Juliette Binoche vive uma relação proibida

São cinco e meia da tarde de uma sexta-feira e Juliette Binoche sai rapidamente de um hotel na Lexington Avenue, na região movimentada de Midtown, para entrar num carro que a espera à porta. A atriz francesa tem duas horas até entrar no palco de um teatro da Broadway, onde ela estrela sua primeira peça na cidade: o texto Traições (Betrayal), de Harold Pinter, que fica em cartaz até 4 de fevereiro.Seu estilo du jour é meio Branca de Neve, com um vestido de veludo vinho (com direito a fitinha de seda mais clara como cinto) e saia rodadíssima. As risadas - contagiantes - são uma constante e funcionam como preâmbulos para ela assumir seu lado sartriano. O leve sotaque francês da época de O Paciente Inglês foi trocado por uma pronúncia britânica. Juliette, que em 1998 também se apresentou no teatro inglês com Naked, de Pirandello, fala mais alto e sem deixar de dar atenção a nenhuma sílaba.A reportagem da Agência Estado faz a última entrevista do primeiro dia de um fim de semana cheio para a atriz. Ela está divulgando o longa-metragem Chocolat (pronuncia-se à francesa, chocolá), o novo filme do diretor sueco Lasse Hallström (Minha Vida de Cachorro) para o estúdio Miramax, depois do sucesso do ano passado de Regras da Vida, que conquistou sete indicações para o Oscar.Chocolat, que deve ser lançado no Brasil pela distribuidora Lumière em 23 de fevereiro, é baseado em livro da escritora Joanne Harris. Juliette interpreta uma misteriosa viajante, que invade o vilarejo francês católico de Lansquenet, com sua filha de 8 anos. Na cidade, ela abre uma chocolaterie, que vem subverter a vida no local e, em especial, despertar a ira de um nobre com ares de prefeito, o Conde de Reynold (o ator inglês Alfred Molina). Essa fábula romântica é ainda estrelada por Johnny Depp, Lena Olin (mulher de Hallström e com quem Juliette havia trabalhado em A Insustentável Leveza do Ser), Judi Dench e grande elenco. Pelo filme, Juliette conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro (como melhor atriz/comédia) e a Miramax faz uma campanha pesada para a atriz também concorrer ao Oscar. No Globo de Ouro, Juliette ainda está representada na categoria de melhor filme estrangeiro, com o longa A Viúva de Saint-Pierre, de Patrice Leconte.Após sua passagem pela Broadway, Juliette começa a filmar com Walter Salles, o filme The Assumption of a Virgin. Ao ser peguntada a respeito do projeto, ela aponta para a bolsa preta no chão, com um calhamaço de folhas brancas dentro dela. Trata-se da última versão do roteiro de Anthony Minghella que ela leu, gostou, mas esqueceu de deixar no quarto de hotel que ocupa na cidade. Confira a entrevista.Agência Estado - Seu novo filme, Chocolat, é uma fábula que mexe também com toda a mitologia do chocolate. Essa maravilha para o paladar seria responsável por "criar" humores e até ajudar os deprimidos. O que mais você descobriu sobre o chocolate ao rodar o longa?Juliette Binoche - A feitura do chocolate é muito simples. Fiquei surpresa, pois achava que seria algo difícil. Acho que o chocolate te dá um negócio, um excitamento como o café. Sou viciada em chocolate, principalmente durante um período muito peculiar de cada mês (risos). Mas sei quando é hora de parar. Uma vez, tinha uma caixa de chocolates na minha frente e estava esperando por uma pessoa que nunca veio. Comi a metade e deixei o resto da caixa para ele. Passou mais um tempo e comi a metade da metade dele e fui embora para minha casa. Acho que fui muito corajosa (risos). Os americanos dizem que fazem um bom chocolate. Rarará. Bom chocolate mesmo só os da Suíça, Bélgica e alguns franceses também, como o maravilhoso de Lyon.Chocolat vem a ser seu primeiro filme em inglês depois que ganhou o Oscar por O Paciente Inglês. Nesse período, você fez vários filmes na Europa com Diane Kurys, André Techiné, Michael Haneke e Leconte. E agora está com uma peça na Broadway. Como foram esses últimos cinco anos para você?Depois do Oscar, acabei dizendo não para muitos filmes. Uma coisa que não combina comigo é fazer escolhas profissionais a partir do medo: do medo de não ter dinheiro, do medo de não ser mais famosa. Então, decidi ir para Londres e fazer a peça Naked. Foi uma experiência ao mesmo tempo assustadora e gratificante. Precisava de um agito assim, de dizer para mim mesma: "Ei, essa é você voltando ao mundo real", principalmente depois do Oscar. Eu também fiz três filmes na França e outro na Áustria. Uma coisa de voltar às minhas raízes, de proteção mesmo, de voltar para um lugar que conheço. Agora, neste momento, estou um pouco cansada da França. Vir a Broadway é uma dose nova de energia. Aprendo a me expressar melhor em inglês e volto para um lugar querido, que é o teatro. Meus pais tiveram uma vida enraizada no teatro. E eu acho que minhas memórias permitem-me dizer que esse lugar também é meu.Por que você resolveu fazer Traições, de Harold Pinter?