Johnny Depp nega inspiração em Michael Jackson

Aos 42 anos, Johnny Depp está em uma de suas melhores fases. Foi indicado ao Oscar de melhor ator este ano por Em Busca da Terra do Nunca, rodou A Fantástica Fábrica de Chocolate e Corpse Bride sob direção de Tim Burton. E está terminando Piratas do Caribe 2 e 3.Foi sua idéia fazer esse evento aqui nas Bahamas? Não, não. Gostaria de levar o crédito por essa idéia, mas não fui eu. Acontece que estávamos filmando Piratas do Caribe (as partes 2 e 3, sob a direção de Gore Verbinski). As datas não permitiam, então, eles pensaram em fazer as entrevistas com a imprensa americana e estrangeira aqui. Aceitei na hora. Mas acho que vocês também gostaram da idéia, não?Você parece estar em atividade constante. Rodou A Fantástica Fábrica de Chocolates e dublou um dos personagens da animação Corpse Bride, ambos de Tim Burton, praticamente ao mesmo tempo. Como consegue isso? Estávamos começando a filmar, quando o Tim (Burton) chegou para mim e disse: ´Sabe, vou começar um novo filme em (animação) quadro-a-quadro e gostaria de te passar o roteiro para você dar uma olhada e dizer o que acha.´ Eu li e achei maravilhoso. Mas não tinha idéia de que ele ia fazer as duas coisas simultaneamente. Ele saía do set de A Fantástica Fábrica de Chocolate e ia acompanhar as sessões de filmagem e dublagem de Corpse Bride. Uma energia incrível. Para mim, sair de Willy Wonka (imita a voz do personagem) para dublar Victor (muda a voz para o boneco que dublou) foi uma coisa muito estranha porque eu tinha que sair de um estúdio para outro e ir planejando como fazer as coisas no meio do caminho. Fazer qualquer coisa com Tim é um estouro.Como criou caracterização para Willy Wonka. Houve algum modelo em especial no qual se inspirou? Neste filme, não havia modelos, por assim dizer, para Willy Wonka. Mas havia a lembrança de programas infantis e de apresentadores de programas infantis que eu assistia quando era criança. Lembro especialmente de pensar, já com aquela idade, no padrão de discurso deles e no tipo de cantilena que usavam para falar com as crianças. Eu achava super-bizarro porque era uma coisa mais ou menos assim (arregala os olhos, abre um sorriso e modula a voz de forma ritmada): ´Olá, crianças! Como estão vocês!´. Eram caras que eu assistia: Captain Kangooroo, Mr. Rogers, Uncle Al. Esses caras tornaram-se parte principal dos ingredientes. Como os apresentadores de programas de jogos. Eu ficava pensando: ´Meu Deus, eles não podem ser assim em casa. Eles não podem ser assim de verdade´. O que me levou a pensar que, de uma certa forma, eles vestiam uma máscara. Como se colocassem aquele sorriso permanente no rosto. Esse era o outro lado de Wonka. Fazer essas coisas antes foi importante para criar a aparência do Wonka, colocar o figurino e a prótese na boca, que inclusive mudou um pouco o formato do meu rosto.A morte do jornalista e escritor americano Hunther S. Thompson, que se suicidou no início do ano, foi muito sentida por você. Ficou amigo dele depois de Pavor e Medo em Las Vegas, a adaptação do livro autobiográfico dele? No dia que Hunther se matou com um tiro, fiquei sabendo mais ou menos duas horas depois. Foi devastador para mim, embora eu entenda. Ele ditava o que a vida ia ser e planejou a despedida para que fosse do mesmo jeito. Não é menos doloroso. Ele foi um grande herói, um grande amigo. Ele foi pai, ele foi avô, ele foi tantas coisas para tantas pessoas. Eu sinto tanta falta dele todos os dias. Eu penso naquele canalha todos os dias.Sua família está aqui com você? Sim. O máximo que fiquei longe de minha mulher e meus filhos foram quatro ou cinco semanas. Quase fiquei louco. As pessoas não devem