'Julieta', de Almodóvar, usa mãe e filha para refletir sobre o mundo e o cinema

Em Cannes, diretor explicou por que teve de filmar Alice Munro em espanhol

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2016 | 05h00

Tem havido um equívoco na abordagem de Julieta, o novo longa de Pedro Almodóvar, que estreia nesta quinta, 7. Antes de falar sobre ele, cabe destacar que o mercado não anda muito receptivo com o filme médio brasileiro nem com o cinema de autor europeu. Na entrevista que deu ao Estado sobre os números baixos de Trago Comigo, o belo filme de Tata Amaral, Adhemar Oliveira, do Grupo Espaço, disse que muito filme francês que antes faria números expressivos agora bate na metade, e isso quando chega lá. Adhemar colocou sua expectativa - na reversão desse quadro - nos novos filmes de Almodóvar e Woody Allen. Julieta está chegando, Café Society fica para as próximas semanas.

Almodóvar, portanto. E, sim, o equívoco. Tem muita gente dizendo que ele se esgotou como autor. Como não consegue criar mais nada novo, Almodóvar se repetiria, e errando. Até quem gosta médio de Julieta arrisca que o autor se repete. Na verdade, o filme é tão novo na trajetória do autor que Almodóvar agregou elementos de seu universo anterior para que o público, pelo menos em parte, o reconhecesse e, quem sabe, seguisse nessa viagem. Pois Julieta encerra uma viagem. Nenhum filme de Almodóvar percorre universos tão vastos, saltando de uma cidade a outra. E tem o mar. Julieta é sobre uma relação mãe e filha, mas a protagonista não se assemelha a nenhuma outra mãe de Almodóvar. O filme não é um melodrama, mas uma tragédia. Chamava-se inicialmente Silêncio, como um dos três contos de Alice Munro - em Fugitiva - em que o diretor e roteirista se baseou. Um filme de Almodóvar baseado no silêncio? E sombrio, ainda por cima.

Em Cannes, na coletiva de seu filme, Almodóvar se explicou. “Desde Má Educação, tenho a impressão de que meus filmes estão cada vez mais sombrios. Não tenho mais o mesmo gosto pelas histórias do começo de minha carreira. Tem a ver com a idade e com o tempo que passa, mas também com meu estado de espírito, a vida que levo, minha visão do mundo. Amantes Passageiros foi uma exceção, um piscar de olhos com o público e comigo mesmo, no estilo desordenado de meus primeiros filmes, de forma a mostrar que não mudei tanto assim. Mas, dessa vez, e de forma até violenta para mim, que sou um barroco, a própria escolha de Alice Munro me forçou a ser simples. Para mim, a dor não é um tema em Julieta, mas uma das personagens e talvez a personagem mais importante do filme.” 

Para prosseguir com qualquer conversa sobre Pedro Almodóvar – e Julieta – é bom ir logo esclarecendo um ponto importante. Almodóvar é um dos grandes do cinema, mas qual é seu maior filme? Alguém dirá Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, que culmina sua primeira fase, outros lembrarão Tudo Sobre Minha Mãe e claro que Volver terá boa cotação. Mas o melhor Almodóvar, e com isso não se negocia, é Carne Trêmula – outro de seus raros filmes adaptados. No caso, livremente adaptado de Ruth Rendell, como Julieta é livremente adaptado de Alice Munro. Às vezes, mesmo um autor tão fortemente pessoal como ele precisa se distanciar um pouco de si mesmo para atingir profundidades abissais.

Em Cannes, na coletiva de Julieta, Almodóvar contou que, por um triz, o filme que agora estreia não foi seu primeiro em língua inglesa. “Cheguei a pensar em fazê-lo no Canadá, e até pesquisei onde poderia filmar. Descartei porque é um país muito frio e eu não conseguiria viver cinco meses no inverno, e numa língua estrangeira. Pensei então em Nova York, que tem uma cultura latina muito forte, mas, de novo, esbarrei na língua. Não conseguiria ser autêntico filmando em inglês.” Julieta só começou a tomar forma quando Almodóvar se decidiu pela Espanha. Mesmo assim, o projeto tardou muito. Consumiu anos. “Se eu tivesse feito antes, a mãe seria diferente, mais próxima de meus filmes anteriores.”

