John Woo decifra os códigos da guerra

Ele teria adorado. John Woo, ogrande diretor de ação de Hong Kong que hoje usa a máquina deHollywood para expressar seu imaginário - em narrativasviolentas, mas não destituídas de humanidade -, deu, na semanapassada, uma entrevista exclusiva. Falou sobre sua carreira e,em especial, sobre o novo filme, Códigos de Guerra, quedeveria estrear na quinta-feira nos cinemas brasileiros,mas agora foi atirado para adiante. No dia seguinte à realizaçãoda entrevista, a Fox, que distribui o filme no Brasil, acertoucom a organização do Festival do Rio BR 2002 e Códigos deGuerra vai inaugurar a mostra Premières EUA, uma das seçõesembutidas no grande evento carioca. Woo guarda excelentelembrança do Rio. Esteve no Brasil pouco antes da Copa de 1998,para gravar um comercial da Nike com Ronaldo. "Ele me mostroucoisas muito interessantes da cidade."Admite que o Rio seria um bom local para filmar.Confessa que foi o desejo de conhecer outras culturas, outraspessoas, que o levou a abandonar Hong Kong para tentar a sorteem Hollywood. Foi levado por Jean-Claude Van Damme, a quemdirigiu em O Alvo. Van Damme também tentou levar outrosdiretores de Hong Kong para o cinema americano: Tsui Hark, RingoLam. Só John Woo se deu bem no cinemão. Faz filmes espetaculares, nos quais dispõe de técnicos e batalhões de especialistas emefeitos para coreografar a violência do jeito que gosta, masestá cada vez mais interessado em criar narrativas com base emmaterial humano. Acha que alcançou uma boa síntese em Códigosde Guerra. Quando os roteiristas John Rice e Joe Batteer lhecontaram a história do filme, ele quase não percebeu, mas derepente estava chorando. Espera ter passado a mesma emoção aopúblico. Ele espera - você pode estar certo de que conseguiu.Códigos de Guerra recria um episódio pouco conhecidoda 2.ª Grande Guerra, quando os serviços de inteligência dos EUAusaram a língua dos navajos para criar os códigos ultra-secretossobre movimentos de homens e equipamento pesado no front doPacífico. Os japoneses estavam conseguindo decifrar todos oscódigos. Nunca quebraram o código dos navajos, informa oletreiro final. Na história, Nicolas Cage faz o sargento quesobrevive ao extermínio do seu pelotão e, perseguido pela culpa,ganha uma missão dificílima. Deve "colar" a um jovem índionavajo, interpretado por Adam Beach, especialista no código. Suamissão é proteger o código, não o índio. Isso significa matar,se preciso. Conhecido o fascínio de Woo por códigos de amizade,lealdade e honra, você pode imaginar o que representa essaligação para Cage.Woo, de 54 anos, começa seu filme num solo sagrado docinema - Monument Valley, a reserva no Utah onde John Ford rodoualguns de seus maiores westerns. A reserva foi escolhida pordois motivos: "Precisava de um local que fosse convincente comoreferência espacial para o personagem do pele-vermelha, mas euprecisava também de um lugar em que o espectador também sesentisse próximo do céu." A locação escolhida foi justamenteaquela em que Ford realizou Rastros de Ódio, o mítico TheSearchers. "Aquilo é o céu", diz Woo. E ele acrescenta:"Por meio de um corte, o espectador é projetado de chofre noinferno." O inferno é a guerra no Pacífico, onde o pelotão deCage está cercado por um contingente muito maior de japoneses -em número e armas, também. Ocorre um banho de sangue. Cage vaiparar no hospital, com o tímpano partido, e só então oespectador é informado da história do código, com a entrada doíndio em cena.Nenhum filme exigiu tanta preparação de Woo. Ele viudezenas de filmes e documentários de época. Explica que abatalha de Saipan foi a mais sangrenta do front do Pacífico."As pessoas acham que foram Guadalcanal e Salomão, mas foiSaipan, onde, além da resistência encarniçada dos japoneses,ocorreram trágicos erros das forças americanas, que dispararamsobre os próprios companheiros." Ele queria que o filme fosse omais realista possível. Teve problemas por isso. Logo após ofatídico 11 de setembro, Códigos de Guerra foi consideradomuito violento e a Fox segurou durante algum tempo o lançamento,com medo de ferir a suscetibilidade do público americano,traumatizado pela explosão de violência dentro de casa.Música - Para dar sustentação dramática à história, Woodiz que foi preciso