Johnny Depp troca Hollywood por Paris

Ao considerar o papel de George Jung, o primeiro cidadão americano a traficar cocaína em grande escala nos EUA, e braço direito do colombiano Pablo Escobar, líder do emergente e poderoso cartel de Medellín, no começo da década de 80, o ator Johnny Depp decidiu visitá-lo na prisão. Jung, cuja infame história é contada agora no filme Profissão de Risco (Blow), em cartaz nos cinemas de São Paulo desde a semana passada, cumpre pena até 2015 numa prisão federal em Otisville, ao norte do Estado de Nova York. No local, em companhia do diretor Ted Demme, Depp pôde acompanhar um pouco do cotidiano do presidiário, nomeado jardineiro-chefe da instituição.Mas não foi a habilidade de Jung em plantar margaridas e bem-me-queres que chamou a atenção de Depp. Nem a regrada vida dele na penitenciária e o descaso da filha, de 21 anos, que teima em não perdoá-lo. "A primeira coisa que me chamou a atenção em George foi o cabelo ruim dele", diz Depp em entrevista à reportagem do Estado. "Fiquei fascinado pelo seu corte; parece que ele tem um polvo na cabeça", prossegue. "O estúdio (o New Line Cinema) não ficou particularmente contente quando comecei a encomendar todas as perucas que uso no filme. Sempre tento o meu melhor para chegar perto de um personagem, tento tornar-me essa pessoa que sou na tela." Depp é um ator preocupado com estranhas particularidades. Seus personagens no cinema - em filmes como Edward Mãos de Tesoura; Ed Wood; Gilbert Grape - Aprendiz de Feiticeiro; Medo e Delírio, Donnie Brasco e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça - dificilmente se poderiam tornar críveis, caso viabilizados por um outro ator de sua mesma geração.Até hoje, Depp conseguiu manter-se longe das tentações e nunca interpretou um herói romântico. O que ele fez em Chocolate, filme do sueco Lasse Hallström que rendeu a Juliette Binoche uma indicação para o Oscar de melhor atriz, foi o mais próximo que o ator chegou do famoso "olhar de cama", o truque dos galãs. Mesmo em seus filmes ruins e feitos mediante pagamento polpudo (e eles existem), Depp sempre procurou pelo não convencional."Duvido que venha a ganhar um Oscar ou que seja querido pela academia", disse o ator em recente entrevista a uma publicação americana. "É tão evidente que existem garantias para você receber uma indicação para o prêmio", continuou. "Você tem de escrever o mais trágico cartão-postal, adaptá-lo num roteiro, gritar e estatelar os olhos constantemente, fazer um punhado de viradinhas-clichê e, voilà, você está indicado." O lado privado de Depp também é um festival de esquisitices. Ele já namorou metade de Hollywood. Tatuou o nome de Winona Ryder no braço. Depois, quando o romance terminou, apagou as duas letras finais do nome dela com laser.Prisão - Também quebrou uma suíte do famoso hotel Mark, em Nova York, numa briga matutina com a modelo Kate Moss, cena parodiada por Leonardo DiCaprio no filme Celebridades, de Woody Allen. No ano passado, foi preso ao quebrar o nariz de um paparazzo na saída de um restaurante em Londres e no qual estava na companhia de sua atual namorada, a pop star e atriz francesa Vanessa Paradis, e a filhinha dos dois.Segundo o ator, foi o nascimento de Lily-Melody, de 2 anos recém-completados, que mudou sua relação com a vida. "Ao pegar aquela coisinha na maternidade pude perceber que minha vida até aquele ponto não havia existido ou tivera relevância", diz o ator.O relacionamento com Vanessa fez Depp trocar Los Angeles pela França, onde têm um apartamento em Paris e uma casa de campo, ao norte da capital. "Amo os EUA, mas qualquer país onde crianças entram armadas até os dentes nas escolas deve ser considerado inferior."Depp conversou com a reportagem do Estado num hotel de Los Angeles que é a cara do ator. O nome do lugar - Standard - é escrito de cabeça para baixo.Cópia do estilo Ian Schrager de redesenhar hotéis, o Standard tem um bar apinhado de gente descolada e corredores escuros que levam aos quartos. A diferença desse está no balcão da recepção, onde uma jaula de vidro gigantesca, dessas que mágicos usam para fazer seus truques, abriga um modelo masculino ou uma mulher (dependendo do turno) deitada num colchãozinho de plástico.O hotel não fica muito longe do infame clube noturno que Depp ajudou a fazer nome na primeira metade dos anos 90, o Viper´s Room, palco da morte de River Phoenix. "O lugar continua lá", diz Depp apontando o braço para uma direção virtual. "Outro dia meu sócio disse que a filha daquele músico da bossa nova (Bebel Gilberto) esteve por lá e que perdi uma boa gig." Teria o local sido um bom investimento? "Não sei. Nunca contei as notas fiscais. Nunca foi um investimento para mim, mas sim um lugar legal de encontros." Álcool - Quando é discutido o assunto drogas, tema de Profissão de Risco, Depp diz que sempre foi taxado como consumidor de cocaína. "Até experimentei, mas essa não é minha praia. Gosto de maconha e já fui alcóolatra, mas foi só." O ator também revela que vai conversar - e até usar - caso sua filha se mostre curiosa sobre o assunto. Mas Depp refuta que seu novo filme seja sobre esse tema que inquieta os EUA."Profissão de Risco é sobre como a gente é produto de nossa infância, de como esse período condiciona nosso futuro. George se tornou tudo o que ele não queria na vida. Ele ficou igual aos seus pais."Depp relembra que sua adolescência não foi um período pelo qual sinta orgulho. "O que salvou minha vida foi a música, que comecei a fazer na garagem. Ela me ajudou a atravessar os horrores da puberdade." Por outro lado, o ator avalia que seus pais estiveram sempre presentes, ao contrário dos de seu personagem em Profissão de Risco. "Eles sempre me apoiaram ao longo de minha carreira. Minha mãe ficou toda entusiasmada quando conheceu Marlon Brando, Martin Landau e outras pessoas com quem trabalhei. Mas, por outro lado, quando ia para casa, eu raramente tinha de lhe prestar contas sobre Hollywood, filmes e dinheiro. A gente sentava na sala e falava sobre as mesmas coisas do tempo em que eu era adolescente."Música - O ator revela que não tem prestado muita atenção ao mundo da música, apesar de ser fã de carteirinha de Serge Gainsbourg, o músico francês, marido de Jane Birkin, morto em 1991, que virou coqueluche agora. Depp dedilhou a guitarra recentemente apenas para compor, em parceira com Vanessa, algumas canções do novo álbum dela, Bliss. Sua faixa favorita é um acalanto para a filha: La Ballade de Lily-Rose.De amigos do mundo pop atual, somente o esquisitão Marilyn Manson. Depois de terminada as filmagens de Profissão de Risco, Depp deu ao músico uma das perucas usadas na trama. "Que presentaço, não?"Mesmo falando francês com sotaque carregado, Depp diz que se sente como um verdadeiro nativo na terra de Molière. Mas e o delicioso steak au poivre dos bistrôs parisienses, agora em tempos da doença da vaca louca? "Escuta cara, se todas as coisas que fiz contra meu corpo nos últimos anos não tiveram nenhum efeito devastador sobre mim, duvido que uma pobre doença da vaca louca poderia. À bientôt."

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