'Jogos do Poder' traz Julia Roberts e Tom Hanks

Diretor Mike Nichols, de 'Closer', volta a discutir sexo e poder, mas desta vez na seara pública

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 Fevereiro 2027 | 15h42

É um caso raro de inadequação de pessoa em Hollywood. Em Jogos do Poder, seu primeiro longa desde Closer (Perto Demais), Mike Nichols volta a discutir sexo e poder, mas desta vez ele sai da seara privada para a pública. Tom Hanks faz o congressista Charlie Wilson, mulherengo e cheirador (de cocaína), mas boa praça, que se associa a bilionária texana (Julia Roberts, loira) para expulsar os soviéticos do Afeganistão. O personagem é real, a campanha afegã é real, mas no final um letreiro informa que, no limite, o que a ação individual de Charlie conseguiu, ao não ganhar continuidade do governo dos EUA, foi fazer com que as armas entregues aos Mujahedins terminassem nas mãos dos talebans, voltando-se contra os próprios norte-americanos no fatídico 11 de Setembro.   Veja também: Trailer de 'Jogos do Poder'    Jogos do Poder entra sexta-feira, 29, em cartaz, depois de disputar uma solitária indicação para o Oscar - a de melhor ator coadjuvante para Philip Seymour Hoffman, que ele não ganhou (afinal, é o ano de Javier Bardem e Onde os Fracos Não Têm Vez). Onde entra nisso a inadequação de pessoa? Na verdade, são duas - de onde o diretor Nichols tirou que Tom Hanks era a melhor escolha para o papel? O próprio Nichols reabre a vertente da discussão sobre sexo, presente em sua carreira desde A Primeira Noite de Um Homem (e até antes - Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), mas se a intenção era fazer um Closer em Washington ele quebrou a cara.   A explicação para Tom Hanks talvez seja simples. Nichols simplesmente não quis repetir John Travolta, com quem havia feito Segredos do Poder (Primary Colors), e o problema é que ninguém interpreta Travolta melhor do que o astro de Tempo de Violência (Pulp Fiction). Tom Hanks até que tenta, mas não dá. A cabeleira loira de Julia Roberts também não ajuda muito, mas pode ser que seja ironia do diretor - a mistura de franqueza sexual e fundamentalismo cristão da personagem dela teria de esbarrar em alguma coisa. Esbarrou na falta de apelo erótico de Tom Hanks. Ele pode ir para a jacuzzi, para a cama, cercar-se de belas mulheres no escritório do Congresso, mas o olhar safado de Philip Seymour Hoffman para o traseiro de uma das ‘garotas’ vale mais do que todo o esforço de Hanks.   Com alguma boa vontade, podem-se buscar (com lupa) as qualidades de Jogos do Poder. Nichols baseou-se no livro de George Crile, que conta uma história real - Charlie Wilson existiu, era um congressista do baixo clero e se reelegeu sucessivas vezes até meados dos anos 90 -, indo buscar ajuda no roteirista Aaron Sorkin, que escreveu a série West Wing, sobre os bastidores da Casa Branca. Sorkin escreveu um diálogo taco-no-taco, mas, ao contrário de Perto Demais, a narrativa que ziguezagueia do Congresso para a ‘Casa Branca’ (seja lá como se chame) do Paquistão ou as muralhas de Jerusalém, onde Charlie Wilson sela a alianças secretas de inimigos tradicionais, não se presta muito a esse diálogo ‘íntimo’. Ou talvez seja de novo o ator - é tudo tão cínico, mesmo quando os personagens estão sendo idealistas e sinceros, que seria necessária a cara-de-pau de Travolta para garantir a sustentação de Jogos do Poder.   Gostar ou não, eis a questão. Acreditar ou não. Charlie Wilson, na estrutura narrativa do filme de Mike Nichols, começa a narrativa sendo homenageado como o homem que derrotou a União Soviética, precipitando a Queda do Muro de Berlim. Mas, no final, depois que os Mujahedins expulsaram - com a ajuda da verba que Charlie Wilson conseguiu para eles no Congresso dos EUA - os soviéticos do Afeganistão, o herói, e por meio dele o diretor e o roteirista, lamentam que Washington não tenha querido continuar com a ajuda, construindo escolas para os afegãos, por exemplo. O erro foi fatal e, como conseqüência dele, embora esse quadro na vida real seja mais complexo de explicar, houve o ataque às Torres Gêmeas que mudou a geopolítica mundial a partir de 2001. Quem busca ‘mensagens’ não terá dificuldade de encontrar a de Jogos do Poder. O patriotismo é uma faca de dois gumes que, eventualmente, como aqui, pode se voltar contra os patriotas. Ah, sim, foi por isso então que Mike Nichols escolheu um ator certinho como Tom Hanks, para tornar o efeito bumerangue mais forte. Não deu certo, de qualquer maneira.

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