Jorge Furtado prepara dois longas-metragens

"Cervantes e Shakeaspeare morreram no mesmo dia, 23 de abril de 1616. Uma dia terrível, pois a Humanidade perdeu, ao mesmo tempo, o inventor do romance e o inventor do ser humano, tal como o conhecemos". Este fragmento da história é uma das informações que alimentam André (Lázaro Ramos), o protagonista de O Homem que Copiava, segundo longa-metragem do gaúcho Jorge Furtado. O diretor, que tornou-se célebre com o curta-metragem Ilha das Flores, Urso de Prata no Festival de Berlim, comanda grande elenco (encabeçado por Leandra Leal, Luana Piovani, Pedro Cardoso e o jovem Lázaro Ramos), numa super-produção (pelo menos para os padrões gaúchos) de R$ 3 milhões, bancada pela Columbia Pictures e uma série de empresas, em especial a RGE (Rio Grande Energia), que o premiou com R$1,3 milhão. Definir Jorge Furtado, de 42 anos, como um curta-metragista, é desconhecer parte significativa de sua carreira. Afinal, ele realizou, na Rede Globo, três projetos de grande fôlego: Anchietanos, último episódio da série Comédia da Vida Privada; Luna Caliente (microssérie captada em película 35 milímetros) e A Invenção do Brasil (em parceria com Guel Arraes). Mês que vem ele terá, nas mãos, a cópia de Houve Uma Vez Dois Verões, título que acabará figurando em seu currículo como o primeiro e esperado longa-metragem. Trata-se de projeto de baixo custo, premiado pela Secretaria do Audiovisual/MinC, e captado em sistema digital. O filme já tem distribuição garantida (e agendada para março) da Columbia Pictures.As filmagens de O Homem que Copiava, iniciadas há dez dias, prosseguem até sete de novembro, em locações na periferia - e também em shoppings centers - de Porto Alegre. Quando ficar pronto, o segundo longa do realizador gaúcho será lançado também pela Columbia Pictures. Isto deve ocorrer no segundo semestre de 2002.Sem sinopse - Se há uma coisa que Jorge Furtado detesta é resumir a trama de seus filmes. "O que é uma sinopse", pergunta. "Como escolher duas ou três linhas para resumir a história de um filme, se há muitas histórias em foco? Por que uma tem que se sobrepor às outras?"Só com muita insistência se consegue arrancar dele algumas pistas sobre as tramas de Houve uma Vez Dois Verões e O Homem Que Copiava. O primeiro - fica-se sabendo - é uma comédia rasgada, rodada em apenas 23 dias, em formato digital, com custo total de R$ 790 mil. Os atores - todos muito jovens e desconhecidos do grande público - vivem suas primeiras experiências amorosas em praia "nada paradisíaca" do litoral gaúcho. "Gastamos parte significativa do orçamento" - brinca Jorge - "adquirindo direitos de autor para utilizar músicas fundamentais na trama. Uma delas - Nasci para Chorar -- já foi cantada por Roberto Carlos e depois por Fagner, no antológico Manera Fru-Fru Manera. No filme, aparecerá em regravação de Cássia Eller. A banda Pato Fu cuidará de outra das composições escolhidas (da lavra de Walter Franco).Jorge adianta que gostou muito do resultado final de Houve Uma Vez Dois Verões. Acha que - ao contrário de O Sanduíche, seu último curta - o novo filme não colecionará troféus em festivais. "O Sanduíche já ganhou 14 prêmios. Eu sabia que seria assim, pois trata-se de filme sobre o próprio cinema, talhado para cinéfilos". Quanto a Dois Verões, minha intuição diz que ele agradará mais ao juri popular". Quem conhece a história de Charles Chaplin, sabe que ele filmou a famosa sequência do primeiro encontro de Carlitos com a florista cega (Luzes da Cidade) na base do "cem por um". Ou seja, fez cem takes de uma única cena. Jorge conta que costuma economizar bastante negativo. "Quando filmei Luna Caliente, fiquei na base do quatro por um. Aí a Globo disse que eu podia gastar mais película. Fiquei na base do oito por um. Com Houve Uma Vez Dois Verões, captado em digital, não tinha obrigação de economizar. Aproveitei e fiz a festa: trinta por um. Quando terminei, tinha 60 horas de imagens. Coube ao Giba (Assis Brasil) editar tudo em 90 minutos". O processo de filmagem (em película 35 milímetros) de O Homem Que Copiava está dando média de "quatro ou cinco por um".Elenco - André, o protagonista de O Homem Que Copiava, é um jovem negro da periferia de Porto Alegre. Ele sabe que Miguel de Cervantes e Willian Shakeaspeare morreram no mesmo dia, mês e ano, mas desconhece a contribuição dos dois à história da cultura ocidental. Não sabe que o primeiro inventou o romance (com Dom Quixote de la Mancha, que André não leu), nem que o ensaísta norte-americano Harold Bloom considera Shakeaspeare o nome máximo da literatura universal. O fotocopiador maneja, sem descanso, máquina xerox e diariamente armazena fragmentos de centenas de textos que lhe passam fugazmente