Júlio Bressane ganha ampla mostra em SP

Só se impressiona com o ritmo do diretor americano Roger Corman quem não está acostumado a seguir o método de trabalho de Júlio Bressane. Seus filmes raramente ultrapassam o plano de 20 dias de filmagem. O Anjo Nasceu foi filmado em sete dias, Matou a Família e Foi ao Cinema em 12 e o recorde fica por conta de O Monstro Caraíba, rodado em apenas 48 horas. Essa rapidez não tem nada a ver com falta de elaboração, pelo contrário. O rei americano do filme B pode trabalhar igualmente rápido, mas nenhum filme de Roger Corman revela o apurado grau de sofisticação dos de Bressane. É o que você poderá conferir a partir de hoje no Cinesesc, que inicia o ciclo Júlio Bressane - Cinema Inocente.Até dia 23, será possível ver ou rever todos os filmes do diretor, exceto os que o próprio Bressane admite como perdidos e o recente Filme de Amor, que venceu o Festival de Brasília e está tendo pré-estréias neste fim de semana. Filme de Amor também vai concluir, na próxima quinta-feira, o projeto Encontro com o Cinema Brasileiro, no Centro Cultural Banco do Brasil. O projeto recomeça no ano que vem e o filme de Bressane será o último a ser exibido (e debatido com o autor) ainda este ano. Obras que não passam em São Paulo há uma década, 12 filmes que foram restauradas especialmente para o evento no Cinesesc, exposição de cartazes e debates - nunca o cinema inocente de Bressane mereceu esse grau de exposição na cidade.Há um caso Bressane no cinema nacional. Você não precisa morrer de amores pelos filmes dele para reconhecer que Bressane é um daqueles autores que realmente fazem um cinema poético no Brasil. Outros tentam se apropriar do conceito para mascarar seu cinema de prosa capenga, mas essa é outra história. O importante é que durante 12 dias, em quatro sessões diárias, a sala da Rua Augusta vai exibir 24 filmes, seis vídeos e o making of de Filme de Amor, com estréia prevista para o ano que vem. Matou a Família, O Anjo Nasceu, Crazy Love - em cópia nova -, Agonia, Tabu, Sermões, O Mandarim, Miramar, São Jerônimo, Dias de Nietzsche em Turim - o caso Bressane poderá ser revisto e esmiuçado nos próximos dias.Não é um cinema fácil nem digestivo. E também presta-se a múltiplas polêmicas. Há no cinema de Bressane o refinamento e a erudição de um homem de grande cultura, mas ele próprio disse, em Brasília, o que qualquer pessoa percebe assistindo a seus filmes - é atraído pela vulgaridade, o que produz desequilíbrios muito grandes em seus filmes. Bressane irrompeu no cinema brasileiro à sombra do Cinema Novo. Quando começou a fazer os próprios filmes, emigrou para o Cinema Marginal. À ideologia dos cinenovistas, superpôs seu gosto pela transcriação e pela intertextualidade. Bressane não trabalha com psicologia, raramente cria dramas humanos. Seu cinema nutre-se da própria linguagem. Música, literatura, Bressane está sempre discutindo as matrizes culturais do Brasil. Gostar de Bressane é o de menos. Necessário é reconhecer que seu cinema inocente põe o País na ponta do que de mais ousado se faz de autoral, em todo o mundo. Cinéfilo que se preze tem de ter pelo menos respeito pelo gênio particular de Bressane.

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