fazer isso. Não posso fazer isso. Por isso, sempre que possível, eu os levo junto comigo. E se Vanessa está filmando e eu não, sou eu quem viaja para acompanhá-la. Eu preciso tê-los por perto.E o que vocês fazem juntos aqui? Ah, fazemos tudo que é divertido. Correr na praia com as crianças, nadar, andar de barco. Eles adoram.Nadaram perto de golfinhos? Não nadamos com golfinhos e, certamente, com nenhum tubarão. (Risos.) E espero não nadar com nenhum.Os seus filhos já assistiram ao filme? Não, não, não. É preciso ter muito cuidado com isso. Nem eu vi. Mas provavelmente verão nas próximas semanas.Os seus filhos se parecem com alguma das crianças do filme? Acho que os dois têm a personalidade mais parecida com a de Charlie. Por sorte (bate na mesa três vezes), os meninos são bastante equilibrados, têm os pés no chão e nada monstruosos.Como você era quando criança? Gostaria de dizer que era como Charlie, mas acho que não era. Minha mãe disse que eu era - ela usa o termo demoníaco. Não era estranho e precoce, mas era curioso e gostava de fazer brincadeiras pesadas. Eu a tirava do sério, com muita freqüência.Incomoda que as pessoas relacionem a sua caracterização de Willy Wonka com Michael Jackson? Não, não incomoda. Todos têm o direito de pensar o que quiserem, mesmo que estejam brutalmente errados (risos). O estranho é que nunca pensei nisso. Que poderia haver qualquer conexão em potencial com Michael Jackson. Nunca passou pela minha cabeça. E ainda não consigo entender. Acho que pode-se, em um certo nível, fazer uma conexão com a maquiagem, as crianças, a coisa da Terra do Nunca. Mas acho estranho. Eu diria que se existe alguém com quem Wonka poderia ser comparado seria Howard Hughes e sua personalidade reclusa, germofóbica e controladora.Você foi o responsável pela indicação de Fred Highmore para o papel de Charlie. O que achou de trabalhar com ele agora? Ele é impressionante, não? A primeira coisa que me impressionou em Freddie quando o encontrei pela primeira vez no filme Em Busca da Terra do Nunca foram os seus olhos. E não só por causa de seus belos e penetrantes olhos azuis. Há uma pureza em Freddie que é surpreendente, hipnotizante. Ele é incapaz de contar uma mentira, ele é tão puro. Isso de início. Quando começa a trabalhar com ele, você vê as habilidades que ele tem como ator, que são infinitas e supertalentosas. Além de tudo isso, o que é legal sobre o Freddie é que, sim, ele é um grande ator; sim, ele é um grande sucesso como ator-mirim, mas não está nem aí para isso. Ele quer jogar bola, ele tira férias com os pais, gosta de jogar videogame. Ele é uma pessoa normal e com os pés no chão.Houve algum momento em sua carreira que você quis largar tudo e se isolar, como Willy Wonka? Eu não quero ficar preso em um lugar só. Na minha infância passávamos o tempo todo nos mudando, como se fôssemos completamente nômades, ciganos mudando de um lugar para o outro o tempo todo. Eu absorvi isso na minha psique, no meu ser. Então, não agüento ficar em um lugar só por muito tempo. Nós dividimos o ano e ficamos seis anos em Los Angeles e seis meses na França. Isso parece funcionar. Eu gosto, de forma muito egoísta e simples, de manter distância de Hollywood e das expectativas sociais, seja lá o que isso quer dizer. Porque não sou bom nisso (aponta para si próprio, como se dissesse: atuar), mas não sou bom para esse tipo de jogo. Eu acho confortante manter a distância porque não tenho a pressão ou a responsabilidade de saber quem é o bam-bam-bam da semana ou quem está fora da semana anterior. Não sei quem são essas pessoas e gosto disso.

Agencia Estado,

22 de julho de 2005 | 11h02

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