'Jogo de Cena' e 'Em Busca da Vida', os melhores da telona

Crítico de cinema do 'Estado' avalia filme de Eduardo Coutinho como o mais comovente e o mais rigoroso do ano

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

07 de dezembro de 2027 | 17h18

Um ano que tem Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke, entre os filmes estrangeiros, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, entre os nacionais, não pode ser considerado perdido.   Em Busca da Vida deu ao chinês Jia Zhang-ke o Leão de Ouro de Veneza no ano passado. Por um lado há o tema, a China, que surge como a grande potência emergente e cria inquietações nos países dominantes. Mas essa China, pelo olhar de Zhang-ke, aparece cheia de contradições - a principal delas a que opõe o crescimento acelerado a uma vida de tradição milenar. É o que constata o cineasta, não sem melancolia, mas também sem qualquer saudosismo. Com um tipo de cinema que às vezes lembra Antonioni pela rarefação e longos planos desertos, Zhang-ke mostra os seres humanos sendo levados para lá e para cá, como folhas ao vento carregadas pelo boom econômico.   Do lado brasileiro, o destaque vai para Eduardo Coutinho e seu Jogo de Cena. O diretor reúne um grupo de mulheres através de um anúncio colocado num jornal. Pede que elas lhe contem histórias de vida. Depois, convoca algumas atrizes conhecidas (e outras nem tanto) para que interpretem esses relatos. Importa é que todas - personagens e atrizes - trazem para o palco a "sua" verdade, essa que recebe o carimbo de autenticidade da emoção, naquele que talvez seja o filme mais comovente, mas também o mais rigoroso, do ano.   Se pensarmos em Jogo de Cena como documentário, teremos de constatar que 2007 foi um ano excepcional para o gênero. Não apenas pelo filme de Coutinho, mas porque inclui também Santiago, outro título notável, este de João Moreira Salles. É todo um memorialismo pessoal, e também brasileiro de modo mais amplo, que o cineasta reconstrói através do depoimento do mordomo de sua família, os Moreira Salles. Depoimento humano, cheio de mistério e encanto, no qual muitos vêem, também, a expressão inconsciente da questão de classes à brasileira. A interpretação não é errada e seria difícil que não estivesse presente no filme, o que em nada o diminui.   A ano brasileiro no cinema não pode ser contabilizado sem lembrar o grande sucesso de público e de escândalo de Tropa de Elite, de José Padilha. Colocando em cena os métodos heterodoxos de combate ao crime utilizados pelo Bope, e numa linguagem ostensivamente unilateral, o filme provocou polêmica. Foi visto como denúncia por muita gente progressista, ao mesmo tempo em que era apropriado pela direita política mais tacanha ("faz sucesso porque trata bandido como bandido"). Deixa legado interessante, o de ter relançado o debate sobre a segurança na sociedade brasileira e ter tirado muita gente da toca ideológica no momento em que a troca de opiniões se acirrou. Lançou também o debate sobre a pirataria, uma vez que foi amplamente copiado antes do seu lançamento comercial.   Outro filme de ficção forte foi Baixio das Bestas, de Claudio Assis, que põe em fricção a beleza plástica e seu horror temático - a violência contra as mulheres na Zona da Mata de Pernambuco. O enérgico Proibido Proibir, de Jorge Durán, teve a coragem de recolocar a questão política entre personagens jovens e contemporâneos, em linguagem também rejuvenescida. Já outros filmes brasileiros, que estão entre os melhores deste ano, preferiram dar tratamento intimista aos seus temas como Cão sem Dono, de Beto Brant, Via Láctea, de Lina Chamie, Casa de Alice, de Chico Teixeira, Mutum, de Sandra Kogut, Carreiras, de Domingos Oliveira. Cada um deles é excepcional à sua maneira, compondo um momento muito bom, do ponto de vista estético, do cinema nacional.   Entre os documentários também devem ser lembrados Hércules 56, de Silvio Da-Rin, e Caparaó, de Flávio Frederico, ambos sobre a resistência armada ao governo militar. 500 Almas, de Joel Pizzini, é uma obra inventiva sobre a questão indígena. E o ano fecha com o sensível O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho, sobre o escritor paraibano José Lins do Rego. O gênero está em alta, como se nota não apenas pela qualidade, mas pela presença numérica. Entre os 80 títulos brasileiros lançados em 2007, 30 são documentários.   