Juliana Rojas apresenta o musical fúnebre ‘Sinfonia da Necrópole’

Misto de comédia e crítica social, primeira produção solo da diretora é originalíssima

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2014 | 19h50

PAULÍNIA - Em seu primeiro filme solo, a diretora Juliana Rojas (sua estreia foi com Trabalhar Cansa, parceria com Marco Dutra) ousa e faz uma comédia necrológica. Mais ainda, Sinfonia da Necrópole, exibido na quarta, no 6.º Festival de Paulínia, é o que se poderia chamar de musical no campo santo, com toques de humor, negro ou não, crítica social e alusão, direta, à especulação imobiliária. 

Sinfonia da Necrópole é um originalíssimo musical fúnebre, quase inteiramente ambientado em um cemitério e com coveiros e funcionários do serviço funerário como protagonistas. Quais são? Deodato é um coveiro aprendiz que desmaia com a presença de cadáveres. O emprego foi arrumado por um tio, este sim um profissional dos enterros. Deodato só se entusiasma com o emprego quando chega uma nova funcionária, Jacqueline, disposta a repaginar o cemitério, aplicando técnicas modernas de gestão empresarial. Original, divertido, crítico e brechtiano, Sinfonia na Necrópole é um grande acontecimento em nosso medíocre panorama cinematográfico atual. 

Em entrevista, Juliana diz que se inspirou no teatro épico de Brecht e nas músicas de Kurt Weil para conceber essa comédia negra. O desejo de lidar com o tema da morte de maneira humorística parece bem presente. Lembra as ideias de Philippe Ariès, o pensador francês que escreveu o clássico História da Morte no Ocidente. Ariès defendia que o riso funciona como uma espécie de proteção contra o pensamento intolerável da finitude humana representada pela “indesejada das gentes”. 

“Acho que fui encontrando o tom ao longo do processo do filme”, afirma Juliana. Ela diz que gosta de primeiro pensar numa ideia, ou numa série de ideias que deseja filmar e, apenas em seguida, encontrar o tom e o estilo mais adequados para exprimi-las. “Aqui, o musical e o tom cômico como que se impuseram, tendo em vista o que eu tinha em mente”, lembra. “Busco uma relação mais lúdica com o cinema e gosto também de evocar os filmes com os quais me divertia quando estudante, isto é, os de fantasia e de terror.” Filmes de gênero, como se costuma dizer no jargão do cinema. “De modo que Sinfonia na Necrópole evoca tanto o teatro épico de Brecht quanto as fantasias de Disney.” 

O filme evoca as preocupações de Juliana com o mundo do trabalho e a precarização das profissões com os novos métodos de gestão. Desse modo, o cemitério é como uma empresa, que precisa minimizar custos e maximizar lucros. Para isso, necessita “reestruturar” seu organograma. E tudo isso é dito com muita graça e leveza. Mas o tema principal talvez seja o da especulação imobiliária, que devasta uma cidade como São Paulo. Os mortos antigos devem ceder lugar aos mortos recentes e a única saída, para a falta de espaço é a verticalizacão dos túmulos. É uma espécie de Plano Diretor para as necrópoles da capital. A crítica é corrosiva. E brilhante. 

Documentários. Aprendi a Jogar com Você, de Murilo Salles é um documentário que destoa da mesmice do gênero no Brasil. Assume a técnica do cinema direto e reconstrói o cotidiano de Duda, um DJ da periferia e virador profissional, tentando sobreviver e agenciar shows nas margens do sistema musical. Duda seria um exemplo do surrado jeitinho brasileiro, não fosse ele mesmo um hábil malabarista da sobrevivência. A câmera acompanha o personagem de perto e com empatia, nunca julgando, talvez nos oferecendo uma possibilidade de compreensão de uma vida que não é a nossa (falo do ponto de vista da classe média, a dos cineastas e também do público). 

O Samba, de Georges Gachot. Um belo documentário deste franco-suíço, que deveria ser eleito brasileiro honorário pelo trabalho que vem fazendo pela música brasileira – são dele dois documentários anteriores sobre cantoras, um sobre Maria Bethânia, outro sobre Nana Caymmi. 

Neste, ele vai mais fundo, às raízes do mais fundamental ritmo brasileiro, o samba. Tendo Martinho da Vila como mestre de cerimônias, e a escola Unidos de Vila Isabel como palco, Samba mostra não apenas o enraizamento popular da música como seu caráter refinado. Martinho diz coisas muito inteligentes, e canta, com sua voz característica, alguns dos seus sucessos. Mas há uma estrutura no filme que vai além da simples apresentação de números musicais. É como vermos imergir, por meio da música, um País em geral escondido e oculto, que se torna visível apenas pelo filtro marqueteiro do carnaval. E, no entanto, essa substância continua tendo existência real. É nosso cerne mesmo. E Gachot o descobre, amorosamente, como não conseguem fazer os brasileiros natos. 

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