Joel Zito prepara sua estréia na ficção

Joel Zito Araújo causou frisson com o documentário A Negação do Brasil, que chegou aos festivais acompanhado de livro de mesmo nome. A imagem do negro na telenovela brasileira - tema tanto do filme quanto do livro, frutos de tese de doutorado defendida na USP - entrou para a ordem do dia. E Joel Zito passou a ser visto como o Spike Lee brasileiro.Pois agora, sua trajetória se aproximará ainda mais do principal nome do cinema black norte-americano. Como Spike Lee, Joel pretende seguir carreira dedicando-se ao cinema documental e ficcional. Ele está preparando - com o longa Filhas do Vento - sua estréia na ficção. E o fará com elenco composto com nomes de ponta do cinema e TV brasileiros: Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton e Maurício Gonçalves, Taís Araújo, Maria Ceiça, Thalma de Freitas, Elisa Lucinda e Kadu Carneiro.O roteirista Di Moretti (o mesmo de Latitude Zero e As Vidas de Maria) trabalhou argumento do próprio Joel Zito. "Um argumento que nasceu de longas conversas com Ruth de Souza", conta o cineasta.A veterana atriz, que brilhou em Sinhá Moça (Tom Payne/1953), chegou aos 80 anos, conhecendo como poucos os problemas enfrentados por afro-brasileiros na TV e no cinema. Neste momento, ela interpreta a "avó" do clone Léo (Murilo Benício) na novela da Rede Globo. Tem como irmã a atriz Léa Garcia. No cinema, as duas repetirão a mesma relação familiar."Além de Ruth de Souza, mantive também conversas com Maria Ceiça e atores e atrizes mais jovens. As idéias trocadas com Ruth, minha cumplicidade e meu encanto por ela me induziram a não deixar passar em branco as dificuldades de sua carreira artística. Ao somar fatos narrados por ela ou vivenciados por outras gerações de intérpretes negros, estabeleci alguns dos fios condutores da narrativa. Escrevi o argumento do filme e pedi a Di Moretti que desenvolvesse o roteiro", conta o diretor.Caberá a Ruth de Souza interpretar atriz negra famosa por seus trabalhos em telenovelas. Ela vive em conflito com a filha (Maria Ceiça) e com a irmã (Léa Garcia). "Nossa proposta é narrar história atual, que articula dois mundos, o das mulheres negras do interior do Brasil e o daquelas que vivem nos centros urbanos em contextos sociais de classe média. Buscamos, metaforicamente, confrontar o drama de reconhecimento dos atores negros no mundo do cinema e da TV, com o mundo aparentemente cálido das relações sociais entre negros e brancos do Brasil interiorano", explica Joel Zito.O cineasta diz que, "apesar do contexto racial-cultural", Filhas do Vento não será um filme de tese. "Ao contrário. Nossa intenção é falar de sentimentos e da busca de redenção por quatro mulheres negras. Em um dia especial de suas vidas, elas vão desenterrar e revolver suas histórias para restabelecer o amor maternal e fraternal, sem barreiras de raça e credo, existente entre mães, irmãs e filhas."Joel Zito se inspirou em depoimentos ouvidos de atores e atrizes que entrevistou, mas garante que Filhas do Vento não é uma soma autobiográfica de Ruth de Souza, Maria Ceiça ou Léa Garcia. "Na verdade, reproduzimos ficcionalmente uma ou outra pequena narrativa ou vivências de atrizes negras brasileiras. Esta história amorosa entre mães, irmãs e filhas, tem como fundo a especificidade do racismo na sociedade brasileira, que conheço muito bem."Oscar - A oportunidade do projeto é evidente. Vale lembrar que os EUA, país que conta com 15% de população negra, promoveu na Festa do Oscar, este ano, eufórico reconhecimento de atores e diretores negros e da temática negra. Sidney Poitier ganhou Oscar especial por sua trajetória. Denzel Washington e Halle Berry foram os melhores atores protagonistas. E, para completar, o Oscar de melhor documentário coube à história de adolescente negro confundido com um criminoso.Projeto urgente - No Brasil, país com 45% de negros e pardos, um projeto com a originalidade de Filhas do Vento se mostra, mais que necessário, urgente, pondera o diretor. Joel Zito lembra que sua intenção "é apostar no desenvolvimento de propostas para uma dramaturgia afro-brasileira". Ele quer histórias "com protagonistas negros, que naturalmente acabam tocando de forma direta ou indireta nas especificidades do contexto racial e do racismo brasileiro, mas que também estão preocupadas em promover o orgulho de ser negro no Brasil"."Em meu filme o espectador verá negros pobres e de classe média, alguns com sucesso social ou vivendo apenas como cidadãos comuns preocupados com a sua sobrevivência." Nosso desafio "consiste em produzir dramaturgia e estética voltadas para a auto-estima do afro-brasileiro e para experimentar caminhos capazes de ampliar as platéias do cinema nacional", garante.O projeto foi aprovado com entusiasmo pelo júri do Prêmio de Filmes de Baixo Orçamento, do MinC. Agora, para integralizar o orçamento, Joel Zito e seus produtores, Márcio Curi e Carla Gomide, da Asa Cinema e Vídeo, necessitam de novos aportes financeiros. Como o filme está credenciado nas leis do Audiovisual e Rouanet, interessados em apoiá-lo podem manter contato com Márcio Curi pelo telefone (61) 468-4816 ou pela Internet (e-mail: marcio.curi@asacine.com.br).

Agencia Estado,

03 de maio de 2002 | 11h38

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