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José Mojica Marins, o Zé do Caixão, chega aos 80 anos

TV presta homenagens ao apelidado de maldito

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2016 | 16h00

José Mojica Marins tornou-se reverenciado como mestre do horror brasileiro. Mas, quando introduziu seu personagem Zé do Caixão em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964, ele enfrentou muito preconceito. Não eram poucos os críticos que riam da precariedade das produções e do exagero evidente com que Mojica contrapunha seu personagem às beatas, ou o mostrava, em plena Sexta-Feira Santa, comendo carne crua para desafiar as convenções. Criou-se a fama do ‘maldito’, e foi esse o título que André Barcinski deu à sua biografia do artista.

O maldito sobreviveu para comemorar neste domingo, 13, 80 anos. A data não vai passar em branco. A partir das 19h15, o canal Space, da TV paga, vai reprisar os seis episódios da série Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, com Matheus Nachtergaele no papel do ator e cineasta. Depois, exatamente à meia-noite, na hora em que Zé do Caixão ameaçava levar a alma do espectador, o Space vai exibir o inédito As Fábulas Negras, que Mojica dirigiu em 2014 e permanece inédito nos cinemas. O filme conta, pela ótica de garotos, cinco histórias de suspense e terror. O Canal Brasil junta-se à homenagem e apresenta, também à meia-noite, Encarnação do Demônio. A produção de 2008 é tão chique que a capa, a cartola e o colete de Zé do Caixão foram desenhados por Alexandre Herchcovitch.

Numa entrevista por telefone, a filha de Mojica, Lis Vamp, informou que o pai anda muito debilitado para poder conversar com a imprensa. Acrescentou que estão sendo planejadas diversas homenagens para continuar marcando a data. Autodidata, José Mojica Marins veio de uma família modesta. Decidido, desde jovem, a ser cineasta, criou escolas de interpretação para levantar recursos para suas produções. O primeiro filme, de 1957, foi um faroeste caboclo, Sina de Aventureiro – tudo isso é mostrado no primeiro e segundo episódios de Maldito. Mojica integrava a Boca do Lixo e chegou rapidamente a um ponto que parecia sem retorno. Os filmes não davam dinheiro, a troca de uma bala de festim por bala de verdade criou problemas – e o transformou em alvo de chacota por seus pares. E foi nesse quadro – acuado, desacreditado – que ele teve a intuição (genial) de fazer um filme de terror.

“Conheço expressionismo alemão, neorrealismo italiano, mas faço o que acho melhor, o que sei fazer”, disse há muitos anos. O próprio Glauber Rocha tornou-se seu fã. “É um tentando imitar o outro e ele faz o que vem na cabeça.” Criou Zé do Caixão. Coffin Joe para o público internacional. No Brasil, nem a feroz censura do regime militar dava conta de suas provocações. O maldito ganhou defensores na crítica. Muita gente acha que, por causa disso, o cinema de Mojica tornou-se autoconsciente e ele perdeu a espontaneidade. Com a degradação da Boca do Lixo, fez até filmes pornográficos para sobreviver. O livro de André Barcinski e a reavaliação de seu cinema lhe deram uma segunda chance. Rubens Ewald Filho, no Dicionário de Cineastas, define-o como “uma das poucas personalidades marcantes e fundamentais do cinema brasileiro”.

No ano passado, a Mostra antecipou-se às comemorações dos 80 anos de Mojica. Mas foram seu biógrafo e o ator (Matheus Nachtergaele) que brilharam nas entrevistas. Barcinski disse que a série, mesmo com seis episódios, não poderia dar conta de um livro de 600 páginas e muita coisa teve de ser suprimida ou condensada. “O importante era a dramaturgia, a possibilidade de dar ao telespectador pelo menos uma ideia dessa vida extraordinária. Tivemos de unir personagens. O ‘Chico’, por exemplo, é a soma de dois colegas diretores que foram decisivos para o Mojica – Luiz Sérgio Person e Carlos Reichenbach.” E Barcinski revelou – “Mojica queria que Mel Gibson fizesse seu papel. Vocês sabem, é tão parecido com ele...”

Mesmo não sendo a primeira escolha de Mojica para interpretá-lo, Matheus Nachtergaele entregou-se com paixão ao projeto. “Um lado meu sempre admirou muito a obra do Mojica, principalmente seus dois primeiros filmes, À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. São obras de um grande artista. Existe uma faceta dele que não me atrai, mas admiro também. O que me surpreende de verdade é que é um cara que sempre esteve na vida para o bem e para o mal. Isto é de uma coragem tão bonita, uma ampliação de limites morais tão grande para ser o artista que é, que me deu uma sova de ensinamento.”

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