Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Júlia Lemmertz conta como foi fazer 'Pequeno Segredo', o polêmico candidato do Brasil no Oscar

Atriz reage contra o que considera perseguição ao filme de David Schürmann

Entrevista com

Júlia Lemmertz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2016 | 04h00

É agora - será na próxima quinta, 10, a tão aguardada estreia de Pequeno Segredo. Nunca a indicação de um filme brasileiro para concorrer ao Oscar provocou tanta polêmica. Havia, por parte da crítica, a expectativa de que Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, fosse o indicado, mas a comissão formada pelo MinC preferiu o longa de David Schürmann, sob a alegação de que tem ‘cara de Oscar’. Essa fantasia existe na cabeça de muitas pessoas, mas não corresponde à realidade (leia análise). E o problema, de qualquer maneira, virou político. Aquarius não teria sido escolhido (não foi?) por causa do protesto da equipe no tapete vermelho de Cannes, denunciando o ‘golpe’ contra a ex-presidente Dilma Rousseff no Brasil.

Afável por natureza - “é a estrela mais dócil que já cliquei”, diz a fotógrafa Gabriela Biló -, Júlia Lemmertz reage contra o que considera perseguição ao filme de David Schürmann. “Respeito a opinião de todo o mundo, mas sair na imprensa que era o pior filme brasileiro, e a afirmação feita por um cara que nem crítico é, foi demais. Coisa pra causar. Eu, por exemplo, gosto muito de Boi Neon (de Gabriel Mascaro). Se tivesse sido escolhido, qual seria a reação? Gostar ou não de Pequeno Segredo é direito de cada um, mas é preciso reconhecer que o filme foi feito com muito amor, muito respeito. E é honesto. Se isso o credencia para o Oscar, é outra história, mas criar essa fantasia do filme golpista, não dá. Como se o David tivesse participado de uma conspiração...”

Pequeno Segredo baseia-se na história real da família Schürmann, velejadores brasileiros que vivem singrando os mares do mundo. “É uma família aventureira, que desperta muito carinho no público por seu estilo de vida. A mãe, Heloisa, escreveu esse livro, contando a história da filha, Kat. É um livro devastador, pungente. David se baseou no livro e trouxe a história da família dele para o cinema convencido de que a Kat merecia. Não tem nenhum complô nisso. Em outras circunstâncias, seria só um filme, que eu iria defender. Virou essa coisa política.” A essa altura, o segredo de Kat é de Polichinelo. Todo mundo já sabe, mas vamos mantê-lo no texto, à espera de que o leitor faça sua descoberta como espectador.

Por pouco, Júlia não deixou de fazer Pequeno Segredo. David Schurmann fez o contato, ela conheceu Heloisa, leu o livro. “Uau! É muito forte”, pensou consigo mesma. Mas aí o filme atrasou, Júlia foi escalada para uma novela de Manoel Carlos. “Quando terminei Em Família, o David ainda ia começar a filmar. Retomei o contato e fiz.” Sábia decisão do diretor. Júlia é irretocável no papel. Na tal crítica destrutiva de Pequeno Segredo, ela é destroçada como atriz. Não pode - aí é desonestidade intelectual. Como fazer essa mulher, Heloísa? “Quando íamos filmar, voltei a falar com ela, bem na véspera da atual viagem da família pelo mundo, que ainda não terminou. Heloísa é muito forte. O David me dizia: ‘Minha mãe pode ter seus momentos de fraqueza, mas ela vai chorar no seu canto, distante de todos’. O que ela fez pela Kat foi muito bonito. Eu tinha de honrar. Não podia estragar.”

