Juliette Binoche dá vida a "Décalage Horaire"

Essa mulher não existe. Às 11 horas damanhã, a francesa Juliette Binoche está linda, radiante como umamanhã de sol nessa Paris cinzenta e fria de inverno. Juliettenão usa nenhuma maquiagem. Beleza pura. Não admira que seja umdos rostos da Lancôme. Juliette Binoche recebe a reportagem do Estado numa suíte do Hotel Hyatt Park para falar deDécalage Horaire, o filme que fez com Jean Reno, sob adireção de Danièle Thompson. Surpresa: durante a entrevista,Jean Reno irrompe na sala "só para dizer alô a Juliette". Ofilme é uma bobagem. Um homem e uma mulher conhecem-se por causade um quiprocó envolvendo um celular. Passam o filme brigando,cada um com seus problemas, mas o espectador sabe que estãocondenados a ficar juntos.Danièle Thompson, a roteirista de Patrice Chéreau em ARainha Margot, tenta subverter a tradição da comédia românticaamericana. Os personagens não agem exatamente como o espectadorestá acostumado a ver nesse tipo de filme made in Hollywood. Háalgumas observações interessantes, mas o charme do filme vem doelenco. Quer dizer: de Juliette. Como é, para ela, fazer essespapéis mais leves, aqui e em Chocolate, de Lasse Hallstrom?Afinal, Juliette trabalhou com Krzysztof Kieslowski no denso eprofundo A Liberdade É Azul. Ela reconhece que seu encontrocom Kieslowski foi mágico. Sabe que Bleu foi (é) seu melhorfilme. Mas não reconhece diferença entre papéis leves e pesados."Acredite, é tudo difícil. Fazer cinema é uma coisa difícil",revela.A pergunta sobre Walter Salles é inevitável. Iam fazerjuntos The Assumption of a Virgin na Itália, mas Sallesdesistiu do projeto. Juliette continua querendo fazer essahistória de fé que a arrebata. Tem urgência, pois nesse caso aidade é importante. Daqui a pouco não servirá mais para apersonagem. Tem outro projeto com Salles. "O roteiro já estábem adiantado, será bem interessante", antecipa. E mais não dizporque acrescenta que cabe a Salles divulgar os detalhes doprojeto no Brasil. O próximo filme, em março, terá direção deJohn Boorman. Uma história de consciência política ambientada naÁfrica do Sul. Juliette está devorando todos os livros possíveispara inteirar-se da realidade sul-africana. Diz que costuma serassim com ela. Lê muito, mas de maneira irregular. Às vezes, nãolê nada. Outras, como agora, lê só livros relacionados aotrabalho.É uma atriz que precisa acreditar no que faz. "Um filmeé como um homem; a gente precisa estar apaixonada para aceitartodos os desafios de uma relação." O filme é como uma relação:exige entrega total. "Cinema é feito de encontros", filosofa."Quando o encontro dá certo, sai todo mundo enriquecido: odiretor, os atores, os técnicos, o público." Assim como nãodivide os papéis em leves e profundos, também não divide osfilmes em comerciais e de arte. Tem uma regra básica: é umaatriz, ganha pelo que faz, mas não filma por causa do dinheiro."Se preciso dinheiro, faço publicidade", revela. "O cinema ésagrado, faço por causa da chama."Influência - Seu desejo é acreditar que o cinema podemudar o mundo. "Talvez não mude o mundo, mas muda as pessoas eessa é uma maneira de atuar." Confessa-se influenciada portodos os bons filmes que viu, pelos bons filmes que interpretou.Nunca fica triste pelos papéis que recusa e que eventualmenteresultem em bons filmes. "Juro que o meu sentimento é dejúbilo: que bom que alguém fez e saiu bom." Pelo contrário,sente-se culpada quando recusa um filme, ele é feito com outraatriz e sai uma porcaria. Juliette é a própria encarnação dosentimento judaico-cristão. Gostou do filme de Robert Guédiguian, Marie-Jo e Seus Dois Amores, mas não consegue imaginar-sedividida entre dois homens. Ama com intensidade, precisadevotar-se a um só homem. "Feliz dele", observa o repórter.Ela sorri e diz: "Espero."Glamour - A vida de atriz não é tão glamourosa como aspessoas pensam. Agora mesmo está sem babá para os dois filhos.Não tem sábado nem domingo livres: trabalha o tempo todo. Já queo assunto é família e ela se predispõe a falar sobre o assunto -coisa que muitos atores recusam -, faz revelações interessantessobre os pais. "Minha mãe é muito crítica em relação ao quefaço; não gosta de nada ou pelo menos vê defeito em tudo. Meupai, pelo contrário, me apóia integralmente." Foi com apoio dopai que entrou para o Conservatório, disposta a tornar-se atriz.Pisou no palco e ganhou certa projeção no teatro antes de viraratriz de cinema. Isso lhe dá uma bagagem. Fez, recentemente,Betrayal, de Harold Pinter, em inglês, em Nova York. Adorou aexperiência, o texto.Tudo começa, em Décalage Horaire, por causa de umcelular, num aeroporto. O celular de Juliette não funciona, JeanReno passa falando no dele e ela simplesmente arranca essecelular da mão do outro. Acha o celular uma doença, um vício davida moderna. "É ótimo, onde quer que esteja você conseguefalar com o mundo. Mas é um inferno. Cria uma dependênciaterrível. Agora mesmo, vim pelo corredor e havia todas essaspessoas berrando nos seus celulares." Admite que o mundomoderno não comporta mais as relações epistolares, mas diz:"Continuo achando que conversa direta, e não por meio deaparelhos, é a melhor maneira de fortalecer as relações."Diante do seu olhar que transmite tanta sinceridade, como nãoacreditar que Juliette Binoche esteja dizendo a verdade?

Agencia Estado,

21 de janeiro de 2003 | 15h49

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