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John Ford, o 'Homero de Hollywood', foi um construtor da linguagem

Criador de westerns definidores nasceu em 1º de fevereiro de 1894

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 de fevereiro de 2016 | 11h51

Embora a data não seja redonda, completam-se nesta segunda feira, 1º de fevereiro, 122 anos do nascimento de John Ford. Sean Aloysius O'Feeney nasceu no Maine, numa família de ascendência irlandesa – e carregou sempre a Irlanda no coração. Morreu em sua casa de Palm Desert, em 31 de agosto de 1973, aos 79 anos. Quando isso ocorreu, estava há muitos anos sem dirigir, mas ainda cheio de projetos. No momento de passagem, estavam com ele sua mulher, a filha e o ator Woody Strode. De acordo com o último desejo de Ford, enrolaram seu corpo com a bandeira dos EUA, beberam um trago de conhaque, cantaram e rebentaram os copos, jogando-os conta a parede. Foi uma cena que o próprio Ford gostaria de ter filmado.

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Em 1913, o jovem Sean foi para a Califórnia, onde já estava seu irmão, que adotara o nome de Jack Ford. Na nascente Hollywood, virou diretor de pequenos westerns. Fez muitos, e também dramas, comédias, até que em 1939 fez o definidor No Tempo das Diligências/Stagecoach, com John Wayne como Ringo Kid. Já ganhara um Oscar de direção – em 1935, com O Delator – e receberia mais três (por As Vinhas da Ira, 1940; Como Era Verde Meu Vale, 1941; e Depois do Vendaval, 1952). Embora o próprio Ford se definisse como diretor de faroestes (“My name is John Ford. I make westerns”), a Academia nunca achou que algum deles merecesse ser premiado.

Por suas odisseias (de colonos, índios), John Ford recebeu o título de 'Homero de Hollywood'. Seus filmes contam uma história talvez idealizada da 'América', mas com certeza contribuíram para criar uma cidadania. O diretor de western foi um construtor da linguagem – e Orson Welles dizia que aprendeu mais com ele do que com qualquer outro diretor, antes de fazer Cidadão Kane.

Vários filmes de Ford estão disponíveis em DVD. Três ou quatro são viscerais, construindo uma trajetória e uma dramaturgia. No Tempo das Diligências constrói o mito do mocinho e estabeleceu uma maneira de filmar perseguições. Paixão dos Fortes/My Darling Clementine, de 1946, evoca de forma tão perfeita a vida no Oeste que você até se esquece que o xerife Wyatt Earp não foi o herói interpretado por Henry Fonda. Rastros de Ódio/The Searchers, de 1956, narra a tragédia de um solitário, o Ethan Edwars de John Wayne. E, em O Homem Que Matou o Facínora/The Man Who Shot Libertry Valance, de 1962, o mestre filmou os pistoleiros do entardecer e enterrou os mitos.

Ford combateu na 2ª Guerra com sua câmera. Fez documentários, e até ganhou o Oscar da categoria com The Battle of Midway, em 1942. Recriou a vida da Irlanda de forma idílica (Depois do Vendaval), filmou caçadas na África (Mogambo) e até se despediu, depois de tantas epopeias masculinas, com um filme protofeminista, Sete Mulheres, que muita gente não entendeu na época (1966), mas hoje tem status de clássico. Com sua obra, Ford celebrou a grandeza dos derrotados. No Homem Que Matou o Facínora, depois de ouvir a história de Tom Doniphom (John Wayne, o ator preferido de Ford), o editor diz que, se a lenda se superpõe à realidade, então é melhor “print the legend”. Poderia ser o epitáfio de Ford, mas ele preferriu que se esculpisse em sua lápide, 'Almirante John Ford', título que lhe outorgou, meses antes de sua morte, o então presidente Richard Nixon.

Trailers

No Tempo das Diligências (1939)

As Vinhas da Ira (1939)

Como Era Verde o Meu Vale (1941)

Paixão dos Fortes (1946)

Rastros de Ódio (1956)

O Homem que Matou o Facínora (1962)

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