José Araújo quer vaga no Festival de Veneza

Sertão das Memórias, um dos mais premiados filmes brasileiros da retomada, foi feito em preto-e-branco, com algumas raras inserções em sépia. Desta vez, José Araújo e o fotógrafo Antônio Luiz Mendes decidiram que as tentações do irmão Sebastião exigiam cor. Cores fortes, básicas, de terra e sangue. Do filme anterior, escolhido como um dos cem títulos imprescindíveis e dignos de lançamento nos Estados Unidos, ficou a imagem de dois sertanejos - Antero e Maria - com seus rostos marcados pelo tempo e imersos em ambiente de profunda religiosidade. Dos dois, só resta Maria, pois Antero, o pai do cineasta, morreu há dez meses. Ele tinha 91 anos (84 quando fez o filme). "Foi uma morte tranqüila", conta Araújo, que utilizou o feriado do Natal para visitar a mãe-viúva, Maria, em Miraíma, sertão cearense. "Meu pai viveu os últimos anos preparando-se para morrer", conta. "Ele construiu o túmulo, pintou-o direitinho, cuidou do caixão, esperou a morte chegar com imensa serenidade; ele e minha mãe viviam num mundo não-materialista." Em Sertão das Memórias, as mulheres marcaram presença indelével. Em As Tentações do Irmão Sebastião, os personagens fortes são masculinos. Só duas atrizes aparecem nos créditos: Majô de Castro, que interpreta o Anjo Gabriel, portanto um personagem assexuado, e Iziane Mascarenhas, que faz Ana, a mãe de Sebastião. "Como meu foco recai sobre um noviço que se prepara para fazer votos religiosos" - pondera Araújo - "os personagens masculinos estão em primeiro plano e conduzem a narrativa do filme". Pelo projeto inicial do diretor, As Tentações do Irmão Sebastião deveria estar pronto em maio, para participar da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. O modesto orçamento acabou por empurrar o filme para o segundo semestre de 2001. "Queremos tê-lo pronto em agosto; se der, vamos tentar vaga em alguma das mostras oficiais de Veneza." O diretor lamenta que, neste momento, ele seja o único diretor nordestino realizando um longa-metragem na região. Mas só tem agradecimentos para o empresariado cearense, que apostou no filme e investiu, pela Lei do Audiovisual, a maior parte dos US$ 450 mil disponíveis. Agradece, também, a Walter e João Moreira Salles, que, por meio da produtora Videofilmes, entraram na produção com câmera e outros serviços. Por fim, Araújo lembra que Sertão das Memórias e As Tentações do Irmão Sebastião são filmes que têm algo em comum: "Ambos se movem no mesmo domínio religioso-cultural, um domínio de que me aproximei também em Salve a Umbanda; nestes três filmes, busquei resolução pessoal de importantes dilemas de nossa vida contemporânea, principalmente aqueles marcados pela formação católica." "Como em meus filmes anteriores" - arremata - "encontramos em As Tentações do Irmãos Sebastião as mesmas preocupações com a pobreza e a injustiça social, além da ênfase na hibridização das culturas e na complexa estética do simbolismo; nos preocupamos, ainda, com aspectos fundamentais ligados à religião e à sexualidade."

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