Glen Wilson/Warner Bros. Pictures
Glen Wilson/Warner Bros. Pictures

'Judas e o Messias Negro’: o que você precisa saber sobre o filme

O filme, que concorre ao Globo de Ouro, mostra a vida e a morte de Fred Hampton, presidente do Partido dos Panteras Negras de Illinois

Sarah Bahr, The New York Times

17 de fevereiro de 2021 | 09h00

Para os negros americanos da década de 1960, que foram perseguidos e hostilizados pela polícia, Fred Hampton, 21 anos, era uma figura poderosa.

Para o FBI e seu diretor, J. Edgar Hoover, Hampton, o presidente do Partido dos Panteras Negras de Illinois, era uma ameaça radical.

Hampton foi assassinado por policiais de Chicago na manhã de 4 de dezembro de 1969, durante uma invasão em seu apartamento no West Side, que ficava a um quarteirão ao sul da sede do Partido dos Panteras Negras em Chicago. A emboscada e os meses em que o FBI vigiou Hampton e os Panteras que a precederam são mostrados no filme de Shaka King Judas e o Messias Negro, que começou a ser transmitido na sexta-feira, 12, pela HBO Max (a estreia, nos cinemas em São Paulo, será no dia 25).

Aqui está um guia de pessoas, grupos e eventos da vida real que aparecem em Judas e o Messias Negro. Esteja avisado, existem spoilers, se é que tal coisa é possível quando se fala de história.

Quem eram os Panteras Negras?

O Partido dos Panteras Negras foi fundado em 1966 em Oakland, Califórnia, por dois estudantes universitários negros, Bobby Seale e Huey P. Newton, para se opor à brutalidade policial e ao racismo nos bairros da cidade. Os Panteras, que eram conhecidos por suas boinas pretas de estilo militar, jaquetas de couro e saudação de punho erguido, acreditavam na remoção de policiais abusivos das comunidades por todos os meios necessários, incluindo a resistência armada.

O FBI via os Panteras como um grupo radical capaz de motivar um movimento nacionalista negro militante. (Hoover, o primeiro diretor do escritório, chamou o Partido dos Panteras Negras de "a maior ameaça à segurança interna do país"). Mas os Panteras também lançaram uma série de iniciativas sociais: eles administravam clínicas médicas, forneciam transporte gratuito para as prisões para familiares de presidiários e iniciaram um programa de café da manhã gratuito que alimentou milhares de crianças em idade escolar.

Quem foi Fred Hampton?

O carismático organizador da comunidade teve uma ascensão meteórica que o levou da campanha por uma piscina comunitária sem segregação e um centro recreativo em sua cidade natal, Maywood, Illinois, a falar para milhares como presidente do Partido dos Panteras Negras de Illinois.

Em 1969, alguns meses depois de ajudar a fundar a divisão do partido em Illinois, Hampton, de 20 anos, intermediou uma aliança que chamou de Rainbow Coalition, que uniu os Panteras Negras, os Young Patriots (esquerdistas brancos do sul) e os Young Lords ( uma organização de direitos humanos e civis de Porto Rico) em um esforço para combater a pobreza e o racismo em suas comunidades de Chicago.

A rápida ascensão de Hampton na hierarquia do Partido dos Panteras Negras o colocou na mira de um programa secreto de contraespionagem do FBI, conhecido como Cointelpro, que Hoover formou para "expor, interromper, desviar, desacreditar ou neutralizar as atividades de nacionalistas negros e organizações de ódio”. Os alvos incluíam o reverendo Martin Luther King Jr. e a Ku Klux Klan. Hoover declarou em um memorando interno que procurava prevenir a "ascensão de um ‘messias’ que poderia unificar e eletrificar o movimento nacionalista negro militante."

Quem foi William O’Neal?

Aos 17 anos, O'Neal (interpretado por Lakeith Stanfield no filme) já tinha ficha criminal quando o agente do FBI Roy Mitchell (interpretado por Jesse Plemons) o encontrou depois que ele roubou um carro em 1966. Mas O'Neal logo assumiu um novo papel: informante do FBI. Tendo a escolha entre enfrentar acusações criminais ou concordar em se infiltrar nos Panteras, ele optou pela última opção: como capitão de segurança do Partido dos Panteras Negras de Illinois, ele se infiltrou no círculo de amigos próximos de Hampton.

Em 1969, O’Neal desenhou uma planta baixa do apartamento de Hampton em West Side, incluindo onde todos dormiam, que o FBI então compartilhou com o Departamento de Polícia de Chicago, que conduziu a operação fatal. Mas, ao contrário do personagem em "Judas e o Messias Negro", o verdadeiro O'Neal não via suas ações como uma traição a Hampton ou aos Panteras. “Eu não tinha nenhuma lealdade com os Panteras”, lembrou ele em uma entrevista para a série documental da PBS “Eyes on the Prize”, que narra a história do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.

O que aconteceu na manhã em que Fred Hampton foi assassinado?

Quatorze policiais de Chicago apareceram antes do amanhecer de 4 de dezembro de 1969, no apartamento de Hampton, agindo sob as ordens de Edward V. Hanrahan, o procurador do condado de Cook. Ao longo de cerca de 10 minutos, mais de 80 tiros foram disparados. Quando a fumaça se dissipou, Hampton, 21 anos, e outro líder do partido, Mark Clark, 22 anos, estavam mortos, e quatro outros Panteras e dois policiais ficaram feridos.

No início, a polícia alegou que matou Hampton em autodefesa depois que as pessoas no apartamento começaram a atirar neles enquanto tentavam executar um mandado de busca por armas ilegais. Mas os especialistas em balística determinaram que apenas uma das balas provavelmente foi disparada de uma arma pertencente a um ocupante do apartamento. Uma investigação do grande júri federal também revelou que os "buracos de bala" na porta da frente do apartamento, que os policiais citaram como evidência de que os Panteras atiraram neles, eram na verdade buracos de pregos criados pela polícia.

Embora o Departamento de Polícia de Chicago tenha liderado a operação, o grande júri concluiu que ela havia sido coordenada pelo FBI como parte da missão de Hoover para atingir o Partido dos Panteras Negras - e um memorando do FBI revelou posteriormente que a agência havia autorizado um pagamento de bônus a O 'Neal. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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