Jorge Furtado começa a rodar seu novo filme "O Sanduíche"

Pode ser que a iniciativa não seja inédita (João Batista de Andrade fez coisa parecida, senão exatamente igual, em Gamal, o Delírio do Sexo), mas o que o cineasta gaúcho Jorge Furtado fez no sábado merece toda a atenção. Furtado é um nome importantíssimo do cinema do Rio Grande do Sul. Sua contribuição extrapola o cinema (com pelo menos uma obra-prima - Ilha das Flores) e inclui a televisão (roteirista de Comédia da Vida Privada e O Auto da Compadecida, diretor de Luna Caliente, todos programas da Globo). Furtado iniciou a rodagem, no sábado, de seu novo curta - O Sanduíche.Tudo começou quando o Banrisul, o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, propôs a Furtado a realização de um filme noâmbito do 3.º Congresso Brasileiro de Cinema, para marcar a importância do evento na capital gaúcha. A proposição feita foi logo aceita - Furtado tinha pronto o roteiro de O Sanduíche, que pretendia inscrever num dos concursos de roteiros que se realizam no Estado (ou no País). O Banrisul liberou a verba de R$ 50 mil e Furtado pôde lançar-se à realização, à qual imprimiu características, senão inéditas, com certeza renovadoras e sangüíneas.Ele montou um set num dos largos mais conhecidos do Centro de Porto Alegre - o Largo Glênio Peres, que homenageia o político que também foi um grande agitador cultural. O largo, em frente ao Mercado Público, é sede de shows e comícios. Montado o cenário, Furtado colocou também uma arquibancada para que populares pudessem assistir à filmagem, realizada de forma didática, aos olhos de todos, como um curso prático de cinema.Dois desses populares foram selecionados para uma entrevista que será incorporada ao filme. Na verdade, uma falsa entrevista, porque o texto já estava previsto no roteiro. Falso e verdadeiro. Um dos dilemas, talvez o principal, do cinema da pós-modernidade. O que é falso e o que é verdadeiro em O Sanduíche? Começa com o fim de um casamento, os últimos momentos de um casal, a hora da despedida. Ele está indo embora, ela não quer discutir. Conversam sob forte emoção. De repente, ela diz: "Desculpe, errei a fala". Um casal de atores, ensaiando uma peça sobre o fim de um casamento. Rola um clima entre eles, ficam cada vez mais íntimos, trocam um beijo. Corta! Ficou ótimo. Um casal de atores fazendo um filme sobre o começo do namoro entre um casal de atores que ensaia uma peça sobre o fim de um casamento. Planos para o futuro, talvez o começo de uma nova história. ?Corta!? Um documentário sobre um filme, no qual um casal de atores faz um filme sobre o começo de namoro de um casal de atores que ensaia uma peça sobre o fim de um casamento.Parece brincadeira e talvez seja, pois há muito de lúdico nesse projeto. Lúdico e, tratando-se de Jorge Furtado, lúcido, pois ele, a exemplo do que costuma fazer no cinema e na televisão, quer discutir linguagem, sinergizar formas de expressão. "Misturo teatro, cinema, exponho a técnica, é algomuito interessante, que sempre quis fazer", diz o diretor. Ofilme terá cerca de 15 minutos de duração. Foram rodados nosábado 18 dos 64 planos que compõem o filme. Os restantes serão rodados de amanhã a quarta-feira, em estúdio. A previsão era de que o filme ficasse pronto para participar do Festival de Brasília, mas o Banrisul quer que a estréia se dê no Rio Grande, o que pode atirar o filme de Furtado para o Festival de Gramado do ano que vem. ?O Sanduíche poderia ficar pronto logo, mas o Giba (Assis Brasil), que é nosso montador, está terminando de montar o longa do (Carlos) Gerbase e a prioridade é Tolerância?. Tolerância de Gerbase, é o primeiro longa que a produtora gaúcha Casa de Cinema faz para distribuição em salas. Furtado, grande curta-metragista, especializado na realização de documentários que usam a falsidade para chegar à essência das coisas (na linha do Orson Welles dos clássicos Verdades e Mentiras/F for Fake), há tempos hesitava em lançar-se ao longa. "Perdi a virgindade com o Luna Caliente", conta, dizendo que o longa para cinema, no formato de minissérie em três capítulos, foi o seu batismo de fogo. Ele tem agora dois projetos de longas - O Homem Que Copiava, que espera rodar no ano que vem ("Estamos na pior fase, a de captação; o momento é difícil"), e Houve uma Vez Dois Verões, que pretende inscrever no programa da Secretaria do Audiovisual para produções de baixo orçamento, até R$ 1 milhão. Janaína Kremer Motta e Felippe Monnaco formam o casal de atores de O Sanduíche, Nelson Diniz faz o diretor do documentário que filma o filme dentro do filme e Milene Zargo é a namorada de Monnaco, que intervém no relato. O público pôe acompanhar a filmagem com cópias do roteiro na mão. Marcelo Cunha e Deidre Boeira foram os populares escolhidos para participar da filmagem chegaram cedo ao Largo Glênio Peres. As filmagens começaram às 11, foram interrompidas às 13 (quando já haviam sido rodados oito planos) e retomadas às 14 horas. Terminaram no fim da tarde. Cunha e Deidre adoraram. Ele tem 21 anos, estuda teatro e tem experiência de outros curtas. Ela tem 27 e há tempos admira Jorge Furtado. "É muito competente", diz. Ambos receberam cachê - R$ 10,00. "É pouco, mas faz parte do profissionalismo da produção", diz um dos integrantes da equipe de 40 pessoas que participou da filmagem.

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