José Mojica Marins fala sobre 'A Encarnação do Demônio'

Filme completa trilogia formada por 'À Meia-Noite Levarei Sua Alma' e 'À Meia-Noite Encarnarei no Teu Cadáver'

Luiz Carlos Merten,

08 Agosto 2007 | 16h39

Ele está de roupa nova - e com a assinatura de uma grife tão chique quanto a de Alexandre Herchcovitch. Zé do Caixão, o coveiro mais famoso do cinema brasileiro, foi repaginado para os anos 2000. Os dois primeiros filmes com o personagem, À Meia-Noite Levarei Sua Alma e À Meia-Noite Encarnarei no Teu Cadáver, datam de 1964 e 67. Zé do Caixão volta numa produção mais cara, em cores e com um lançamento como ele nunca teve. Serão 40 cópias, contra 10, o máximo que o diretor José Mojica Mojica teve anteriormente. Tudo isso é perfumaria.     Veja também:      Trailer de 'A Encarnação do Demônio'      O mais importante é que Zé do Caixão não é mais aquele personagem marginal dos anos 60, mas um cult que ganhou projeção internacional, rebatizado como Coffin Joe. O próprio filme, A Encarnação do Demônio, não ganha agora apenas o circuito dos shoppings como vai para Veneza, integrando uma das mostras paralelas do festival que começa no fim do mês. Tudo isso envolve um risco - como reagirá o público, num momento em que o mercado exibidor nacional é tão diferente daquele que viu surgir o fenômeno Zé do Caixão? Essa coisa de mercado pode preocupar produtores (a Olhos de Cão, associada à Gullane Filmes) e distribuidores (a Fox). O próprio Mojica admite estar ansioso - ao mesmo tempo eufórico, face ao reconhecimento, e ansioso, quanto à acolhida. Mas o que o levou a fazer o filme não foi o mercado e sim, uma necessidade visceral.   A produção veio rolando desde 2000. "Num determinado momento, tínhamos R$ 400 mil, que o Paulo (o produtor e montador Paulo Sacramento, da Olhos de Cão) achava pouco para o produto que queríamos fazer." Embora mais caro que a média de Mojica, o filme manteve-se nos limites de uma produção de baixo orçamento, em torno de R$ 1 milhão. "Meu filme mais caro havia custado R$ 120 mil - com R$ 400 mil, teria feito o Encarnação com idêntico entusiasmo." Mojica conversa com o repórter do Estado no próprio CineSesc, onde ocorreu a sessão do filme para a imprensa. Embora algumas coisas estejam diferentes - aos 72 anos, o ator e diretor não tem mais o physique du rôle dos anos 60 -, outras permanecem inalteradas. As longas unhas encurvadas fazem parte do seu repertório. Ele diz ‘probrema’, em vez de ‘problema’, mas ninguém seria louco de querer desqualificar este homem por seus tropeços com a língua. O que Mojica adquiriu nos últimos anos é extraordinário.   "Quando estive nos EUA, ganhei em um mês 50 capas, mais do que tive em 45 anos de carreira no Brasil." Não há ressentimento na fala, apenas uma constatação. O Mojica que apresenta A Encarnação do Demônio é um autor seguro de haver concretizado sua maior obra - "Este filme é a Bíblia do terror da América Latina. Sua história reúne todos os elementos atraentes para os fãs do gênero - tem espectros, torturas, mortes violentas, sexo." Acima de tudo, tem Zé do Caixão em sua busca mítica pela mulher ideal, aquela com a qual nunca desistiu de ter o filho perfeito. O roteiro já existia desde os anos 60, mas quando Paulo Sacramento e o roteirista Dennison Ramalho se aproximaram do autor, há oito anos, os três perceberam que ele tinha de ser adaptado às novas condições.   Quando o filme se abre, Zé do Caixão sai da cadeia, onde esteve preso 40 anos. "Ele tem uma ideologia muito forte e não se importa em matar quem cruza seu caminho ou atrapalha seus planos", resume o diretor. Só que o personagem voltou mais complexo. Em vez das comunidades interioranas dos filmes precedentes, ele está agora no coração corrompido de São Paulo, e confrontado com a mais dura realidade - polícia violenta, menores abandonados, sacrifício de inocentes. Uma criança é morta a sangue-frio - e o caso da menina Isabela mexeu com Mojica. "Quase deixei (o compositor) André Abujamra louco, porque queria uma música triste, como um lamento, para expressar a dor e o horror da perda." Na trama, o (anti)herói satânico, adepto da cruz invertida e do escaravelho, encontra seu oponente no personagem de Milhem Cortaz, obcecado por vingança.     Milhem, um dos mais requisitados atores brasileiros da atualidade, foi fundo no personagem. No Festival de Paulínia - em que A Encarnação ganhou seis prêmios, incluindo melhor filme -, o diretor Reynaldo Pinheiro disse que pedia ao ator que baixasse o tom de seu personagem em Nossa Vida Não Cabe num Opala. "Menos, menos." Com Mojica, o movimento é inverso e você sente o diretor pedindo ‘mais’. "Posso até ter errado, mas avisei ao Mojica e ao Paulo (Sacramento) que só entraria no projeto se pudesse ousar. Arrisco tudo criando um personagem à altura de Zé do Caixão", diz Milhem. O diretor teve tudo o que pediu aos produtores. O controle artístico foi fundamental para que a roupa nova não diluísse sua linguagem. Isso não impediu que Mojica cortasse seqüências inteiras, a pedido do Paulo montador (não produtor). "Não tenho o menor problema em cortar planos ou alterar a montagem em busca da qualidade do produto final. É muito importante manter o ritmo."   Encarnação do Demônio (Brasil/2007, 98 min.) - Terror. Dir. José Mojica Marins. 16 anos. Cotação: Bom

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