É sempre muito difícil responder o porquê das coisas, pois no caso de meu trabalho o motivo vem da intuição e não consigo definir muito bem isso. Uma imagem que vem em minha mente é a de quando eu tinha 16 anos. Estava tendo uma aula de arte dramática, estudando a peça Birthday Party, de Pinter, mas em francês. Quando fui para minha carteira, no fundo esquerdo da sala de aula, fiquei com aquele desejo súbito de um dia fazer um peça inteira dele em inglês. Só fui me lembrar desse momento 20 anos depois, quando fui convidada por David Leveaux (diretor do espetáculo) para fazer uma peça de Pinter. E agora acredito mais ainda que o forte desejo que temos dentro da gente pode abrir várias portas. Pinter tem um jeito habilidoso de manipular palavras simples do inglês. Mas se você não põe seu coração na hora de falar essas palavras, o texto todo pode soar muito frio.No ano passado, estreou finalmente no circuito americano o filme Os Amantes da Ponte Neuf, que rodou em 1991 com Leos Carax. Como foi revisitar um dos primeiros sucessos de sua carreira?Na época do lançamento do filme, a Miramax me chamou para promovê-lo. Aceitei fazer isso porque sou bastante fiel aos meus projetos. Apesar da fidelidade, sou muito crítica em relação a meu trabalho, no sentido de que não gosto de tocar violino nem para mim mesma, pois sei que não vou ser boa. Na maioria das vezes, fico bastante desapontada, pois espero mais de mim mesma. Mas, como estava dizendo, geralmente não vejo os filmes novamente, porque eles pertencem a uma certa fase de minha vida. Eu não tenho um ponto de vista objetivo sobre isso, pois o filme, depois de pronto, pertence ao público. Minhas lembranças são as memórias de um tempo, muito mais do que as memórias do próprio filme.No caso de Os Amantes da Ponte Neuf, você acabou se envolvendo com Carax. Qual é a lembrança desse período?Não existe uma resposta que gostaria de dar, mas foi um período muito intenso.Sua autocrítica chega sempre a extremos?Desapontar-me com uma performance é meu jeito de trabalhar. Mas isso não significa que estou sempre infeliz. Às vezes, acho que fui muito mais a fundo, quando o diretor não estava interessado nisso. Mas às vezes também me frustra quando eles querem esse jeito minimalista de compor um personagem. Acho até ok e já fiz muito, mas acho que o minimalismo pertence ao teatro, onde você tem de dar mais ao público e não à câmera.Depois de sua temporada na Broadway, seu primeiro projeto cinematográfico será The Assumption of a Virgin, dirigido por Walter Salles. O que você acha dos filmes dele?Eu só vi Central do Brasil. E foi o suficiente para eu dizer o sim para ele. É um filme tremendo: comovente, bem construído. Pessoalmente, eu acho Walter uma pessoa que consegue misturar na dose certa a leveza com a profundidade. Como você vê, o roteiro está ainda em minha bolsa (risos). Qual sua atração pela história de Lucrezia Buti?Minha mãe é apaixonada pela renascença italiana. Lembro de duas semanas que passei com ela em Roma, visitando museus sem parar. Fiquei até um pouco traumatizada de entrar num museu depois daquela temporada, só recuperando esse prazer ao mudar-me para Londres. Eu sempre tive uma paixão por Lucrezia e a imagem dela me veio muito à cabeça, quando rodei aquela cena de O Paciente Inglês em que sou alçada para ver o mural da igreja.Foi dessa época que nasceu o projeto?Exato. Carolyn, a mulher do Anthony Minghella, que me dirigiu em O Paciente Inglês, comprou os direitos da história. E ela queria que eu fizesse o papel da freira. Carolyn e eu sempre dividimos a opinião de que a pessoa certa para dirigir o filme apareceria naturalmente. E foi quando surgiu Walter há quase dois anos. Geoffrey Rush, Vanessa Redgrave e aquela garota do Meninos Não Choram (Chloë Sevigny) já foram selecionados.Quais os critérios para você escolher um trabalho no cinema?Eu prefiro fazer filmes mais independentes. Acho perigoso embarcar em trabalhos dispendiosos, pois me coloca numa posição que eu não quero para mim. O filme já começa com um custo negativo e vai trazer muita tensão no set, pois resultados são esperados. Mas respondendo à sua pergunta, te dou o exemplo mais concreto de meu último filme europeu: Código Desconhecido, de Michael Haneke. Fui eu mesma quem pediu para trabalhar com ele. Haneke não é muito conhecido