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‘Jovem e Bela’, com Marine Vacth, é a nova incursão de François Ozon pela juventude

Longa exibido em Cannes é protagonizado por garota burguesa que se prostitui

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2013 | 18h24

Foi injusto – exibido logo no começo do Festival de Cannes, em maio, Jovem e Bela produziu certo impacto, mas logo foi esquecido em função de A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche, que ganhou a tríplice Palma de Ouro (para o diretor e suas atrizes, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos). O filme de François Ozon, que estreia hoje, exibe a reminiscência de A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, por mais que o diretor diga que seu tributo maior é aos grandes filmes de adolescência que o marcaram, La Boum – No Tempo dos Namorados, de Claude Pinoteau, que ele viu quando tinha 13 anos, e A Nossos Amores, de Maurice Pialat, aos 16. Mas A Bela da Tarde tem tudo a ver. A protagonista de Jovem e Bela, interpretada por Marine Vacth, é uma garota burguesa que se prostitui. Por quê? “Acima de tudo, eu não queria psicologizar”, explicou Ozon numa entrevista, em Cannes. “Para mim, Jovem e Bela é a história de uma jovem mulher que não conseguimos apreender, que nos escapa...”

No seu aprendizado de sexo, ela se relaciona com uma mulher mais velha. Ozon chegou a pensar em Catherine Deneuve, antes de se decidir por Charlotte Rampling. Seria, como ele diz (em inglês), “too much of a private joke”. Isabelle, a protagonista, é definida como integrante de uma boa família burguesa. Não é a típica, como ocorre em tantas latitudes, estudante que se prostitui para pagar a faculdade. O problema não é social. O problema? “Há um mistério em Marine a atriz), como sempre houve com Charlotte (Rampling). Há nelas alguma coisa que a câmera capta e ninguém explica. Isabelle não se prostitui pelo dinheiro, mas ela exige seus 300 euros. Usa o dinheiro para se proteger, para controlar os sentimentos.”

Como surgiu a ideia do filme? “O processo é sempre difícil de explicar e, no caso de Jovem e Bela, começou pelo fim, a cena da garota com outra mulher. Num certo sentido, o filme nasceu de trás para frente na minha cabeça.” Nas pesquisas para escrever o longa, Ozon não encontrou nenhuma garota de programa (“Para evitar o risco de psicologizar”), mas entrevistou policiais da brigada antiprostituição. Foi de uma agente que ouviu a frase que colocou na boca de um dos clientes de Isabelle – “Prostituta uma vez, prostituta para sempre”. Apesar disso, justamente a policial não moraliza o comportamento de Isabelle, mas é interessante assinalar. “Reconhecem-se, mas não há uma relação de afeto entre as duas.” Mais importante, a mãe esbofeteia a filha. Há um antagonismo entre elas. “É a grande decepção. Na adolescência, nos damos conta de que o mundo adulto não é o que nos prometeram. Nossos pais não são heróis.”

Como Isabelle, Marine Vacth parece uma criança entre os adultos, mas é certamente uma mulher mais madura entre as colegas. “Essa é uma coisa que vem de meu filme anterior, Dentro da Casa. Os garotos, principalmente, tendem a ser mais infantis. Aos 16, a fisiologia é de homem, mas a a cabeça é de 12 anos. As garotas amadurecem mais rápido.” Como ele escolheu Marine? “Houve um longo processo de casting, mas Marine não demorou muito para se impor. Ela possui uma qualidade peculiar. Testei-a em diálogos decisivos, e ela recitava as falas com um olhar evasivo, como se não estivesse ali. Ficou claro, para mim, que havia compreendido a personagem, tal como eu a via.” Um momento é significativo – os jovens, na sala de aula de Isabelle, discutem a poesia de Rimbaud, Roman.

“Misturei atores com estudantes de verdade. Propus a discussão e eles a levaram adiante. São estudantes do Lycée Henri-IV, em Paris, e eu acho importante destacar. Possuem uma capacidade de verbalização que outros jovens da mesma idade talvez não tenham.” Por que filmar os jovens de novo? “Porque é belo, porque é sempre um desafio. As primeiras emoções, a primeira vez. Isso me obriga a buscar um olhar novo.” Pelo cronograma de produção, Ozon filmou primeiro as cenas de verão, a praia, a perda da virgindade. “Mas foi muito bom, porque Marine terminou seguindo a evolução de Isabelle, sem o vaivém de uma rodagem desordenada.” A perda da virgindade é essencial. Ozon provoca um estranhamento ao mostrar Isabelle que se desloca mentalmente e vê o ‘Alemão’ sobre ela. O som contribui – “Retirei a respiração ofegante dos dois e deixei somente o ruído do mar”.

O diretor revela uma frustração – “Queria usar Le Temps de l’ Amour, de Françoise Hardy, na trilha, porque é uma música importante para mim. Quando fui ver, Moonrise Kingdom e Wes Anderson se havia antecipado! Terminei fazendo outras escolhas, músicas dela de um período posterior, mas um dia ainda acerto as contas com Wes!”, e ele ri da própria piada. Como sempre, Ozon diz que escrever e filmar são coisas diferentes. “Meu processo é muito livre. Coleto ideias antes de começar, faço muitas anotações e, quando estou escrevendo, consulto os amigos, peço aos produtores que leiam. Nessa fase, sou muito aberto. Na filmagem, ouço menos, porque, em geral, quando tenho dúvidas, as soluções que me oferecem nunca são as melhores e eu sigo o caminho oposto. Mas não existe nenhuma regra fixa. Cada filme é uma aventura diferente. Adapto-me. Se não tivesse essa capacidade, creio que sofreria enormemente.”

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