pelas mãos. Furtado escalou três atores bem conhecidos do público para contracenar com o novato Lázaro Ramos: Leandra Leal, Luana Piovani e Pedro Cardoso.Lázaro será, em 2002, o ator da hora. Baiano, vindo do Grupo de Teatro Olodum, ele passou discretamente pelos elencos de Jenipapo e Sabor da Paixão, até protagonizar Madame Satã. Este filme, que recria a trajetória do lendário travesti da Lapa, soma-se a O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca; As Três Marias, de Aluísio Abranches, e agora a O Homem que Copiava.Para chegar ao principal papel deste longa, que Jorge Furtado realiza em 35 milímetros e com orçamento profissional, Lázaro passou por testes rigorosos. "Testamos 60 atores para o papel", conta o diretor. "Não havia a exigência de que o escolhido fosse negro. Só que tivesse muito talento".Quando escreveu, há cinco anos, o roteiro de O Homem Que Copiava, Jorge fez questão de criar um personagem para o amigo e camarada Pedro Cardoso, outro para Leandra Leal e um terceiro para Luana Piovani. "Trabalhei com Pedro em várias ocasiões na Rede Globo. Quando dirigi um dos episódios (A Estrada) do longa A Felicidade É..., fiz questão de escalá-lo. Desta vez, ele interpreta Cardoso, uma cara apaixonado por Marinês (Luana Piovani) e que tenta parar de fumar. O nome e o combate ao tabagismo são empréstimos que contraí com o próprio Pedro".Cardoso e Marinês têm a missão de assegurar o lado engraçado de O Homem Que Copiava. Jorge garante que a bela Luana Piovani é dotada de excelente veia cômica. "Ela demonstrou isto na Comédia da Vida Privada (programa da Globo, que teve Furtado como um de seus roteiristas). Por isto, escrevi Marinês especialmente para ela".O caso de Leandra é o mais curioso. Quando realizou a microssérie Luna Caliente (Rede Globo, 1998), Jorge Furtado fez questão de testar a jovem atriz para o papel da ninfeta que seduzia Paulo Betti. "Ela se saiu maravilhosamente no teste, mas não pudemos escalá-la, pois tinha apenas 16 anos. Cheguei a falar com um juiz de menores sobre o assunto. Em vão. A história trazia ingredientes eróticos muito fortes". Para Leandra, Jorge criou a personagem Sílvia, jovem de 18 anos, que trabalha como balconista numa loja de roupas femininas. À noite, faz curso pré-vestibular. E namora André, o rapaz da fotocopiadora. O namorado necessita, urgentemente de R$ 38 para comprar um robe de chambre. Jorge se nega a revelar mais que estas míseras pistas. Só adianta que O Homem Que Copiava é uma comédia negra com duas mortes e um pouco de perversão. "Uma comédia negra romântica", atenua.Quem conhece a obra de Jorge Furtado - em especial Ilha das Flores - sabe que ele mantém sintonia fina com a tragédia social brasileira. Que se preocupa com temas como a violência urbana, a fome, a falta de perspectiva de milhares de jovens desempregados das periferias inchadas das grandes cidades. Daí o pano de fundo social do filme. "André é um jovem típico de nosso tempo", adiciona, sempre com avareza, para não empobrecer as surpresas da história. "Ele tem 20 anos, segundo grau incompleto e visão totalmente fragmentada do mundo. Pega um pouquinho aqui, um pouquinho ali. No caso dele, além da TV - que com o controle remoto nos fornece fragmentos de milhares de coisas e fatos - há a fotocopiadora. Através dela, armazena informações captadas de forma desconexa em breves segundos".Leandra Leal - que teve seu primeiro contato com Jorge Furtado, por meio de Ilha das Flores, projetado no colégio onde cursava o primeiro grau - garante que o diretor "envolve seus personagens num clima de ternura e compreensão muito especiais".A jovem (e politizada) atriz é dona de currículo invejável. Fez várias novelas (estreou aos 13 anos), protagonizou A Ostra e o Vento (Walter Lima) e brilhou em O Viajante (Saraceni). Ela garante que O Homem Que Copiava trata de jovens da periferia, situados numa realidade muito triste e de pouca ou nenhuma esperança", mas sem jamais "perder o humor", uma das fortes marcas de Jorge Furtado, "e a compaixão pelo outro". O diretor, por sua vez, garante que quer realizar novos longas-metragens. Voltar à Rede Globo - que o manteve em seus quadros na última década - só se for para fazer programas muito especiais. "Andei muito angustiado com a fugacidade da TV. Anchietanos foi visto por milhões de pessoas uma única vez. Enquanto o programa era exibido, o cara se levantou, foi ao banheiro ou à geladeira pegar uma cerveja ou um iogurte. Já Ilha das Flores foi visto por bem menos gente, mas os que o viram estabeleceram com ele relação bem mais duradoura. Estou em busca desta relação mais profunda com o espectador".

Agencia Estado,

05 de outubro de 2001 | 18h40

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