (O Escorpião Encalacrado, Editora Perspectiva), Prosa do Observatório, que inclui fotos dos observatórios do sultão Jai Singh (Jaipu, Delhi) tiradas por Cortázar em 1968, inspira-se no ciclo das enguias, cujas referencias, explica o autor, estão em um artigo de Claude Lamotte, publicado em Le Monde, Paris, 14 de abril de 1971.

 

É o próprio Cortázar que volta a explicar que "não é preciso dizer que se alguma vez os ictiólogos ali citados lerem estas páginas coisa pouco provável, não deverão ver nelas a menor alusão pessoal; da mesma forma que as enguias, Jai Singh, as estrelas, eu mesmo, são parte de uma imagem que só aponta para o leitor."

 

Na paráfrase do tradutor: "Cortázar revém reinventado: sinuoso, revolucionários: enguias, estrelas, estrias nos açudes celestes em que a perseguição persiste com a proposição de um novo perscrutar: metaforico, metafisico, feérico, fálico, telescópico: abarcante desejo cósmico de abraçar num só ato tudo de uma vez: curso de enguias e estrelas, decurso de palavras, discurso global do homem e de sua necessidade de mudar".

"Vista no conjunto, a obra literária de Julio Cortázar parece traçar o itinerário labirintico de uma busca incessante. Work in progress, não se pode dizer se irá rasgar novos horizontes ou se virá o silêncio que a tem rondado ou mesmo minado, sempre à espreita no seu próprio interior". Para Cortázar, a linguagem é um instrumento de busca e rebelião um instrumento de indagação metafisica, na medida em que se entrega fielmente ao tema que lhe garante a autenticidade, a conquista da realidade no plano antológico. Um instrumento que se lança na esfera do mito, de volta à sua origem mágica, na medida em que propõe uma reintegração do homem na totalidade". (O Escorpião Encalacrado, pag. 15 e 80)

 

O Texto

Alguns trechos de Prosa do Observatório mostram o empreendimento de Cortázar no sentido da criação literária como uma grande metáfora.

Tudo se corresponde, pensaram com um século de intervalo Jai Singh e Baudelaire, do mirante da mais alta torre do observatorio o sultão deve ter buscado o sistema, a rede cifrada que lhe desse as chaves do contacto: como teria podido ignorar que o animal Terra se asfixiaria numa lenta imobilidade se não estivesse desde sempre no pulmão de aço astral, a tração sigilosa da lua e so sol atraindo e repelindo o peito verde das aguas. Inspirado, expirado por uma potencia alheia, pela graça de um vaivém que através de molas além de toda imaginação se torna mensuravel e como que ao alcance de uma torre de mármore e de uns olhos de insonia, o oceano alenta e dilata seus alvéolos, põe em marcha seu sangue renovado que rompe raivoso nos abrolhos, desenha suas espirais de materia fusiforme, concentra e dispersa as ondas, as enguias, rios no mar, veias no pulmão índigo, as correntes profundas batalham pelo frio ou pelo calor, a cinquenta metros da superfície os leptocéfalos são embarcado no veículo halino, durante mais de três anos sulcarão a tubulação de preciosos calibres termicos, trinta e seis meses a serpente de olhos incontaveis resvalará sobre as quilhas e as escumas até as costas europeias.

 

Conhecida pelo grande público após o aproveitamento de seu conto "Las babas del diablo", por Antonioni, no filme Blow-Up, Cortazar é tido por muitos críticos como "o maior escritor hispano-americano da última década", digno continuador da literatura original e personalissima de Jorge Luis Borges. Sua carreira literária iniciada em 1951 com o livro de contos Bestiário alcançou o ponto de maior expressão em 1963 com o romance Rayuela, que se acha traduzido no Brasil como título de Jogo de Amarelinha.

Prosa de Observatório - Editora Perspectiva, São Paulo, 1974.

Artigo foi pulicado no 'Suplemento Literário' de O Estado de S. Paulo, em 7/4/1974.

O livro Prosa de Observatório foi publicado originalmente em 1972. Agora, sai pela Porto de Ideias Editora, Desastrada Maquinaria do Desejo, de Mônica Genelhu Fagundes, um estudo sobre aquele livro de Júlio Cortázar. Escrita como tese de doutorado, defendida na UFRJ, o trabalho procura contextualizar Prosa de Observatório no conjunto da obra cortazariana.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Júlio Cortázar

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.