Disney via AP
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Johnny Depp volta a Jack Sparrow em 'Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar'

Novo episódio da saga interminável dos piratas levou seis anos para ficar pronto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2017 | 03h00

Em pleno Festival de Cannes, com 1.001 atrações de todo o mundo, a primeira sessão de Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar, na tarde de quarta-feira, 24, lotou as salas em que foi apresentada. Não era mais o público do festival, embora houvesse muita gente com crachás. Era o público pagante, que veio conferir o novo episódio da saga interminável de Jack Sparrow. O filme tem ainda mais efeitos que os anteriores. Traz alguma novidade. A narrativa desloca-se de Sparrow para Henry Turner, filho de Will Turner, que serve como fio condutor.

Antes mesmo de sermos apresentados ao sinistro Salazar, já sabemos da maldição que atinge Will e que seu filho vai tentar quebrar. Você, se é tiete, sabe que estamos falando de Orlando Bloom, que havia sumido, bem como a personagem de Keira Knightley. A ‘novidade’ é relativa. Consiste em voltar ao começo, inclusive à origem da maldição que transforma o capitão espanhol em fantasma. Toda essa gente – Henry, Jack, Salazar e uma feiticeira que também quer descobrir sua identidade – procura um mítico tridente que pertence ao deus do oceano. O tridente é aquilo que Alfred Hitchcock chamava de ‘McGuffin’, o motor da narrativa. O tema é outra coisa. Pai e filho, pai e filha, e a luta de Sparrow para recuperar seu navio e voltar a reinar nos mares.

Repercutiu bastante aqui em Cannes uma entrevista do produtor Jerry Bruckheimer na revista Le Film Français, explicando porque o quinto filme da série demorou tanto a sair – seis anos. O primeiro problema é que a série toda existe em função de Johnny Depp e da sua interpretação afetada do pirata do Caribe. Para o mundo, Depp dizia haver encerrado esse ciclo, mas o desempenho de seus filmes recentes na bilheteria foi tão desastroso que só Jack Sparrow para ressuscitá-lo na indústria. Longe dos holofotes, ele deu seu aval, mas condicionando o retorno à história. Foi Jeff Nathanson, o roteirista de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que trouxe a solução, criando os conflitos familiares, entre pais e filhos. Só para lembrar, o Reino já era a história do reencontro de Indy com seu filho.

Astro e estúdio deram seu OK, mas a Disney não priorizou o filme na ordem de suas produções. Piratas entrou numa fila de espera com os blockbusters da Marvel, da Pixar e, claro, com a mítica série Star Wars. Bruckheimer já antecipou a Le Film Français que Depp e o estúdio estão dispostos a fazer uma sexta aventura, mas vai depender de público e crítica. 

O público está reagindo abaixo da expectativa – 33% de aprovação no site Rotten Tomatoes. A crítica torce o nariz. Natural, porque A Vingança de Salazar aposta no ‘mais’ e colhe ‘menos’. Mais efeitos, um tobogã de incidentes na trama, mas tudo meio repetitivo. Faltam a leveza e a originalidade do primeiro filme, que conseguiu renovar as aventuras nos mares. Esse gênero específico era considerado esgotado. Até o Piratas de Roman Polanski, também farsesco, foi um fracasso monumental. O segredo talvez tenha estado todo tempo na persona de Johnny Depp como Jack Sparrow. Mas agora até ele exagera no exagero. A solução do roteirista foi criar o casal jovem.

Com A Vingança de Salazar ocorre uma coisa – reveladora? Bruckheimer, apesar de seu apreço pela série que já rendeu US$ 3,7 bilhões, admite que hoje em dia está mais ocupado com seus projetos de televisão. No cinema, e na série Piratas, ele delega cada vez mais. Sua definição para Le Film Français – “Cerquei-me de uma equipe formidável. Um produtor executivo fora dos padrões, um diretor artístico excepcional, montadores geniais, o melhor diretor de fotografia.” Sobre a dupla de diretores, Joaquin Ronning e Espen Sandberg, nem uma palavra. É a pergunta que não quer calar – Ronning e Sandberg possuem no roteiro um filme para lá de inexpressivo, Bandidas. O que os credenciou para uma produção tão cara e ambiciosa? Certamente não foi o talento, talvez o fato de serem o que em Hollywood se chama de yes-men, diretores nada autorais, a serviço das demandas da produção.

A Vingança de Salazar tem pouco mais de duas horas. Termina bem, mas na maior parte do tempo pesa como chumbo. Brenton Thwaites e Kaya Scodelario formam a nova dupla, Johnny Depp (Sparrow) e Geoffrey Rush (Barbossa) repetem seu número e Javier Bardem acrescenta mais um vilão (Salazar) a seu currículo. Numa cena, aparece o jovem Johnny Depp. Ops! Como...? A explicação de Jerry Bruckheimer – hoje em dia, tudo é possível em matéria de efeitos. Não foi preciso nem buscar um sósia de Depp e aplicar-lhe uma boa digitalização. Ele foi escolhido pela textura da pele. Do restante, a máquina (o computador) deu conta. A inteligência artificial só ainda não substitui bons diretores.

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