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Johnny Depp se transforma em ‘Aliança do Crime'

No longa de Scott Cooper quem rouba a cena é o ator Joel Edgerton

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2015 | 21h35

Começa com uma delação e termina com várias delações premiadas. Hollywood deu de fazer filmes que parecem estar surgindo com o propósito de refletir sobre a crise – ética, de valores – vivida pelo Brasil. Nada a ver, claro, mas se existe um consolo é verificar que o País não é o centro gerador de lama num mundo paradisíaco por suas virtudes. O ponto de partida de Aliança do Crime, de tão absurdo, parece ligar o filme de Scott Cooper às mais delirantes fantasias de algum roteirista drogado. Mas é tudo verdade, e o tom documentário que o diretor adota somente contribui para o mal-estar.

Vamos logo dizendo que o filme é bom, mas também é desagradável de ver. Nem tanto pelos assassinatos brutais que o protagonista e seus sicários cometem, mas por essa ideia de que a aliança entre a polícia e o crime reflete o estado do mundo. Cooper é o diretor de Corações Loucos, que deu o Oscar para Jeff Bridges, e de Tudo por Justiça, em que Christian Bale se fragiliza ao vingar o irmão assassinado. Aqui, tudo se inicia como uma conversa de compadres. Um agente do FBI que quer subir no Bureau Federal, percebe que, para vencer a Máfia de Boston, precisa de aliados no crime. Ele é irlandês, chama-se John Connelly – quem faz o papel é Joel Edgerton, o faraó do Exodus de Ridley Scott. Connelly une-se a um pequeno criminoso, também irlandês. Seu nome é Jimmy Whitey Bulger e é interpretado por Johnny Depp. A peculiaridade é que Depp é irmão de um senador dos EUA, e quem faz o papel é Benedict Cumberbatch.

O político, aparentemente, é o único ileso nessa trama de alianças escusas. No meio do crime, em que delações são exorcizadas como coisa do Diabo, Jimmy consegue convencer seus lugar-tenentes de que, na verdade, não está dedurando, como parece, mas está usando a polícia, e o FBI, para ampliar seu poder em Boston. E, na verdade, é isso que ele faz, matando, extorquindo, distribuindo sua droga e sempre acobertado por Connelly. Para esse último, o fato de serem irlandeses é uma espécie de garantia. Mais importante que a letra da lei, é o código não escrito de honra entre irlandeses, mesmo colocados em campos opostos. No processo, Connelly perde sua alma, e de nada adiantam as advertências da mulher, que vê o marido afundar num mar de corrupção. Jimmy, esse não tem alma, embora seja homem ligado à família, ao filho e à mãe. A perda de ambos o torna incomparavelmente mais duro. E ai de quem se coloca em seu caminho.

Claro que vai surgir um procurador íntegro para quebrar a sinistra aliança, mas até que isso ocorra o diretor Cooper tece um relato tão acurado quanto distanciado. Não existe aqui o glamour dos ‘bons companheiros’ de Martin Scorsese. Roteiro (de Mark Malhouk e Jez Butterworth) e direção freiam qualquer possibilidade de identificação com o celerado Jimmy. É um papel forte, que Johnny Depp assume como se fosse a tábua de salvação. Curiosa trajetória, a de ‘Johnny’. No começo da carreira, ele parecia o menos avesso dos atores de sua geração em Hollywood a se tornar um astro. Escolhia os papéis e virou o ator preferido de Tim Burton. Fez os melhores filmes do diretor – Edward Mãos de Tesoura e Ed Wood – e, de repente, num golpe de sorte, aceitou ser o Jack Sparrow de Piratas do Caribe.

O estouro do filme produziu uma série que Depp foi interpretando de forma cada vez mais farsesca. O público adorou o ‘capitão’, ele foi catapultado à condição de astro. O problema é que o público, pelo visto, só gosta de Johnny como Jack Sparrow. Tudo mais que ele fez como ‘blockbuster’ não teve respaldo nas bilheterias. Um astro que só enumera fracassos não consegue se manter no trono. Foi aí que surgiu Jimmy Bulger na vida de Johnny Depp. Para início de conversa, ele não tinha physique du rôle para o papel. Submeteu-se a uma transformação física. Calvície, olhos, nariz, tudo foi esculpido para fazer com que Johnny virasse... Jimmy. A transformação física, acompanhada de uma brutalidade fria como os olhos azuis de Bulger, produziu seus dividendos. Na reta final do ano, o nome de Johnny Depp tem surgido como provável indicado para o Oscar de melhor ator.

Pode ser um ressurgimento para ele, até porque Johnny acaba de fazer mais um episódio da saga Piratas do Caribe. Uma interpretação aclamada e um êxito de público poderiam sacramentar a nova fase (boa?). Pode ser, mas a questão é que Jimmy é um tanto monocórdico. Um dos delatores que o entregam para o FBI de verdade, não o de Connelly, o define como psicopata e selvagem e todas as ações, até o encontro com o filho, a quem fornece péssimas lições – ‘O importante não é o que se faz de errado, mas não ser visto” –, ou com a mãe que rouba no jogo, não fazem senão referendar a definição. Apesar da ligação familiar, o irmão tenta se manter à margem. O único personagem que evolui na trama – que tem ‘uma curva’ – é Connelly. Como Joel Edgerton também é bom ator, não seria surpresa se ele fosse para o Oscar. A questão é – melhor ator ou melhor coadjuvante? Mas pode ser que se anulem, e o filme não concorra a coisa nenhuma. Não haverá o que lamentar. Existem bad movies dos quais se pode gostar e good movies que desagradam. Aliança do Crime entra na segunda categoria.

 

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