Ettore Ferrari/ EFE
Ettore Ferrari/ EFE

Judi Dench, estrela do filme 'Victoria e Abdul', não gosta de assistir aos próprios filmes

Em entrevista, atriz diz que sempre acha falhas em seu trabalho

Alicia García de Francisco, EFE

30 de setembro de 2017 | 06h01

Aos 82 anos e com uma carreira brilhante, Judi Dench diz que não gosta de assistir a seus filmes antes de se passar um tempo porque sempre acha falhas nas interpretações – o que ocorreu agora ao ver no Festival de Veneza Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha, previsto para estrear no Brasil em 16 de novembro. “No teatro dá para mudar as coisas, melhorando-as, mas no cinema isso não é possível. Vi Victoria e Abdul e há muitas coisas que mudaria, mas é tarde. Por isso prefiro assistir aos filmes depois de já ter esquecido os problemas que passei ao fazer o papel”, diz a atriz britânica.

Judi sorri ao fazer o comentário no dia seguinte à estreia do filme dirigido por Stephen Frears no qual interpreta novamente a rainha Vitória, 20 anos depois de Sua Majestade, Mrs. Brown. Sua Majestade era centrado na relação da rainha com Brown, ex-criado do falecido marido de Vitória, o príncipe Alberto. Já o filme de Frears fala de outra estranha relação da rainha, com seu assessor indiano Abdul Karim (Ali Fazal).

Embora conhecendo bem sua personagem Vitória, Judi surpreendeu-se com o relacionamento da rainha com Abdul, que a atriz desconhecia. “Tenho quase 83 anos (completa em dezembro) e não imaginava o rigoroso planejamento que envolve a vida de uma mulher que tomava chá às 16h, tinha um compromisso às 16h30, outro às 16h45... e de repente conhece alguém com quem consegue pode conversar de igual para igual, o que não fazia com nenhum de seus filhos”, conta a atriz.

É uma relação complexa que Frears molda com preciosismo num filme rodado em lugares em que se passou a história. “Essa relação ampliou sua vida”, diz Judi da rainha, que conheceu Abdul em 1887, quando tinha 68 anos, e do qual continuou amiga até morrer, em 1901.

“Quando se tem interesse em alguém ou em alguma coisa, a pessoa ganha energia”, opina a atriz, que recebeu seu único Oscar ao interpretar outra rainha, Isabel I, em Shakespeare Apaixonado (1999). Judi afirma isso com base em sua experiência pessoal e após admitir que se sente solitária. “Neste ano, em janeiro, morreu meu irmão, o que marcou o fim de minha família, sou a última. Também morreram sete amigos muito próximos.”

Como sempre na vida de Judi, as perdas a levaram a refugiar-se no trabalho, como quando morreu seu marido, Michael Williams, em 2001 e ela fez três filmes – Chegadas e Partidas, Iris e Armadilhas do Coração – com dois dias de descanso entre eles. “Foi muito bom poder concentrar-me em algo diferente. Não dá para superar a perda, mas é possível usá-la de modo positivo”, explica a atriz, atenciosa e divertida até ao se recordar de momentos difíceis de sua vida. Com naturalidade, Judi assume que alguém precisa ler os roteiros para que ela os decore, pois está ficando cega. E brinca que não reconhece a si mesma no cartaz do filme que decora a sala. 

Na entrevista, Judi passa de um tema para outro com rapidez e humor britânico. Como quando lembra da participação na saga de James Bond: “Meu marido ficou encantado porque assim podia viver com uma Bond girl”, diverte-se. Ela também contou de quando sua filha Finty conheceu Pierce Brosnan nas filmagens de 007 Contra GoldenEye (1995): “Finty era muito jovem e quase caiu dura”.

Judi está encantada com seu último trabalho, Assassinato no Expresso do Oriente, que aceitou fazer por ser dirigida por Kenneth Branagh (já são dez as colaborações entre ambos), pelo papel em si e por se reencontrar com Johnny Depp, com quem trabalhou em Chocolate (2000) e por quem reconhece ter um fraco. “Ele ainda me parece sexy”, diz, suspirando exageradamente.

Judi assegura que escolhe seus filmes em função de com quem vai trabalhar, mas em Assassinato no Expresso do Oriente também entraram outros fatores. “Tinha muito pouco a fazer. Trabalho com Olivia Colman e dois cachorros, uso um montão de joias e ando de trem. Achei que podia dar conta e foi muito, muito agradável.”

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

ENTREVISTA: Atriz revela seus medos e uma paixonite

Você ainda não se cansou de representar rainhas? 

Um pouquinho. 

É verdade que um bando de escolares lhe dá medo? 

Não fico à vontade. Quando fizemos Notas Sobre um Escândalo, o primeiro dia de filmagem foi numa escola e me vi rodeada por crianças que não conhecia. Fiquei assustada (risos). 

Seu homem ideal é mesmo Johnny Depp?

Um deles.

Você ainda gosta de bordar frases obscenas em almofadas para dar de presente aos amigos?

Fiz muito isso, mas a vista já não deixa.  

Cleópatra foi seu papel favorito numa peça de Shakespeare? 

Adorei fazer porque foi um desafio. Era extraordinária.

Falando de romance entre mulheres mais velhas e homens jovens, Eileen Atkins disse que Colin Farrell, então com 28 anos, tentou seduzi-la quando filmavam Ask the Dust. Ela tinha 70.

É, falou-se muito nisso. 

Você gosta de estar sozinha?

Eu odeio estar sozinha. 

Tenho uma queda por Jeremy Paxman e sei que você também...

Então teremos que brigar por ele. Adoro seu programa, University Challenge. Quando o programa termina, David (Mills, companheiro de Judi) sempre pergunta se gostei. E sempre gosto. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.