Joffily encerra mostra competitiva em Brasília

Existem diferenças entre documentário e ficção, mas José Joffily não está tão preocupado com isso. Ele fez curtas de ficção e pelo menos um curta documentário (Copacabana). Vem de um longa de ficção, Quem Matou Pixote?, de 1996, mas está aqui no 33ª Festival do Cinema Brasileiro mostrando um documentário - O Chamado de Deus foi exibido hoje à noite, encerrando a mostra competitiva. Joffily acha que sua experiência na ficção foi uma ferramenta útil para tecer, a partir dos depoimentos que colheu, o fio da história que pretende contar em O Chamado de Deus.Um documentário narrativo? Talvez. Na essência, um filme que usa a religião para refletir o Brasil. No início era um projeto de filme sobre a Igreja Católica. Joffily queria contar a história da instituição no País, opor a teologia mais tradicional à da libertação. Chegou a colher cerca de 30 horas entrevistando bispos e teólogos.Começou a achar que o projeto era muito amplo e, por causa disso, inviável. Foi quando ocorreu, já que estamos no terreno do religioso, o milagre. Joffily participava de um evento religioso em Bom Jesus da Lapa, no interior da Bahia. Conheceu um grupo de aspirantes a frades franciscanos. O documentário sobre a Igreja tomou outro rumo - virou um filme sobre as vocações religiosas, sobre o chamado de Deus.Apenas um dos vocacionados - eles são seis, cinco homens e uma mulher - está aqui em Brasília. José Mário de Oliveira Brito vem da diocese de Rui Barbosa, no interior da Bahia, quase na região da Chapada. Ele define a vocação como uma construção. Desde os 13 anos operava na Igreja, participava de grupos que não só discutiam como praticavam a religião, na perspectiva mais social da Teologia da Libertação.Ele é um dos três que Joffily descobriu na Bahia. Os outros vieram de um seminário diocesiano no Rio. Joffily contrapõe as idéias de uns e outros, suas aspirações. Diz que procurou a isenção, mas com certeza seu partido pode ser encontrado em meio às imagens de O Chamado de Deus. Há dois meses, o filme recebeu o prêmio Margarida de Ouro, concedido pela CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Como se trata de uma entidade identificada com a ala progressista da Igreja, o prêmio já avaliza o partido que o cineasta tomou.Joffily fez O Chamado de Deus munido de uma câmera digital. Para ele, a grande diferença é que, ao optar por essa tecnologia, ele transfere para depois a assinatura do cheque. Pode-se gravar imagens e depoimentos com pouquíssimo dinheiro, como ele fez. O custo maior vem depois com a kinescopagem, a transformação do vídeo em cinema, para habilitar o filme à exibição nas salas, já que no País ainda não existe o sistema de projeção digitalizado. A Riofilme entrou com R$ 45 mil nessa fase da finalização. Os custos são irrisórios e Joffily credita a isso o fato de ter deixado de lado as mais de 20 horas de material que gravou antes de definir o rumo de O Chamado de Deus. Se tivesse filmado com película, com todo o custo que isso representa, talvez tivesse mais difculdade para deixar o que seria esse material caro de lado.Economia, rapidez, mobilidade. São as qualidades sempre associadas à nova tecnologia digital. No domingo à tarde realizou-se no Hotel Nacional um debate para discutir as novas fronteiras do cinema digital.Joffily estava na mesa com José Augusto de Blaslis, Celso Araújo e Vicente Amorim. O debate, ao mesmo tempo rico e fascinante, foi também decepcionante. Há mais preocupação pelos aspectos técnicos do que pelos estéticos. Os primeiros interessam mais a artistas e técnicos que se disponham a usar a nova tecnologia. Os segundos a nós, o público, que estamos mais interessados em discutir e avaliar o impacto que essas novas fronteiras do cinema terão sobre a narrativa. O digital muda a técnica, com certeza, mas muda também a estética? De que maneira se reflete na maneira como os diretores olham o mundo? Os Estúdios Mega, que promoveram o debate, criaram um guia básico para a produção de filmes digitais. O documento estabelece pontos para a escolha desse formato. Alerta que se deve considerar o custo relativo de cada formato para a produção e a pós-produção, a qualidade da imagem, analisa a facilidade de uso a flexibilidade e disponibilidade dos equipamentos.Formatos e câmeras foram agrupados em quatro categorias - as câmeras DV amadoras, mais baratas, mas com qualidade de imagem mais pobre; as câmeras DV semiprofissionais, que custam o dobro, mas já apresentam uma qualidade de imagem melhor; as câmeras DV profissionais, uma categoria que inclui diversos formatos e se diferencia das duas anteriores, por utilizar tecnologia superior ao MiniDV, com qualidade de imagem mais alta; e as câmeras de alta definição (HD), que têm, indiscutivelmente, a melhor qualidade de imagem, mas possuem custos tão elevados que as tornam inviáveis para realizadores que trabalham com orçamentos baixos.Boa parte da discussão girou em torno de detalhes técnicos - número de linhas da resolução, placas de captura, programas de edição não-linear e por aí adiante. Tudo isso ainda parece coisa de iniciados, mas com o computador foi a mesma coisa. No início intimida porque coloca tudo novo. Com o tempo, o computador foi incorporado ao cotidiano das pessoas, não há porque imaginar que será diferente com a tecnologia digital.Foram seis anos de distância entre Os Olhos de Sampaku e Pixote na carreira de Joffily e agora quatro entre Pixote e O Chamado de Deus. O cineasta espera que o próximo filme saia mais rapidamente. Ele vai adaptar Dois Perdidos numa Noite Suja, de Plínio Marcos, com Roberto Bontempo no papel de Tonho. Os dois são co-produtores. O projeto foi um dos 11 selecionados no recente concurso do MinC. Ganhou R$ 370 mil, o que já viabiliza a produção. Joffily ainda não sabe que tecnologia vai usar. Mas está satisfeito com o digital que lhe possibilitou fazer O Chamado de Deus, dando ao filme o caráter mais livre e investigativo que ele considerava indispensável. Só alerta para um risco - acha errado usar o digital com vistas à criação de um look de filme. Para ele, o digital kinescopado constitui uma terceira via - nem vídeo nem cinema.

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