Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Jovens em Cannes

Festival francês que começa na quarta-feira terá três novatos brasileiros concorrendo em deiferentes seções

Flavia Guerra - O Estado de S.Paulo,

05 de maio de 2011 | 06h00

"Não morro sem levar uma Caméra d’Or ou uma Palma de Ouro. Ou não me chamo Sara Silveira", brincava num tom muito sério a produtora de Trabalhar Cansa, o representante brasileiro na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2011, que começa na quarta-feira. Em cerca de dez dias, será no balneário da Riviera francesa que os nomes mais importantes do cenário mundial vão se debater entre mostras competitivas, hors-concours, mercados, reuniões e afins.

A Palma de Ouro, concedida a filmes da mostra competitiva principal de Cannes, vai ficar para outro ano, mas a Caméra d’Or, prêmio dado ao melhor diretor estreante em longa-metragem, pode muito bem ser de Sara este ano. Ou melhor, de Sara e de Marco Dutra e Juliana Rojas. Sara adora apostar em sangue novo. Costuma acertar. Com sua 19 Som e Imagem, ao lado de Maria Ionescu, ajudou a lançar nomes como Marcelo Gomes e Esmir Filho. Mantendo a tradição, são dois calouros que podem dar a ela a Caméra d’Or. Dutra e Juliana, de 31 e 29 anos, fazem sua estreia na segunda principal competição de Cannes e concorrem ao lado de nomes como Gus Van Sant, Bruno Dumont e Robert Guédiguian. Os brasileiros disputam a Câmera D’Or com outros 18 novatos que competem em várias seções.

Veja também:

trailer Assista ao trailer de Trabalhar Cansa

trailer Assista ao trailer de Abismo Prateado

trailer Assista ao trailer de Permanências

Mais que sangue novo, a dupla é a cara do jovem cinema brasileiro. Aquele que vem sendo articulado há anos na esfera do curta-metragem e agora chega à maioridade. Outros novatos fazem sua primeira passagem por Cannes. Ricardo Alves Junior compete na Semana da Crítica com o média-metragem Permanências. E Abismo Prateado, de Karim Aïnouz, completa a lista concorrendo na Quinzena dos Realizadores. Se Aïnouz já não é mais novato, seu produtor, Rodrigo Teixeira está para a produção assim como Juliana, Dutra e Ricardo estão para a direção.

Segundo Alves Junior, de 29 anos, o "time brasileiro em Cannes 2011" não é necessariamente o "Novo Cinema Novo", mas sim "cinema jovem brasileiro". "Somos de uma geração que herdou o Cinema Novo, mas que construiu sua própria forma de contar histórias. Não há mais um único movimento no Brasil. É esta a nova cara do cinema nacional."Flavia Guerra

Trabalhar Cansa. Fazer cinema também. Há menos de uma semana, às vésperas do maior festival de cinema do mundo, em uma tarde em um sobrado de Pinheiros, Juliana Rojas, Marco Dutra e a produtora Sara Silveira ainda trabalhavam nos últimos ajustes do principal representante do cinema brasileiro em Cannes 2011. Estava quase tudo pronto. Faltava ‘só’ definir o cartaz, checar a cópia, definir hotel, horários de voos, e figurinos, claro! Afinal, uma sessão da Un Certain Regard, a mostra em que o primeiro longa dos dois jovens diretores concorre, merece, ao menos uma beca bacana.

Dutra e Juliana embarcam segunda para Cannes. E até ontem tinham a informação de que estreariam no tapete vermelho no dia 12. "A programação oficial ainda não foi divulgada, mas estamos trabalhando com esse prazo. Só o fato de integrar a mesma seção de nomes como Gus Van Sant já é reconhecimento e pressão suficiente", comentaram os dois que, sob a tutela de Sara, mostraram ao Estado os primeiros 15 minutos do filme. E o que se viu foi um filme de linguagem interessante, que mistura ‘normalidade fria’ e tensão latente nas entrelinhas. "Ninguém assistiu à versão final. Só mesmo em Cannes. Vai ser emocionante", dizia Sara, enquanto fechava os detalhes da viagem e respondia a dezenas de e-mails de ‘sales agents’ (agentes de vendas) internacionais. "Aposto nesses meninos. Tenho orgulho de tê-los conhecido exatamente em Cannes, quando participavam com seu primeiro curta, Lençol Branco. São talentosos, focados e profissionais."

