Jornalista reconhece sua história no filme 'Hoje Eu Quero Voltar Sozinho'

Lucas de Abreu Maia, repórter do Estado, dá depoimento sobre o longa

Lucas de Abreu Maia, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2014 | 03h00

Porque o desejo erótico é quase sempre associado à visão, pessoas cegas são frequentemente tratadas como assexuadas. Se o desejo é desafiar expectativas sociais, então, ele se torna incompreensível.

Várias vezes, ouvi: “Como você sente atração por alguém se não pode ver?”, como se voz, toque, cheiro e intelecto fossem irrelevantes para o tesão. Não são. Não é a visão – ou qualquer sentido – que determina ou formata o tesão. Ele já está lá, no inconsciente. O que os sentidos fazem é nos apresentá-lo.

 

 

 

 

Talvez, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho – e o curta que o antecedeu, Eu Não Quero Voltar Sozinho – tenha gerado tanta empatia (basta ver o frenesi em torno do filme nas redes sociais) porque joga luz sobre a forma como todos nós desvendamos o nosso desejo.

Leonardo é um adolescente cego que se apaixona pelo novo colega de turma, Gabriel. Sem a visão, a descoberta do amor se dá antes pelo som, depois pelo cheiro e pelo toque. Ao negar a visão, Daniel Ribeiro diminui a velocidade do desejo, quase sempre avassaladora no cinema.

Ribeiro me contou que a ideia para o filme veio precisamente da pergunta "como você descobriu pela primeira vez que estava atraído por alguém?". As respostas todas envolviam uma imagem. Foi aí que ele quis contar a história da paixão que vem dos outros sentidos.

A homossexualidade e a cegueira de Léo interagem de forma cíclica. É por causa de sua sede de independência que ele abre espaço para Gabriel entrar em sua vida. Gabriel é quem apresenta o mundo exterior a Léo: o cinema, a noite, o álcool.

E a paixão por outro menino é que dá a Léo a coragem para enfrentar o bullying que sofre por ser cego.

A graça do filme, porém, está na naturalidade com que os dois protagonistas adotam suas identidades. O mundo ao redor estranha a cegueira de Léo, mas para ele e para Gabriel nada os difere. Também assim, quando se descobrem apaixonados, não estranham. É a prova de que a diferença está nos olhos de quem vê.

Perdi a conta de quantas pessoas me enviaram o link no YouTube para o curta de Daniel Ribeiro – Eu Não Quero Voltar Sozinho, de 2010. Nunca me disseram nada explicitamente, mas tenho certeza de que gostariam de ter dito: "Olha aqui a sua história".

A minha história foi, é claro, muito diferente – felizmente nunca sofri bullying e infelizmente meus amores adolescentes nunca foram correspondidos. Mas assistir a uma história de um rapaz cego e gay foi como ser reapresentado a mim mesmo e reviver a descoberta do meu próprio desejo.

No entanto, suspeito de que muita dessa empatia foi e vai ser compartilhada por outros espectadores. É que as transições da adolescência são universais. Léo, mesmo representando duas minorias, representa todos.

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