Divulgação
Divulgação

Jogos de aparência ao som de Hitchcock

'O Turista' segue linha de thriller chique e romântico do mestre do suspense

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2011 | 06h00

Melhor do que a encomenda - foi recebido a pancadas pela crítica dos EUA -, o longa O Turista, que Florian Henckel von Donnersmarck adaptou de um filme francês, não é apenas uma suíte natural do seu O Mundo dos Outros, agora como grande espetáculo, como também é mais do que um mero veículo para o estrelismo de Angelina Jolie, levando o espectador ao deslumbrante cenário de Veneza, onde se passa quase toda a história. Angelina não tem glúteos. É reta como uma porta, mas o mistério daqueles olhos e daquela boca envolvem o espectador como se fosse a própria esfinge. Não há homem que vá conseguir desgrudar os olhos dela.

E Angelina, que antes de virar estrela de ação foi atriz dramática, ganhando o Oscar de coadjuvante por Garota, Interrompida -, é boa atriz. No recente Salt, de Philip Noyce, por mais mirabolante que fosse o relato baseado nos jogos de aparências, ela dava conta do recado em duas ou três cenas que exigiam mais do que carisma na criação da personagem. A nova trama - mera coincidência? - recorre mais uma vez às máscaras e identidades forjadas. Antes de ir adiante interrogando o que isso pode significar, como representação do mundo, é bom continuar especulando sobre a senhora Brad Pitt.

Muitos críticos chegam a dizer que o excessivo estrelismo de Angelina neutraliza Johnny Depp. Talvez tenha sido autodefesa do diretor. Se alguém tem problema - e o filme se ressente disso -, é o próprio Depp. Ele parece um tanto detonado - mais gordo e envelhecido? - e, como ator, funciona bem enquanto seu personagem é babaca. Quando há uma reviravolta - é melhor não entrar em detalhes para não anular o fator surpresa - e era preciso um Cary Grant, Depp continua sendo um dos Três Patetas. A falta que me fazem - Tim Burton ou Gore Verbinski, diretor da franquia Piratas do Caribe, ele deve pensar.

Comédia. O Turista é o remake da comédia francesa Anthony Zimmer - A Caçada, de 2005. É até um milagre que Florian Henckel tenha conseguido levar o projeto a bom termo, numa linha de thriller sofisticado e romântico que bebe na fonte de Alfred Hitchcock e de alguns epígonos do mestre do suspense. Por exemplo, o Stanley Donen de Charada, cuja trama se passa em Paris (e a cidade, lá, é tão importante quanto Veneza, aqui). O Turista foi concebido para Tom Cruise e Charlize Theron - é o segundo projeto abandonado por Cruise, após Salt, que Angelina assume. No caso de Salt, foi preciso transformar em mulher a personagem que surgiu como homem.

Os percalços continuaram com a escolha do diretor - Florian Henckel sucedeu a Lasse Hallstrom, Bharat Nalluri e Alfonso Cuarón, que foram abandonando, sucessivamente, o barco. Florian Henckel terminou sendo a melhor escolha, mas o cinéfilo terá de se despir de seus preconceitos. O Turista tem tudo a ver com A Vida dos Outros, que deu o Oscar de filme estrangeiro para o diretor alemão de 37 anos. Só para recapitular, havia algo de 1984, o clássico da antecipação futurista de George Orwell, na trama do filme anterior do cineasta. Lembram-se? Ulrich Mühe, grande ator alemão oriental de teatro - ele morreu de câncer, sem ter tido tempo de saborear o sucesso do filme - fazia o agente da Stasi, a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental, cuja vida se resumia em ser o mais discreto possível, para que pudesse investigar, sem suspeita, a vida dos outros. Esse homem que tudo via, ouvia e deduzia, era, ao mesmo tempo, um sujeito opaco, no limite do inexpressivo, mas isso mudava.

O italiano Marco Bellocchio é autor de um filme político famoso - A Tragédia de Um Homem Ridículo. Florian Henckel filmou, e agora refaz, A Tragédia de Um Homem sem Brilho. Na trama de O Turista, Angelina é perseguida por sua ligação com um homem que deu um golpe de bilhões (de dólares). Não sabemos grande coisa sobre essa mulher - as revelações fazem parte dos saltos (qualitativos?) da narrativa -, exceto que, de cara, ela é instruída a se aproximar de um homem que tenha alguma semelhança física com seu ex. É onde entra em cena Johnny Depp, como um norte-americano, professor de matemática, que visita Veneza para tentar se curar da dor de amor. O fato de ele ser matemático - e trabalhar com estatística - tem seu significado na trama, da mesma forma que o fato de ser um leitor compulsivo de romances policiais.

Ex-007. Termina surgindo uma atração entre os dois - para desespero do agente inglês que investiga a fraude econômica supostamente cometida por Depp, ou por quem ele encarna na ficção tecida por Angelina, quando o escolhe pela aparência. O papel é interpretado por Paul Bethany, que, ao contrário de Johnny Depp, prescinde de Tim Burton para mostrar do que é capaz. Cheio de piadas e pistas falsas - como trazer o ex-007 Timothy Dalton na pele do chefe de uma divisão de espionagem -, o filme tem ação e humor, pontos a favor, e um elenco que só convence pela metade, o que depõe contra. Mesmo tratando da questão da identidade e dos mecanismos secretos dos governos, Florian Henckel desvia sutilmente o eixo. O Turista é mais romântico que outra coisa qualquer. A pergunta que não quer calar - por que isso? Vivemos numa época romântica? Não é pouca coisa o que Florian Henckel está nos propondo como material de discussão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.