BBC Films
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'Judy' retrata os últimos e doloridos meses de vida da atriz Judy Garland

Filme relata os últimos seis meses de vida da atriz e cantora, que morreu de overdose em 1969, quando não passava dos 47 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 06h00

A voz já falseava, a silhueta mignon sofria com uma dieta à base de pílulas, a solidão era um mal constante, mas o carisma continuava intacto: bastava assumir o palco que, mesmo embriagada e um tanto desorientada, Judy Garland hipnotizava o público com sua habitual performance visceral. “Judy era divertida e triste, talentosa e incompetente, rica e pobre, inteligente e ignorante, repleta de amor e desesperadamente não amada”, comenta o dramaturgo inglês Peter Quilter, cuja peça Judy Garland – O Fim do Arco Íris inspirou o filme Judy, que já tem sessões especiais no cinema – a estreia acontece dia 30.

Trata-se do relato dos últimos seis meses de vida da atriz e cantora, que morreu de overdose em 1969, quando não passava dos 47 anos. Naquele período, Judy se apresentou durante semanas na casa de shows Talk of the Town, em Londres, único lugar que ainda valorizava o talento da eterna Dorothy, personagem de O Mágico de Oz (1939), que a imortalizou. Mas não foi um momento tranquilo – longe dos filhos, iludida pelo quinto marido, ela vivia eternamente só. É essa mulher debilitada fisicamente e desiludida com a vida que Renée Zellweger interpreta com perfeição em Judy, uma caracterização que a tornou favorita ao Oscar de melhor atriz.

Se a peça se concentra nos últimos meses de sua vida, o filme relembra momentos decisivos, como o assédio que Judy sofreu de Louis B. Mayer, mega produtor que a lançou em 1935 e que, além de constantemente lhe apalpar o seio esquerdo (pois dali, do coração, brotava sua bela voz) e de impor uma dieta rigorosa (nem o bolo do próprio aniversário ela podia provar), ele também determinava o consumo de anfetaminas e barbitúricos, seja para dormir ou ficar acordada durante horas, a fim de suportar os longos períodos de filmagens. Isso tornou Judy viciada para o resto da vida. Apesar do sucesso e do reconhecimento, ela foi atormentada pelo baixo autoestima e pela eterna dor da solidão. Sobre o assunto, Quilter falou ao Estado.

Judy Garland normalmente é associada à extrema tragédia ou ao extremo otimismo. Sua peça (e o filme) a mostram de uma maneira diferente, uma mulher complexa e multidimensional.

Sempre achei que uma das minhas mais importantes tarefas como dramaturgo era fazer com que as pessoas no palco se pareçam totalmente reais. Com frequência, nos oferecem falsas versões ou representações superficiais das pessoas. Judy foi um produto de Hollywood e assim nos era dito quem ela era. Uma starlet, uma lenda, uma tragédia. Mas as pessoas são muito mais complexas do que sua imagem na mídia. Na peça, quis mostrar cada parte dela. Divertida e triste, talentosa e incompetente, rica e pobre, inteligente e ignorante, repleta de amor e desesperadamente não amada. Quando um personagem é mostrado com todas essas contradições e complexidades, você acredita que é um ser humano real que está diante de você. É isso que esperamos dar ao público pela primeira vez. A sensação de que estão no quarto com Judy. Vê-la, conhecê-la, compreendê-la, respirar o mesmo ar.

A propósito, que tal o desempenho de Renée?

Vi o filme ainda no seu primeiro corte antes de qualquer outra pessoa e o desempenho dela é digno de um prêmio; incrivelmente poderoso. Ela não tentou personificar totalmente Judy Garland, mas capturar a sua essência, seu espírito. É muito comovente e dramático. Você esquece que está vendo Renée Zellweger. O que se vê na tela é Judy.

A forma de trabalhar de Louis B. Mayer é trágica, um exemplo de como o sistema de trabalho de Hollywood funcionava na década de 1930. Como Judy foi fabricada e destruída por esse sistema?

Era uma fábrica. Enquanto você continua a produzir as coisas boas que eles querem, tudo bem. Mas não têm nenhuma consideração pelo fato de que as pessoas são diferentes. Algumas sobrevivem às longas horas de trabalho, às demandas dos refletores, à pressão. Outras entram em colapso. E, quando não conseguem mais dar a eles o que desejam, 18 horas de trabalho por dia, eles as marginalizam. Além disso, no caso de Judy, ela ficou viciada em todos aqueles medicamentos que lhe deram e os problemas pioraram. Remédios para dormir, para despertar, para dançar, para se acalmar. O sistema de Hollywood não destruiu todo mundo. Mas destroçou Judy. Ela nunca escapou do seu passado.

O final do filme revela todo o talento de Judy, mas ela continua uma mulher só. Seria isso uma verdade?

Ela se casou com homens errados, todos eles. Alguns a usaram por sua fama e só queriam compartilhar os refletores. Outros eram mais gentis – mas eram gays, o que envolvia seus próprios dilemas. Ela nunca encontrou um amor verdadeiro, somente um desfile de homens inadequados. Na peça e no filme, ela está vivendo com seu novo namorado Mickey Deans (que foi seu último marido). Mickey era um jovem proprietário de uma boate. Ele não conseguiu lidar com a situação e, no fim, essa relação se tornou uma tragédia. Judy era amada pelo mundo todo no cinema e no palco. Mas, em sua vida privada, ela jamais encontrou o amor que tanto desejava. 

Claudia Netto vai novamente viver atriz no palco

Charles Möeller e Claudio Botelho vão estrear, em setembro, no Rio, uma nova produção de Judy Garland – O Fim do Arco-Íris, peça do inglês Peter Quilter. E Claudia Netto, como protagonista, voltará a viver um de seus grandes papéis – ela encantou o próprio Quilter na montagem carioca do espetáculo, criada pela dupla em 2011.

“Vou interpretar Antony, o pianista amigo. E vamos em busca do ator que viverá Mickey, o quinto marido de Judy”, conta Botelho, ressaltando a dramaticidade do texto. “É uma verdadeira descida ao inferno. Ela era, naquele momento, uma mulher feia, gorda, com dentes ruins, complexo de inferioridade mas, acima de tudo, com uma voz inigualável.” Como fez em 2011, Quilter virá ao Rio para a estreia.

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