internacionalmente, mas eu respeito o trabalho dele. Ele é um cara que passou 20 anos fazendo teatro e só rodou cinco filmes até agora. Como Kieslowski, Haneke também é pessimista.E você, onde se situa?Lembro que, quando rodei A Liberdade É Azul, eu achava que era otimista. Agora, quanto mais absorvo a vida, mais acredito que o pessimismo é uma questão de ser realista. Mas eu fico surpresa com meu otimismo, o que é um comportamento bem americano.Cineastas e atores franceses que se prezam mantêm-se afastados do cinemão americano. Qual é sua opinião sobre esse descaso?Falando por mim, eu acho um pouco cansativa toda essa estética Oliver Stone de impingir um tom ao público desde o início. Você já começa o filme mostrando como o público deve reagir, não deixando espaço para eles julgarem. Eu gostei muito de Os Últimos Passos de um Homem, do Tim Robbins, até os minutos finais. Mas quando é mostrada a execução de Sean Penn, o filme me perdeu. Achei repugnante o que foi feito. O filme não deixou o público respirar e tirar as próprias conclusões.Como você se coloca diante, não só dos filmes americanos, mas também de qualquer outra produção mundial que tenta ser manipuladora?Filmar é uma arte coletiva. Por isso, você tem de ser muito perspicaz e em sintonia com seus sentimentos. Porque é muito fácil você perder sua integridade por causa de um passo em falso de outra pessoa. Isso felizmente não acontece com um músico ou um pintor. Se eles não acertam, a responsabilidade é só deles. Agora me vem em mente uma história que tive com Peter Brook. Propus a ele que dirigisse a adaptação de um livro que gostei muito, Talking with Angels. Peter ficou interessado, mas, quando terminou de ler o livro, ele achou que o filme resultaria em algo muito imponente para o público. Você tem de convidar as pessoas, não impor nada a elas.Quando você fez Perdas e Danos, de Louis Malle, a imprensa inglesa não foi muito razoável. Sendo autocrítica, como lida também com a crítica especializada?Eu procuro escutar o que estão dizendo, apesar de não concordar muitas vezes. No caso específico da imprensa inglesa, eles foram muito duros comigo não só como Perdas e Danos, mas também com o remake do O Morro dos Ventos Uivantes (co-estrelado por Ralph Fiennes). Primeiro porque são filmes baseados em livros muito populares no país e, em segundo lugar, eu parto do pressuposto de que não fui convincente para eles. Confesso que fiquei um pouco paranóica, pois havia muito sarcasmo no que eles escreviam. Não foi fácil trabalhar em outra língua. Cheguei ao extremo de pensar que, se continuasse achando tão difícil assim, eu não queria fazer mais. Quando fiz Naked no teatro, a reação não poderia ter sido melhor.E como está sendo trabalhar em inglês agora, especialmente com Betrayal, na Broadway?Trabalhar em outro idioma é sempre muito díficil. Mas eu tenho muito prazer em fazê-lo. É algo totalmente libertário, pois você está se afastando de sua língua paterna, quebrando uma tradição, buscando um novo espírito, uma nova paisagem. O crítico do The New York Times acha que minha presença em Betrayal é um erro de casting, pois meu inglês não está perfeito. Bem, eu não esqueci nenhuma palavra em palco. O mesmo não posso dizer de meus dois colegas americanos (risos).Seu primeiro grande filme foi Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard. Ainda mantém contato com ele?Recentemente, ele estava com um projeto de fazer um filme sobre a Resistência. Na verdade, sobre um produtor americano que vai para a França - e a idéia era a de ter Spielberg - para negociar os direitos de compra da história de Lucie Aubrac, e montá-la com atores ingleses. Na verdade, uma análise de histórias fortes de nosso país sendo vendidas para companhias americanas. Godard é muito interessado em história da Resistência e ele queria que eu me envolvesse com o projeto, ainda mais que eu fui despedida por Claude Berri da adaptação que ele fez de Lucie Aubrac (o longa Lucie Aubrac - Um Amor em Tempo de Guerra, de 1997, acabou sendo estrelado por Carole Bouquet). A gente se encontrou muitas vezes e falamos sobre a Resistência e Claude Berri. Desde então, só nos comunicamos por telefone. E faz tempo que ele não me liga.O que acha do cinema dele?Godard é uma força interessante. Ele às vezes é muito nervoso para o meu gosto, mas faz escolhas fortes e, nesse sentido, eu o admiro muito. Não é facil para ele, pois Godard foi uma grande figura e agora ele tentar sobreviver a isso, de sua própria maneira. Eu o acho um grande diretor, alguém que nunca se comprometeu com nada.

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