Entre os estrangeiros, além do chinês Em Busca da Vida, o destaque fica para a boa presença do cinema francês neste ano. Medos Privados em Lugares Públicos, do mestre Alain Resnais, é um dos melhores filmes do ano, ao lado de Lady Chatterley, de Pascale Ferran, que adaptou com grande sensibilidade o romance polêmico de D.W. Lawrence. Um Lugar na Platéia, de Danièle Thompson, é um filme agradável e rebuscado, e A Comédia do Poder traz a marca de outro mestre, Claude Chabrol, filmando sempre com rigor e leveza, esta uma qualidade tão em falta no mundo contemporâneo. Também no fechamento do ano, chegam os bonitos Conversas com Meu Jardineiro, de Jean Becker, e Em Paris, de Christophe Honoré, diretor que é o novo darling da Cahiers du Cinéma. Espera-se que esse diálogo retomado entre Brasil e o cinema francês seja mantido, inclusive com o lançamento aqui do fundamental A Questão Humana, de Nicolas Klotz, prometido para o ano que vem.   Outro dos melhores filmes de 2007 veio não da França, mas da vizinha Alemanha - A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, sobre a polícia política da antiga Alemanha Oriental, a Stasi, e o controle que exercia sobre as pessoas.   Já as surpresas, aqueles filmes difíceis de enquadrar em qualquer categoria, chegaram de várias partes do mundo. São os casos de O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, da Coréia do Sul, A Leste de Bucareste, do romeno Corneliu Porumboiu, O Grande Chefe, do dinamarquês Lars von Trier. Como classificá-los? Filmes mistos, que jogam em vários gêneros e usam diversas linguagens? Ou basta apenas fruí-los e aproveitar o que existe de surpresa nessa arte tornada rotineira? Qualquer que seja a resposta, estes foram filmes que estimularam a nossa imaginação no ano que passou, e isso não é pouca coisa.   O mesmo se poderia dizer de duas produções norte-americanas, Maria, de Abel Ferrara, e Império dos Sonhos, de David Lynch, ambos inclassificáveis, e no bom sentido do termo. O de Lynch ganhou certa notoriedade na mídia sob a etiqueta de "filme incompreensível" mas do qual não se pode falar mal porque não pega bem. À parte esse detalhe, digamos, mundano, é obra notável pelo que tem de surpreendente, diga-se o que se quiser.   O cinema norte-americano de qualidade trouxe ainda o díptico sobre a 2ª Guerra de Clint Eastwood - A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima -, exemplo de cinema clássico, capaz de ouvir o outro e compreendê-lo como condição de compreender a si mesmo. Veio ainda dos EUA o belo faroeste crepuscular O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, entre outras coisas uma reflexão avant la lettre sobre a sociedade do espetáculo e suas conseqüências. O conceito de sociedade do espetáculo foi cunhado em 1968 por Guy Debord, mas o cineasta Andrew Dominik o utiliza para entender por que alguém é levado a destruir seu objeto de adoração. E o que lucra, e perde, com isso.   Também norte-americano, apesar de dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, é Babel, filme que faz jus ao título e trata do mundo globalizado, sendo ele próprio uma produção entre vários países e falado em diversos idiomas.   Da Itália, de significativo, veio Novo Mundo, de Emanuelle Crialese, uma reflexão sobre a imigração no mundo moderno tomando como modelo as grandes levas migratórias do início do século 20. Não é nunca banal, e, apesar de dialogar no início com o neo-realismo, toma logo partido de uma linguagem própria e contemporânea. Não vai ao passado para nele se comprazer com a nostalgia, mas para melhor compreender (e criticar) o presente. É pouco ainda, pois da Itália também se espera sempre mais. Assim como da Grã-Bretanha, presente por aqui com dois bons títulos - A Rainha, de Stephen Frears, e Ventos da Liberdade, de Ken Loach.   Da América Latina, em ano fraco, tivemos, de notável, o mexicano O Violino, de Francisco Vargas, e O Guardião, do argentino Rodrigo Moreno. No plano cultural, o tal intercâmbio com os países "hermanos" ainda é letra morta.

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