REUTERS/Alessandro Bianchi
REUTERS/Alessandro Bianchi

John Woo prepara remake de 'O Matador' e ganha mostra no CCBB

Em entrevista ao 'Estado', cineasta fala sobre suas memórias nos Estados Unidos, fracassos, vitórias e a dimensão poética da violência nas telas

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estado

20 Junho 2018 | 06h00

Depois de 15 anos de ausência de Hollywood, o chinês John Woo, aclamado como o mestre maior do cinema de ação à moda oriental na década de 1990, vai fazer um filme de estúdio americano, tendo Lupita Nyong’o à frente de uma refilmagem de 'O Matador' (1989).

Famoso na Ásia por seu estilo personalíssimo marcado pelo uso de câmera lenta, de símbolos religiosos e de uma recorrente obsessão por cenas de duelo enquadradas em close, o diretor de cults como 'A Outra Face' (1997), hoje com 71 anos, ficou de 2008 para cá envolvido com épicos históricos, em formato de superproduções, rodados em sua terra natal.

Woo rodou um thrillerzinho em 2017, 'Manhunt - Unabomber', estrelado por sua filha, Angeles Woo, mas sem o mesmo sucesso de obras-primas do filão policial como 'Fervura Máxima' (1992) e 'Alvo Duplo' (1986). Ambos integram a seleção da retrospectiva 'Cidade em Chamas - O Cinema de Hong Kong', que ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, até 8 de julho, chegando ao CCBB de São Paulo, no dia 20 de junho, onde fica até 16 de julho.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, John Woo fala ao Estado sobre suas memórias nos Estados Unidos, fracassos, vitórias e a dimensão poética da violência nas telas.

Que poesia é possível encontrar na representação da violência?

Quando eu era menino, adorava ler velhas fábulas chinesas sobre cavaleiros. Gostava de histórias de cavalaria retratando paladinos em luta por justiça, libertando povos da opressão de tiranos. Cresci em meio a uma realidade muito tumultuada, no sul da China, cheia de pobreza e brutalidade, onde só havia espaço para o sonho na igreja ou no teatro. Esses locais eram cheios de conforto e segurança se comparados com o inferno em que eu vivia. E acabei descobrindo o cinema, no qual adorava ver musicais, filmes de gângsteres, faroestes..., qualquer coisa que me desse esperança, que me mostrasse beleza na humanidade. O meu amor por musicais fez minhas cenas de ação parecerem dança. Mas elas não querem glorificar a violência.

Quanto a sua obra dialoga com a tradição do cinema chinês e com a era de ouro do cinema de Hong Kong, nos anos 1960 e 70?

Os filmes de artes marciais de Change Che e de King Hu foram influências fortes no meu olhar. Adoro a estética de ação coreografada por eles, com tramas espirituosas. Os tiroteios que eu filmo trazem muito da linguagem deles, nos enquadramentos mais básicos. Eu apenas troco espadas por pistolas.

O que veremos dessas suas influências de formação no remake de O Matador? E que diretores de Hollywood servem de influência para o projeto?

Vai ser um filme de estúdio com uma mulher no papel principal, uma heroína vivida por Lupita, e vamos rodar na Europa, o que será um sonho para mim. Tem muitos diretores de Hollywood que me marcaram, como Sam Peckinpah, David Lean, John Huston, Howard Hawks, Stanley Kubrick. Mas também tenho muito de Akira Kurosawa e de diretores franceses maravilhosos como Jean-Pierre Melville e François Truffaut. Os anos 1960 foram a época mais criativa da história do cinema e tive sorte de aprender muito com os filmes daquele tempo.

E o que aprendeu de mais valioso em sua passagem por Hollywood, que começa em 1993, quando dirigiu Jean-Claude Van Damme em O Alvo?

As melhores memórias que guardo de Hollywood envolvem meu trabalho com John Travolta e Nic(olas) Cage em A Outra Face. Eu sou muito grato a Michael Douglas, que produziu aquele filme, do qual tenho muito orgulho. Devo muito também à chefona da Paramount na época, Sherry Lansing, porque ela me deu liberdade criativa para contar a história em que eu acreditava. John e Nic são as pessoas mais graciosas deste mundo.

Fervura Máxima, que integra a mostra do CCBB, influenciou diretores como Quentin Tarantino. O que o filme representa em sua trajetória?

Nos anos 1990, os índices de criminalidade em Hong Kong eram muito altos. O submundo estava mais forte do que a polícia e havia roubos de banco por todo lado. Drogas e armas eram traficadas a céu aberto. Não havia lei. Fora da China, a gente vivia a tensão da invasão do Iraque ao Kuwait. Coisas ruins aconteciam pelo mundo todo. Esse clima me deixava tão zangado que eu só conseguia pensar em um herói que pudesse lutar pela Justiça. Foi daí que eu tive a ideia de fazer um Dirty Harry em Hong Kong. Fervura Máxima surgiu assim.

Aos 71 anos, quais são seus planos?

Poder fazer filmes em diferentes países e aprender outras culturas. E espero algum dia conseguir fazer um filme de artes marciais de verdade, como os clássicos que me formaram na juventude. Sigo em frente.

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