Como se trabalha a emoção? Como uma atriz faz seu ofício? “Tive de passar por uma preparação. Aprendi a desfraldar a vela, a segurar o timão. É uma coisa que poderia fazer, pensava. Então, tem um lado físico muito intenso, essa coisa de filmar no mar, que é difícil. E, ao mesmo tempo, nos sentimentos, eu pensava que tinha de segurar. Sempre menos, para que na tela apareça mais.” O filme vai fazer sucesso? “Espero, mas não pelo sucesso em si. Se muitas pessoas virem, é porque vão se sentir tocadas. A gente tá num momento tão difícil. Essa coisa ‘Pau, pedra, é o fim do caminho.’ Acho legal, bacana, se uma coisa tão dolorida tocar as pessoas. ‘Olha, nós precisamos de amor, de compreensão, de apoio.’ O que a Heloísa e o marido fizeram não é para qualquer um. E é bom bradar isso para o mundo.”

Toda essa conversa foi feita numa manhã, por telefone. Júlia tem andado muito ocupada, por conta da peça A Comédia Latino-americana. “É outra experiência maravilhosa.” Trata-se de um díptico. Primeiro, A Tragédia Latino-americana e, agora, A Comédia. “É uma seleção muito rica de textos que o Felipe (Hirsch, diretor) está montando de uma forma original. Não é um espetáculo definitivo. Ele propõe coisas. ‘Hoje, vamos fazer diferente.’ E é impressionante como, simplesmente por mudar uma cena de lugar, o espetáculo se transforma. Quem viu no começo e revir agora, talvez não seja outro espetáculo, mas é certamente diferente.” Júlia está prometida para uma próxima novela de Vinicius Coimbra, Novo Mundo. “É de época, como Liberdade, Liberdade. Já está sendo gravada, mas entro mais adiante e ainda não comecei.” Está entusiasmada. “Vinicius é bárbaro, desses caras que estão inovando na TV. É ousado, criativo.”

E tem outro filme no caminho. O longa de estreia de Ismael Caneppele, roteirista de Esmir Filho em Os Famosos e os Duendes da Morte. “É uma adaptação de um livro dele, Música para Quando as Luzes se Apagam, já escrito como ensaio para o filme. Mexe com essa coisa de gênero. Uma menina que vira menino, e não numa cidade grande, mas numa comunidade interiorana. Todo mundo se conhece e faz o próprio papel. Sou a única atriz. Filmamos no interior do Rio Grande, na região de Lageado. Foi mágico mergulhar nesse lugar sem saber exatamente aonde estávamos indo. Não quero falar mais porque o Ismael ainda não colocou o filme na rua. Só posso dizer que é inclassificável e, para mim, foi muito estimulante.”

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Como está a campanha de Pequeno Segredo no Oscar?

Tem um site de cinema aqui, o The Wrap, que fez uma pré-seleção e, dos 85 títulos que buscam indicações no Oscar de filme estrangeiro, escolheu 15. Pequeno Segredo é um deles. O site organiza projeções para convidados. Vai gente do Oscar, do Globo de Ouro. A primeira foi na quinta, 3. No Festival do Rio, onde mostramos o filme, todo mundo conhecia a gente. Aqui, ninguém. O filme foi muito aplaudido, teve debate disputadíssimo no final, um sucesso.

Você ficou mais confiante?

Cara, confiante sempre fui. Fiquei mais tranquilo, depois de todos aqueles ataques que sofremos no Brasil.

E como está sendo o investimento para promover o filme no Oscar?

Por enquanto, estou só no cartão de crédito. Não quero nem ver quando cair a conta. A Ancine libera uma verba de US$ 60 mil para o indicado, mas ainda não saiu, por causa da burocracia. Tem gente que também diz que vai investir, mas até agora nada. E é o momento. Não dá para esperar dezembro, porque aí já vai sair a short list (de nove finalistas ).

O filme entra grande no Brasil, no dia 10?

Vai ser um lançamento de 250 a 300 salas.

E....?

Cara, tanta gente falou mal de mim, do filme, sem nem ter visto. Mas é uma coisa política. Para cada ataque, recebo 100 e-mails do público, torcendo. Tudo pela Kat. Se for, vai ser ela.

 

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