Julien Schnabel resgata memória de Reinaldo Arenas

Julian Schnabel, o aclamado pintor e artista plástico responsável pelo filme Basquiat, está de volta com outro retrato de um nome "outsider". O diretor está promovendo Before Night Falls, sobre a vida do poeta cubano Reinaldo Arenas, que foi perseguido por publicar livros sem a autorização do governo e por ser abertamente homossexual. Estrelado pelo espanhol Javier Bardem, o filme é uma sensível radiografia de como o comportamento considerado subversivo continuou florescendo no país mesmo com todas as proibições oficiais.Arenas, que morreu de aids em Nova York em 1990, é considerado um dos maiores talentos latino-americanos surgidos na geração dos anos 60. Ele ganhou um dos mais importantes prêmios literários do país aos 21 anos, mas, com a revolução, passou a ser perseguido, publicando livros graças ao contrabando de manuscritos por pessoas interessadas no trabalho dele. Autor de diversas obras - algumas escritas várias vezes, por conta de originais perdidos ou confiscados -, ele se destacou por sua linguagem sensível, que abordava temas como a pansexualidade e a relação de mães e filhos.O filme, que foi um dos destaques da 38ª edição do New York Film Festival, é baseado na biografia Antes Que Anoiteça, que foi ditada pelo poeta a seu amigo Lazaro em seus últimos meses de vida e publicada anos depois de sua morte. Rodado no México e com uma série de "liberdades estéticas" (como o uso de diferentes tipos de filmes, com tonalidades distintas), o filme mostra que Schnabel conseguiu fazer uma ótima transição do mundo das artes para o cinema.Com trabalhos fazendo parte dos acervos de instituições como o Museum of Modern Art de Nova York, Whitney, Guggenheim, Tate Modern e Georges Pompidou, ele diz que começou a se interessar por Arenas pela "sensibilidade e vulnerabilidade" do trabalho do escritor. Poucos registros da vida do poeta estão disponíveis e apenas algumas imagens dele aparecem em um documentário dos anos 80. "Acho interessante perceber como a sexualidade e, principalmente, o homossexualismo, funcionaram como uma espécie de arma de protesto na Cuba pós-revolução", disse Schnabel em sua entrevista no New York Film Festival. O diretor, que é casado e pai de cinco filhos, acha que o comportamento gay é "como a arte ou como a grama". "Por mais que você tente acabar, ele sempre estará crescendo no meio do concreto."Schnabel fez várias visitas a Cuba para conhecer amigos de Arenas e entender melhor a cultura local. O ator Javier Bardem também passou várias temporadas em Havana para aprender o sotaque local e descobrir detalhes. "Como não havia muito material disponível, tivemos que fazer pesquisas com amigos e conhecidos dele", diz o ator. Eles também contaram com a ajuda de Lazaro, que trabalhava como porteiro em Nova York e hoje trabalha como assistente do estúdio de Schnabel.O filme também tem ótimas participações especiais de Sean Penn, como um caipira do interior, e Johnny Depp, como um travesti que comanda o mercado negro da prisão local. "Foi importante ter esses dois grandes nomes no filme para atrair mais atenção para o trabalho de Arenas, que ainda não foi reconhecido como deveria", diz Schnabel.Ele agora espera que o filme possa ser exibido em Cuba, onde muitas pessoas não sabem da existência do poeta, nem dos campos de concentração para homossexais e outros "subversivos", que foram instituídos logo após a revolução. "Meu sonho é ser convidado para exibir o filme por lá, mas, se isso não acontecer tenho certeza de que muita gente vai dar um jeito de piratear cópias para o país."

Agencia Estado,

12 de outubro de 2000 | 16h46

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