dedicar atenção especial ao roteiro. "Odesenho dos personagens tinha de ser muito forte para projetar opúblico no horror da guerra." Mas só isso não bastaria: erapreciso também a veracidade do décor. "O personagem mais ocenário fazem a força de um filme", explica o diretor. Nãoadmira por que publicações como Cahiers du Cinéma consideramJohn Woo um grande autor e não apenas um especialista em filmesde ação. Qualquer idéia sobre o homem no mundo só pode surgir,no cinema, a partir da relação entre o ator e o cenário. O plano, que estabelece essa ligação, é a unidade básica do cinema. Mas,para ordenar as imagens no inconsciente do público, é preciso amontagem. "Meu diretor de fotografia diz que minha regra número1 é: o filme tem de estar sempre em movimento. Acho que éverdade, mas esse movimento tem de estar ligado à emoção,também."Por isso mesmo, Woo, que chega a usar dez câmeras paraintensificar o movimento nas cenas de ação, interferiu noroteiro para ajustá-lo às suas intenções. O personagem do índio,que se sente americano e arrisca a vida como voluntário, é alvodas piadas racistas dos companheiros de pelotão. Ele tem umamigo, também índio, e esse outro está aos cuidados de ChristianSlater. Ao contrário de Cage, Slater estabelece uma relação maiscalorosa com o índio a quem deve proteger e, eventualmente,matar. Essa ligação passa pela música. Não, Woo não viu AmargoPesadelo, de John Boorman, embora seu filme pareça repetir oclássico duelo de banjos daquele cult dos anos 1970. Slater tocaa harmônica, o índio toca na flauta uma canção de uma tristezade cortar o coração. "Foi uma idéia minha", admite Woo."Achei que a música seria um excelente instrumento parahumanizar esses personagens e também para projetar o público emoutra cultura."Felizmente, o compositor James Horner percebeu aintenção e encampou a idéia do diretor. Woo conta que filma paraisso: para conhecer ele próprio e para fazer com que o públicoconheça outros mundos, outras culturas. Foi por isso que, aochegar a Hollywood, se separou de seu ator preferido: ChowYun-fat, astro de seus thrillers feitos em Hong Kong."Precisava me tornar conhecido nos EUA, fazer um novo círculode amizades e colaboradores." Christian Slater, John Travolta,Nicolas Cage e Tom Cruise deram todo apoio ao diretor em filmescomo A Última Ameaça, A Outra Face e Missão Impossível2. Agora, já estabelecido, Woo anuncia que vai voltar a filmarcom Yun-fat. "Meu próximo filme conta a história de irlandesese chineses que construíram uma ferrovia nos EUA, no século 19,enfrentando todo tipo de perigo. Estou muito contente de voltara trabalhar com Chow; é um amigo querido e um ator que admiromuito."Aproveita para elogiar Nicolas Cage: "Alguns críticosdizem que ele é um ator de uma só expressão, mas na verdade eleé herdeiro dos grandes astros do passado: Gary Cooper, JohnWayne, que os críticos também diziam que tinham só umaexpressão." Destaca o apoio que sempre recebeu de Cage. E falasobre o Brasil, sobre o Rio que conheceu por meio de Ronaldo."É uma paisagem muito bonita e um povo cheio de alegria. Tiveoportunidade de conhecer pessoas e lugares muito interessantes.Seria fascinante construir uma história para mostrar tudo issona tela, até porque o Brasil é uma terra de contrastes. Temmuita miséria, muitos problemas sociais e isso leva,forçosamente, à violência."Para Woo, o importante não é só provar sua destreza comodiretor de ação. É, cada vez mais, dar credibilidade àshistórias, falar sobre gente. Ele reconhece que, durante boaparte da narrativa de Códigos de Guerra, os japoneses sãodemonizados e tratados como os índios no western - fazem partedo cenário. Contra isso, construiu a cena da aldeia, que mostraa relação de Cage e de outro soldado com as crianças. "Esperoter passado compaixão; sem compaixão, não há arte", diz. Nofinal, o filme faz o caminho inverso ao do começo e volta ao céu, isto é, a Monument Valley, na bela cerimônia indígena. Fiel aoseu projeto de expor a diversidade, Woo critica os padres - ospersonagens de Cage e Adam Beach tiveram problemas com eles, naescola -, mas se o filme volta ao céu é por um motivo simples.Woo pode respeitar a diversidade, mas é cristão. De forma maisprecisa, informa: "Sou católico."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.