Jovem diretora focaliza o drama do Curdistão

Laís Bodanzky finalizou Bicho deSete Cabeças na Itália, com apoio da Fabrica, o braço daBenetton para o cinema. Laís ficou impressionada com a admiraçãodos italianos por Samira Makhmalbaf. A filha de MohsenMakhmalbaf é a diretora de O Quadro-Negro, que estréia nestasexta-feira. O filme recebeu o prêmio do júri no Festivalde Cannes de 2000, o mesmo em que Dançando no Escuro recebeua Palma de Ouro. Também foi finalizado na Itália, com apoio daFabrica. No fundo, Laís e Samira têm o mesmo perfil. Sãomulheres, jovens e talentosas. E lidam com assuntos polêmicos.Laís fala de loucura, da repressão do sistema manicomial e dafamília no Bicho. Samira fala da guerra no Curdistão.Surpreende que a Fabrica, por meio de seu titular, MarcoMüller, tenha se interessado por elas? A Benetton gosta deinvestir na ousadia e na provocação. Suas campanhas estão longede vender o produto belo e asseptizado que tanto atrai apropaganda de todo o mundo. Sexo, drogas, aids, violência detodo tipo, discriminação racial, sexual e social. Você já viutudo isso nas fotos e outdoors da Benetton.Jean-Luc Godard, o grande revolucionário do cinema dosanos 60 - o homem que mudou tudo, a linguagem e a política -,está sendo homenageado com uma retrospectiva organizada pelogrupo Estação. Começa amanhã. O que Godard tem a ver com SamiraMakhmalbaf? Godard acha o pai dela uma fraude. Compara MoshsenMakhmalbaf, autor do belo e humanista A Caminho de Kandahar,que tanta sensação fez no ano passado, com sua estréia quecoincidiu com a guerra no Afeganistão, a Jean Delannoy ou aqualquer daqueles diretores franceses acadêmicos dos anos 50,que a nouvelle vague adorava espancar. Godard, em compensação,ama Samira. Achou A Maçã um dos filmes mais inovadores dosanos 90 e teve elogios para O Quadro-Negro.Samira trabalha no limite do jornalismo e da arte. Jáera assim em A Maçã. O filme era feito com urgência, mas nãosem elaboração. O procedimento repete-se em O Quadro Negro.No filme, um professor percorre a região montanhosa do Curdistãoiraniano, em busca de alunos. As crianças estão muitopreocupadas em sobreviver para pensar em aulas. Já que elas nãovão à escola, a escola, através do professor, vai até elas. Ésimples e é complexo. Um filme sobre educação, sobre os signosda linguagem, sobre guerra e morte. Sobre vida, a dificuldade ea necessidade de viver, disse Samira em Cannes.Embora jovem (pouco menos de 20 anos na época darodagem), Samira é uma verdadeira diretora. Domina o espaço,sabe como posicionar a câmera e os atores. Fez OQuadro-Negro sinceramente preocupada com a questão educacionalno Irã, preocupada com a guerra - que seu pai também denunciouem A Caminho de Kandahar. Não admira que tenha recebido,debaixo dos maiores aplausos, um prêmio tão importante quanto odo júri em Cannes. Há um mistério da arte, que OQuadro-Negro talvez não esclareça, mas o filme com certezadeixa algumas indagações no espectador. Muita gente tende aconsiderar o artista como um ser iluminado, enquanto outrostentam vê-lo como um trabalhador. É um trabalhador e, emcinematografias periféricas, também um batalhador, mas tem dehaver algo mais, algo especial no verdadeirto artista.Pegue-se o caso de Samira. A diretora de OQuadro-Negro é tão jovem. De onde tira a experiência paratornar convincente um personagem como o do velho que tem umproblema de próstata e sofre para urinar? Há compaixão no olharde Samira. Essa garota entende a humanidade sofredora. O velho,a criança, o professor. É uma artista, nesse território, hojetão pouco freqüentado, do humanismo.O Quadro Negro (Takhté Siah). Drama. Direção de SamiraMakhmalbaf. Irã/2000. Duração: 85 minutos.

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