Julio Bressane vai a Cannes com erotismo

O escrete brasileiro em Cannes este ano se estende para além dos domínios da seleção oficial. O diretor carioca Julio Bressane, de 56 anos, também conseguiu cravar o seu mais recente trabalho, Filme de Amor, ainda inédito no circuito nacional, na Quinzena dos Realizadores, a mostra dissidente, mas não menos prestigiosa, da maratona francesa. É a primeira vez que o autor de Os Sermões - A História do Padre Antônio Vieira, entre outros títulos fortemente marcados pela pesquisa de linguagem, exibe um filme no balneário francês desde 1970, quando mostrou por lá Matou a Família e Foi ao Cinema. "Nos últimos 30 anos, a Quinzena, que surgiu em 1968 como um fórum de filmes mais arrojados, instituiu o veto ao filme de invenção que, do meu ponto de vista, é também fecunda no Brasil. Apesar da boa repercussão de dois filmes meus por lá, o Cara a Cara (1969) e o Matou a Família, não consegui continuar apresentando meus trabalhos por lá", conta o diretor que, nos últimos anos, marcou presença no Festival de Veneza (com Miramar, em 1997, São Jerônimo, em 1999, e Dias de Nietzsche em Turim, em 2001). "Mas a direção da mostra mudou este ano e, paralelamente, a produção atual está mais empenhada em questões de linguagem e expressão. Essa onda de renovação que chegou à Quinzena tornou o tipo de filme que faço mais aceitável." O mais erudito dos cineastas brasileiros mais uma vez recorre a textos e estudos clássicos para falar sobre símbolos que afetam ou influenciam o mundo de hoje. Filme de Amor conta a história de Gaspar (Fernando Eiras, ator-fetiche do cineasta), Hilda (Bel Garcia) e Matilda (Josie Antello) três amigos que moram nos subúrbios do Rio e que costumam se encontrar nos fins de semana em um decrépito sobrado do centro da cidade para conversar, beber e sentir prazer. O roteiro, escrito por Rosa Dias e o próprio Bressane, é inspirado no simbologia das três graças da mitologia, Tália, Abigail e Eufrosina, trindade forjada por Vênus, a deusa do Amor. No filme, Gaspar, Hilda e Matilda exercem ofícios simplórios, levam uma vidinha miserável, e perambulam pelas ruas de um Rio desértico e decadente. A produção encontrou locações apropriadas nos endereços do subúrbio ligado pelos trens da Central do Brasil e os pontos menos sofisticados da capital fluminense. "Procurei aproximar, fazer uma tradução em imagens desse mito dando a ele uma cor local, incorporando uma certa arquitetura carioca", diz o diretor. "O pano de fundo do mito é a miséria e é do fundo da miséria carioca que surge o mito. Penso que meu filme se alimenta desse detalhe, do intervalo do patológico. Esses amigos conseguem criar um hiato nesse martírio da existência e se reúnem nos fins de semana para encontrar algum tipo de prazer e beleza." O que talvez choque os públicos mais conservadores é a abordagem explicitamente erótica, quase pornográfica, do tema. Seqüências de felação, masturbação e sexo oral, além de enxertos curtos de filmes pornográficos, soam provocativos. E o são mesmo: Bressane não teve nenhuma intenção de fazer um filme poético e pudico sobre o amor. "O filme não se esquiva da pornografia, ele quer ser pornográfico. Até porque não existe amor sem a pornografia", explica. "Amor sem o componente pornográfico, sexual, não existe. O que alimenta o amor é o desejo, a fantasia. E o filme é feito dessas coisas, dessas anormalidades, das pequenas coisas desprezíveis. A naturalidade do sexo explícito só foi atingida com a colaboração dos atores, que não pestanejaram em atender e entender as especificações do diretor. "Trabalhei com eles durante quatro meses. Foi preciso criar e encenar uma convivência, criar uma relação de intimidade para que essas cenas de sexo pudessem ser feitas, para que eles pudessem representar esses gestos íntimos sem nenhum constrangimento. Eles são atores com muita experiência em teatro, o que ajudou bastante, e devo o resultado do filme ao esforço deles, que foi enorme", agradece o diretor.

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