Apesar de veterana, que fundou a 19 Som e Imagem para produzir os filmes de Carlos Reichenbach, Sara é uma das produtoras que mais investem nos novos talentos. "Brinco que estou cansada de produzir curtas porque só dá trabalho. Mas não resisto. Adoro ver a garotada crescer."

De fato Trabalhar Cansa é fruto de longo investimento. "Começamos lá atrás com a produção do curta Um Ramo (que integrou Cannes 2009), depois vieram os tratamentos de roteiro, depois Berlim... E acaba aqui."

Para Sara, um dos fatores determinantes da escolha de Trabalhar Cansa em Cannes se deve ao novo olhar que Dutra e Juliana lançam sobre a realidade brasileira. "Não é filme favela. Não tem violência (não a típica). É uma história de classe média. Coisa com que os festivais internacionais não estão acostumados quando se trata de cinema brasileiro. Ter um produtor bom ajuda. Mas se entra em Cannes, é porque é bom", diz. "É um cinema de início muito consistente. Diferente. Pode começar aí um novo cinema brasileiro. Estamos precisando. Meu sonho é que o cinema brasileiro se torne o cinema argentino."

Um filme feito em equipe

Um filme de produtor artesanal. Assim pode ser definido Abismo Prateado, que concorre na Quinzena dos Realizadores. Orçado em R$ 3,5 milhões, é dirigido pelo veterano Karim Aïnouz (de Madame Satã, com o qual estreou em Cannes, em 2002, na Un Certain Regard) e foi concebido por Rodrigo Teixeira e sua equipe da RT.

"É claro que o filme é do Karim. Porque ele não é só um diretor convidado. O nome Quinzena dos Realizadores diz bem a que vem o filme. É uma realização em conjunto. O Karim é o autor. E nós, os idealizadores e produtores. Sugerimos o tema, a corroteirista (Beatriz Bracher), a atriz principal (Alessandra Negrini). Realizamos com dinheiro da Caixa Econômica Federal. E desde sempre pensamos em pôr o filme em Cannes. Estamos muito felizes", diz Teixeira, que cada vez mais traz sua forma de adaptação do ‘cinema de produtor’ americano para o mercado nacional.

Para ele, a lista dos brasileiros em Cannes deste ano é sinal de rejuvenescimento do cinema nacional. "Essa combinação entre experiência que a Sara tem com a inovação do Marco e da Juliana, da nossa com a do Karim, é prova de que as gerações trabalham juntas. É uma grande conquista. Tanto quanto a direção, abrir caminho no mercado de produção é difícil."

Aos 34 anos, Teixeira também faz sua estreia na Croisette. Empreendedor, é famoso por adquirir direitos autorais de livros e músicas e investir em adaptações para o cinema e a TV. Tem no currículo títulos como Natimorto (em cartaz) e O Cheiro do Ralo, adaptações de livros de Lourenço Mutarelli, finaliza Heleno, com Rodrigo Santoro, Não Deixe a Júlia Ir Embora, de Matheus Souza, e se prepara para filmar a cinebiografia de Tim Maia, cujos direitos adquiriu. Vale lembrar que Abismo Prateado é a ‘versão para o cinema’ da canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque. O cantor, aliás, é esperado na Croisette para a estreia do filme, dia 17. /

F.G.

LONGA, CURTA OU MÉDIA, VALE A QUALIDADE

Permanências, o brasileiro em competição na Semana da Crítica 2011 é longa ou curta-metragem? "Média. Tem 34 minutos", responde Ricardo Alves Junior, diretor mineiro de 28 anos que faz sua estreia em Cannes (no dia 14) em um ano especial, em que a Semana completa 50 anos.

Ricardo vem da escola de curtas e, como muitos jovens diretores, acha que a ‘bitola’ da duração está fadada ao fim. "Filme bom é filme bom. Isso de deixar de selecionar um trabalho pelo tempo, pelo formato, digital ou película, está acabando. Vivemos um momento de transição e, cada vez mais, está tudo misturado. Tanto que em Cannes já não há mais essa restrição." Para ele, o festival também está atento ao novo cinema brasileiro. "Além dos temas e formas estarem cada vez mais variados, a produção, antes muito concentrada no eixo Rio-São Paulo, ganhou força em Minas, Pernambuco, no Sul. É muito bom ver que Cannes vê e reconhece isso." / F.G.

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