Julia Roberts explica o sorriso de Mona Lisa

Há um mistério Julia Roberts, mas sua extensão você só percebe ao encontrar a linda mulher na suíte de um hotel de luxo de Los Angeles. Julia Roberts participa de encontros com jornalistas de todo o mundo para promover o filme O Sorriso de Mona Lisa, que estréia no dia 23 no Brasil. A expectativa da distribuidora Columbia é que Mona Lisa Smile (título original) receba várias indicações para o Oscar, incluindo uma para a própria Julia, que já recebeu o prêmio da Academia de Hollywood por seu papel em Erin Brockovich, Uma Mulher de Talento. O mistério é que Julia, a maior estrela de Hollywood, o maior salário de mulher na indústria do cinema, não é exatamente um tipo de fechar o comércio, como se dizia antigamente. Ou, como dizia o lendário Stanislaw Ponte Preta, imortal criação de Sérgio Porto, não é "uma mulher para 400 talheres".Julia é alta, tem o rosto miúdo. No supermercado ou na fila do cinema, você, provavelmente, não olharia duas vezes para ela. As curvas que ostentava no cartaz de Uma Linda Mulher não batem com a realidade e aí você se lembra que o corpo deslumbrante que seduzia o milionário Richard Gere (e o público) foi providenciado por uma dublê. Julia tem fama de antipática. Não é, mas também não se preocupa em ser simpática. Conversa olhando o repórter nos olhos, responde a todas as perguntas. É seca, às vezes irônica. Adorou fazer o filme de Mike Newell. Em O Sorriso de Mona Lisa, ela é Katherine, professora de arte no exclusivíssimo Wellesley College, em 1954. Wellesley é uma escola de elite, para onde vão as garotas mais ricas e chiques da América.Katherine chega cheia de idéias, querendo influenciar essas moças. Tem um choque logo na primeira aula. Elas sabem tudo sobre as obras de arte que mostra - mas sabem superficialmente, informações adquiridas em compêndios de boas maneiras, contando aquilo que moças de boa família devem saber para manter uma conversação agradável no convívio social. O objetivo final das moças do Wellesley College é o casamento. Katherine vai subverter esse quadro. Vai influenciá-las para tentar algo diferente, para ousar mais, num momento em que o sonho americano de sucesso e dinheiro e o ideal de felicidade da América começam a soçobrar. No processo, será influenciada, também. Filme de mulheres - "Foi o que me pareceu mais interessante no papel", Julia explica. "Katherine está muito à frente de seu tempo. Também personifica o que há de melhor no espírito de quem trabalha com educação - respeita a individualidade e leva as alunas a testarem seus limites." Se tivesse sido professora, como pensava, antes de virar atriz, Julia gostaria de ser assim. E não é só Katherine que a fascina, a época também. "É o ponto de partida da revolução que vai tornar a voz da mulher mais ouvida na sociedade. Sem a revolução de Katherine, não chegaríamos a Erin Brockovich, mais tarde", ela diz. É um filme de mulheres. Julia concorda, mas faz uma observação: "Acho que os homens também poderão encontrar material para reflexão em O Sorriso de Mona Lisa. No limite, é um filme sobre a luta do indivíduo, tanto faz que seja homem ou mulher, para encontrar seu lugar na vida e a maneira de dar o melhor de si."Julia fala pouco da vida pessoal. O namorado, que é cameraman, veio no pacote oferecido ao diretor Newell e é reconhecido como um dos melhores operadores de câmera de Hollywood. Julia conta que o namorado manteve o profissionalismo e fez um grande trabalho ao filmar a cena em que ela beija Dominic West, que faz o professor por quem se apaixona. "Por via das dúvidas", ela conta, no raro momento em que abre seu sorriso, quase tão famoso como o da própria Mona Lisa, "tentamos acertar de primeira e terminamos rodando a cena uma só vez". No filme, sua personagem ganha o respeito das alunas, mas perde no amor. O que Julia pensa disso? "Na vida temos de saber dosar vitórias e derrotas. Nem sempre a gente obtém o que quer. O importante é usar nossos fracassos como forma de autoconhecimento e não como barreiras intransponíveis."

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