Fred R. Conrad/The New York Times
Fred R. Conrad/The New York Times

John Grisham reinou nos anos 1990, na lista de mais vendidos e no cinema

Versões cinematográficas de seus livros assumem a indignação com as persistentes divisões raciais e de classe do Sul dos EUA

Noel Murray, The New York Times

02 de setembro de 2019 | 18h30

Nos minutos de abertura do filme de 1993 A Firma, um graduado da Harvard Law School chamado Mitch McDeere se reúne em um escritório de advocacia após o outro, cada um oferecendo a ele uma visão diferente para o seu futuro. Ele quer ser juiz algum dia? Ele gostaria de ter uma carga de trabalho mais leve para poder começar uma família? O estilo de vida da Califórnia parece atraente? E que tal Wall Street?

Mitch (interpretado com boa parte do ar de superioridade de Tom Cruise em Top Gun - Ases Indomáveis) acaba escolhendo a discreta empresa Bendini, Lambert & Locke, de Memphis. Ele fica impressionado pela sua falta de pretensão e gosta de estar em um local mais retirado. Nova York? Washington? Isso já foi feito. Hora de dar uma chance ao Tennessee.

De certa forma, Mitch era muito parecido com a América em geral, por volta de 1993, quando o “Novo Sul” estava em ascensão. Eu morava em minha cidade natal, Nashville, Tennessee, na época, e tinha acabado de me formar na Universidade da Geórgia. Aompanhava todas as pequenas vitórias da minha região – assim como contava todos os títulos da divisão para o meu amado Atlanta Braves.

Em 1993, o país havia acabado de colocar o ex-governador do Arkansas Bill Clinton na Casa Branca, com o ex-senador do Tennessee Al Gore como vice-presidente. Os artistas de hip-hop de Atlanta, TLC, Kriss Kross e Arrested Development estavam por toda parte nas paradas da Billboard. O seriado Designing Women, ambientado na Geórgia, foi destaque no Nielsen Top 10. E um monte de leitores compravam os thrillers legais, escritos pelo advogado do Mississippi John Grisham.

O verão de 1993 foi um momento bom para Grisham. Seu quarto livro, O Cliente, ainda estava no topo da lista de best-sellers do The New York Times, três meses depois de chegar ao primeiro lugar. E na quarta-feira antes de quatro de julho, a adaptação cinematográfica de A Firma de Grisham estreou em todo o país, a caminho de se tornar a terceiro maior bilheteria doméstica do verão, logo atrás de Jurassic Park: o Parque dos Dinossauros e O Fugitivo.

Hoje em dia, é difícil imaginar que um thriller sobre advogados possa se tornar um sucesso de bilheteria no verão. A Firma também não foi surpresa como sucesso. A Paramount esperava que fosse; é por isso que teve o cobiçado lançamento de fim de semana de férias. É o que o fenômeno Grisham era na época.

A Firma não foi o primeiro romance de Grisham. Mas foi o primeiro a se destacar e o filme continua sendo a melhor adaptação cinematográfica de um romance de Grisham. Quatro outras adaptações também chegaram às telonas durante o primeiro mandato de Clinton: O Dossiê Pelicano, também lançado em 1993; O Cliente, de 1994; e Tempo de Matar e O Segredo, ambos de 1996. Três deles - A Firma, O Dossiê Pelicano e Tempo de Matar – estrearam no topo das bilheterias domésticas. Situados principalmente no Tennessee, Arkansas, Louisiana e Mississippi, todos os cinco examinam até certo ponto o que havia e não havia mudado no Sul desde os dias de Jim Crow.

As versões cinematográficas das histórias de Grisham assumem a liderança da óbvia indignação do autor com as persistentes divisões raciais e de classe do Sul. Seus heróis tendem a ser jovens que cresceram pobres e tiveram que trabalhar em vários empregos para se formar na faculdade de Direito. Suas simpatias estão com os oprimidos – mais famosos em Tempo de Matar, no qual um advogado em dificuldades defende um homem negro por matar os racistas que estupraram e espancaram sua filha de 10 anos. Os sistemas político e judicial descritos nos romances e filmes de Grisham eram tendenciosos contra pessoas de cor e qualquer um que se esforçasse para pagar as contas.

A julgar por seus livros (e adaptações cinematográficas), Grisham – como Clinton e Gore – parecia acreditar em um tipo mais novo e mais moderado de liderança do Sul, que equilibrasse atitudes progressivas sobre justiça social com outras mais centristas quanto à redução de crimes e manutenção da ordem.

O momento mais revelador de qualquer filme de Grisham acontece em Tempo de Matar, quando um advogado briguento, interpretado por Matthew McConaughey se senta em um restaurante de comida caseira e explica a uma militante liberal interpretada por Sandra Bullock que, embora ele se incline para a esquerda, “não é um radical que carrega cartazes da União Americana pelas Liberdades Civis.” Entre outras coisas, ele acredita que homicídio pode ser justificado.

Vivi minha vida inteira no Sul: nasci em Atlanta, cresci em Nashville, mudei-me para o centro de Arkansas em 1999. Vi um caráter comum a políticos e ativistas sociais do Sul. A rede do “bom e velho garoto” se conecta a pessoas poderosas à esquerda e à direita; e às vezes as obrigações para com os doadores se sobrepõem aos ideais.

O próprio Grisham serviu na Câmara dos Deputados do Mississippi – como democrata – de 1984 a 1990. Desistiu da política pouco antes de A Firma ser publicado, em 1991, e da lei não muito tempo depois. A desilusão de Grisham com essas profissões permeia tanto os livros quanto as adaptações de filmes.

A Firma trata das tentações do poder e do apelo da vida do Sul. Mitch é seduzido pelo senso de irmandade antiquada que encontra em Bendini, Lambert & Locke. Seus novos empregadores pagam a ele mais dinheiro do que qualquer outro está oferecendo. Ele é atraído para um lugar onde as pessoas servem churrascos de costela em reuniões formais, e onde consegue mostrar como é um cara com pés no chão e solidário, ao voltar pela rua Beale ao lado de um jovem negro, artista de rua. Claro, leva algum tempo até Mitch perceber que está realmente trabalhando para bandidos que lavam dinheiro para a máfia e matam denunciantes.

Como um grupo, os filmes formam um instantâneo esclarecedor da América da era Clinton, documentando o que preocupava os cidadãos comuns na época – incluindo a pilhagem corporativa do meio ambiente (O Dossiê Pelicano) e a ameaça de milícias armadas insurgentes (Tempo de Matar) – enquanto perguntava se jovens profissionais dedicados, abaixo da linha Mason-Dixon (parte das fronteiras da Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Delaware e Maryland, quando esses territórios ainda eram ainda colônias inglesas) poderiam salvar o dia.

A Firma é mais sobre os pontos mais delicados da lei tributária e a perniciosidade do crime organizado do que sobre as maneiras particulares pelas quais as ricas empresas exploraram as divisões políticas e frustraram a classe trabalhadora no início dos anos 90. Intencionalmente ou não, A Firma hoje não se parece apenas com a história de um idealista frustrado. É mais uma lição de vida, destinada a qualquer pessoa que avance com otimismo para uma nova era – com novos líderes – esperando por grandes mudanças. Com demasiada frequência, prevalecem os mesmos acordos e trocas de favores. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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