Jornada da Bahia anuncia os vencedores

Dois documentários paulistas, um em película (À Margem da Imagem) e outro em vídeo (Casamento Quilombola) ganharam os principais prêmios atribuídos pela 29.ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia. O primeiro conquistou o Prêmio Glauber Rocha (suporte cinema) e o segundo o Walter da Silveira (vídeo). Glauber (1939-1981) é considerado o maior cineasta da história baiana, e Walter (1915-1970), o decano da crítica cinematográfica local. Muitos o têm como "o Paulo Emílio (Salles Gomes) soteropolitano".O júri cinematográfico da Jornada, que contou com a atriz Ítala Nandi e a diretora Isa Albuquerque entre seus integrantes, justificou a escolha unânime de À Margem da Imagem, do paulista Evaldo Mocarzel, "por discutir com sensibilidade a apropriação da miséria pela arte e pela mídia e, ao mesmo tempo, perceber a dimensão humana dos personagens no espelho do cinema".O júri de vídeo, que teve a atriz Dira Paes e o cineasta cubano Rolando Chiong entre seus integrantes, escolheu Casamento Quilombola. Mas não houve unanimidade, nem justificativa de premiação. Faltaram, nesta categoria, a coerência e ousadia do júri cinematográfico. Produções contemporâneas e qualificadas como Obbawemilere - A Raiz Afrocubana, de Miguel Vassy (com edição de Ava Rocha, filha de Glauber); Vinte/Dez, de Tata Amaral & Francisco César, e Na Garupa de Deus, de Rogério Corrêa, foram ignorados pelo veredito final dos jurados. Para o belo Paulo José, Um Auto-Retrato Brasileiro, de Joel Pizzini, sobrou apenas uma menção honorosa.Um dos integrantes do júri, que preferiu não se identificar, lamentou o resultado final: "A premiação é apenas correta, sem brilho; não privilegia a inovação formal, além de fugir de temas polêmicos como o diabo da cruz".Documentário - A Jornada da Bahia aceita filmes documentais, ficcionais, de animação e experimentais. Mas sua história mostra que o documentário de temática social recebe maior atenção. Neste ano não foi diferente. O Prêmio Glauber Rocha foi disputado por mais de vinte títulos. Dois deles se destacaram: Clandestinos, da mineira Patrícia Moran, e À Margem da Imagem. O primeiro traz à tona as memórias de militantes de esquerda que pegaram em armas para enfrentar a ditadura militar. E o faz de forma moderna, fugindo dos clichês do gênero. O segundo discute a apropriação da imagem dos excluídos sociais pela mídia e pelos artistas (caso do fotógrafo Sebastião Salgado e do próprio realizador do filme, o jornalista Evaldo Mocarzel, que é questionado por um dos entrevistados).O júri decidiu pelo filme de Mocarzel, que ganhou o prêmio máximo (o Glauber Rocha), mas atribuiu a Clandestinos o Tatu de Ouro de melhor documentário. No terreno do longa-metragem, o premiado foi Juazeiro, a Nova Jerusalém, do experiente Rosemberg Cariry, autor de O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto e Corisco & Dadá. Juazeiro ganhou também o troféu Jangada, do Ocic (Ofício Católico Internacional de Cinema).No terreno da ficção cinematográfica, a escolha foi certeira: Mutante, da dupla Rosana Foglia & Rubens Rewald (não confundir com o crítico Rubens Ewald). Ela é mestre em cinema pela USP, ele professor da ECA (Escola de Comunicação e Arte). Os dois integram o Núcleo de Dramaturgia da Universidade, que tem no roteirista Jean-Claude Bernardet seu esteio de sustentação.O filme é embalado por trilha sonora composta de canções dos Mutantes, já que um dos protagonistas, o mestrando Pedro (Petrônio Gontijo) é siderado por Rita Lee, Sérgio & Arnaldo Batista. Júlia (Flávia Pucci), companheira de Pedro, é bancária, canta num coral e ama a música erudita. Os dois vivem juntos. Ele prepara tese sobre Os Mutantes e a música pop; ela labuta no banco e sonha com um outro mundo. O elenco completa-se com o veterano Antônio Petrim e Adriano Cypriano. O desfecho do filme é inesperado e provocador.A animação escolhida pelo juri é o xodó da temporada. O Lobisomem e o Coronel, dos brasilienses Ítalo & Elvis, já conquistou o juri popular do Anima Mundi no Rio e em São Paulo. Na Bahia, foi aplaudido e festejado pelos amantes do cordel e pela beleza de suas imagens. Sem falar na trilha sonora, que a todos encantou (e que foi premiada com o Tatu de Prata).A comissão julgadora atribuiu os principais prêmios a filmes brasileiros porque a representação de língua hispânica deixou a desejar. Só a fotografia de Tequila.com, divertida comédia espanhola que brinca com amores nascidos na internet, e a direção do também espanhol No Pienso Volver, fizeram jus a dois Tatu de Prata.Vídeo - O júri de vídeo dividiu seus dois prêmios principais - o Walter da Silveira e o Tatu de Ouro - entre um brasileiro (o ótimo Casamento Quilombola) e um cubano (o televisivo De Mi Alma Recuerdos). Casamento Quilombola brilha pela capacidade de síntese, beleza de suas imagens e por revelar poeticamente a singeleza do matrimônio entre dois jovens da comunidade de Bombas. A moça é filha de Seu Catarino, um dos líderes dos moradores do Vale da Ribeira/SP. Eles são remanescentes de um quilombo e participam dos festejos matrimoniais com muita alegria.Já De Mi Alma Recuerdos, da cubana Lourdes de los Santos, chama atenção por excelente pesquisa sobre seu tema (a Nova Trova Cubana, que tem Silvio Rodriguez & Pablo Milanez como seus avatares). Imagens históricas do movimento musical entronizado pela Revolução Cubana enriquecem o vídeo, que dura 54 minutos e foi feito pelo ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfica) em parceria com rede de TV espanhola. Mas o vídeo segue gramática tradicional e televisiva e nada traz de novo para a linguagem audiovisual.O juri só foi unânime na escolha do vídeo "revelação": o pernambucano Marangmotxingmo Mirang. Seus autores são dois jovens índios Txicão (Natuyu e Kumaré), que sob a orientação do incansável Vicent Carelli, registraram experiência singular (quatro crianças índias apresentam sua aldeia ao responder video-carta das crianças de Sierra Maestra/Cuba). Com graça e leveza, elas mostram suas famílias, brincadeiras, festas, enfim, seu modo de vida.

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