Tinha de ser em espanhol – há uma sonoridade especial quando Julieta inicia a carta para a filha. O filme toma a forma de um longo flash-back. Julieta é essa mulher que guarda um segredo, e uma dor. A filha desertou dela, sumiu no mundo. Mas Julieta nunca desistiu de Antía. E, logo no começo, escreve a carta que nem sabe se chegará um dia à destinatária. “Voy a contarte todo.” Está feita a diferença. A garota partiu para reconstruir sua vida longe. Algo houve – você terá de ver o filme para saber o quê. Antía culpa a mãe, mas nem precisaria, porque Julieta é consumida pela dor da culpa. Num romance policial, seria a culpada, mesmo que, a rigor, não possa ser acusada de... Quê mesmo? Visto por esse ângulo, Julieta é um filme político, e de ressonâncias muito particulares no Brasil de hoje.

Se a dor é personagem, como diz o diretor no texto da capa, a cor saturada – o vermelho sangue, ou paixão – é o que liga Julieta à obra anterior. Cahiers du Cinéma, que colocou o filme nas nuvens – às vezes, a revista acerta –, chamou sua crítica de Dores e Cores. De novo, na coletiva em Cannes, Almodóvar esclareceu – “Minha descoberta do cinema está muito ligada ao Technicolor. Comecei amando aqueles filmes de cores muito saturadas. Posso ter evoluído para outros filmes, e autores, mas as cores ficaram. E, depois, eu precisava da cor. Julieta é muito sombrio, muito duro. Sem a intensidade, e luminosidade da cor para balançar, poderia ficar insuportável.” A dor, a cor – e o trem. Logo no começo da carta, quando Julieta passa a contar tudo, a ação passa-se num trem. É onde Julieta conhece Xoan, o futuro pai de sua filha, e tem o presságio de morte.

Pois a morte é importante em Julieta, como o mar. Xoan é pescador como Ulisses era marinheiro na Odisseia. O que Homero tem a ver com isso? Tudo. Julieta leciona história da literatura grega. O mar não é só paisagem. É um dos signos da tragédia de Julieta. O trem remete a Alfred Hitchcock, que é uma das influências no novo Almodóvar. Na coletiva, em Cannes, Almodóvar disse que ninguém sabia filmar num trem como Hitchcock, mas ele ousou. A morte, o sexo, tudo ocorre no trem. E, quando Julieta vai atrás de Xoan, entra em cena a governanta, numa referência direta a Rebecca, de 1940, único filme do mestre a ganhar o Oscar (mas ele não foi melhor diretor). Marian, a governanta, vai desencadear a tragédia com um comentário maldoso. E aí, é Almodóvar quem conta, Hitchcock cede espaço a Jean Genet – As Criadas.

O tempo todo Almodóvar sabia que queria trabalhar com duas atrizes para expressar a juventude e maturidade de Julieta – a deslumbrante Adriana Ugarte (linda!) e Emma Suarez foram as escolhidas. Num filme que trabalha muito com a elipse, não há elipse justamente na passagem temporal de uma a outra. Almodóvar explicou que, educado por salesianos, sempre gostou muito da história de Verônica, que secou o sangue e o suor do Cristo com um véu branco. Outro véu faz a passagem em Almodóvar. Já que falamos nas atrizes, vale citar o emprego (contra a corrente) da almodovariana Rossy De Palma, como a governanta. Para concluir, o plano mais misterioso do filme é o do cervo na neve, que Julieta vê do trem. “No livro é um lobo prateado, que não temos na Espanha. Resolvi adaptar porque, para mim, era fundamental. Não sei nem se o espectador retém a imagem, mas completa alguma coisa no meu inconsciente”, ele revelou, na coletiva. O que, cabe ao público decifrar.

 

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