MARIO ANZUONI / REUTERS
MARIO ANZUONI / REUTERS

Joe Pesci usa seu timing cômico em 'O Irlandês' para fazer tipos violentos

Ator interpreta Tommy, um protótipo de muitos dos personagens de Scorsese - folgado, irreverente e psicopata

Violet Lucca / NYT, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 20h29

Tommy DeVito está entretendo seus amigos gângsteres com as histórias de suas proezas quando um dos ouvintes, Henry Hill, diz que ele é engraçado. As gargalhadas na mesa mais ruidosa do restaurante param abruptamente. Tommy, interpretado por Joe Pesci numa performance definitiva, pergunta: “Engraçado como?”. 

Henry (Ray Liotta), farejando o perigo, não consegue se explicar. Ele conhece a brutalidade de que Tommy é capaz. Tommy segue pressionando: “Sou engraçado como? Como um palhaço? Eu divirto você?”. Os dois se encaram em silêncio. Henry dá um risinho nervoso e levanta as mãos, derrotado.

Após uns segundos de saia-justa, Tommy diz que é tudo brincadeira e a mesa volta a gargalhar. Então o dono do restaurante cai na asneira de pedir a Tommy que pague sua conta. Furioso (dessa vez de verdade), Tommy o surra sem piedade. 

A cena – supostamente baseada no senso de humor de um gângster, na visão de Pesci – é uma mais marcantes do filme de Martin Scorsese Os Bons Companheiros, de 1990. Tommy é o protótipo de muitos dos personagens de Scorsese – folgado, irreverente, psicopata –, como seu papel como capanga “quebra-ossos” de Robert De Niro em Cassino (1996). 

Mas o que torna seus personagens tão cativantes é o timing cômico e o talento de Pesci para um realismo agressivo, qualidades que fizeram ao mesmo tempo intrigante e subavaliada sua presença na tela. Embora ele seja geralmente visto como ator de um só personagem, interpretando quase sempre tipos estridentes e cruéis como Tommy, sua carreira pede há muito uma reavaliação.

No início dos anos 1990, Pesci se divertia com sua habilidade de interpretar vigaristas e valentões étnicos – como no capítulo de Contos da Cripta em que ele conquista duas gêmeas ricas e mentalmente perturbadas com seu charme canalha; ou como o advogado trapalhão de Meu Primo Vinny, com Marisa Tomei. Mas, com o avanço da década, a carreira de Pesci ficou cada vez mais limitada a interpretar bandidos, como em Esqueceram de Mim, ou na série de humor violento Máquina Mortífera, ou na comédia de humor negro 8 Heads in a Duffel Bag.

Lamentando sempre em entrevistas sua carreira de um só personagem, ele entrou numa semiaposentadoria para dedicar-se a jazz (sob o pseudônimo de Joe Doggs), família e golfe. Nem mesmo Louis C. K., no auge da fama pré-escândalo, conseguiu convencer Pesci a trabalhar com ele. Em vez disso, Pesci disse a C. K. que ele deveria parar de fazer stand-up porque não era engraçado.

Agora, Pesci está de volta no primeiro grande papel em quase uma década. Como o gângster na vida real Russell Bufalino em The Irishman/ O Irlandês, de Martin Scorsese, ele atua com uma discreta autoconfiança. Russell descobre o caminhoneiro Frank Sheeran (Robert De Niro) e o traz para ser seu capanga. Um dos melhores momentos do filme é quando eles estão conversando fiado e comendo pão molhado no vinho. Fica patente então a dinâmica entre os dois atores.

Quando Russell apresenta Frank ao sindicalista Jimmy Hoffa (Al Pacino), Pesci atua com uma calma estranha e vigilante. Após sair de cena gradualmente, Russell volta mais tarde como um homem muito mais velho, mas ainda mais influente. Frank se torna efetivamente seu pau-mandado. Pesci, sem nunca levantar a voz ou mudar seu estilo metódico, mostra como Russell mudou a vida de Frank através das décadas.

A química entre De Niro e Pesci é antiga. Dizem que quando Scorsese convocou De Niro para fazer o pugilista Jake LaMotta em Touro Indomável, de 1980, De Niro insistiu com o diretor em que Pesci atuasse como seu irmão, Joey LaMotta. Pesci estava sem atuar desde o fim dos anos 1970. De Niro não aceitou o não de Scorsese como resposta. Pesci acabou indicado para o Oscar de melhor ator coadjuvante. Ele ganharia a estatueta, na mesma categoria, com Os Bons Companheiros.

Como o Russell de The Irishman/ O Irlandês, o desempenho de Joe Pesci como Joey LaMotta é pautado pela discrição. Enquanto Jake é levado por seus apetites – comida, violência, garotas adolescentes –, Joey segue sendo seu fiel e até bem-humorado saco de pancadas.

Esse realismo sufocado esteve no cerne do primeiro papel de Pesci como protagonista, em Dear Mr. Wonderful (1982), um filme pouco visto que penetra na vida da classe operária de Newark e Nova York. Pesci é Ruby Dennis, dono de um boliche e pretendente a cantor em Las Vegas que luta para pagar o que deve a um gângster e sustentar seu filho adolescente.

Quando um crooner famoso (o Tony Martin da vida real) entra em seu boliche numa noite, Ruby vê uma chance de impressioná-lo – mas Martin joga apenas algumas bolas para posar para um fotógrafo e vai embora correndo. Pesci não manifesta sua decepção com palavras, gestos ou lágrimas. Dá apenas um olhar arrasado e magoado.

Seria apenas em Testemunha Ocular (1992) que Pesci voltaria a ser protagonista. Nos anos 1950, no papel do repórter fotográfico conhecido como Weegee (personagem real), ele tenta desvendar o assassinato misterioso de uma viúva sexy, vivida por Barbara Hershey. Ao lado de Dear Mr. Wonderfulesse, filme ainda tem um frescor único.

Embora The Irishman/ O Irlandês seja ambientado num familiar meio de gângsteres com carros do tamanho de iates, tudo mostrado em hábeis movimentos de câmera, suas três horas e meia de duração nos mergulham num mundo de vazio devastador. Russell é o espaço negativo do qual todos os pecados de Frank emanam. Isso não absolve Frank, como sugere seu próprio vazio. Pesci faz um Russell com um ameaçador olhar inexpressivo que pode se transformar em expressão de cobiça. Fica claro por que a filha de Frank, Peggy, o odeia. As tentativas do mafioso de ser amigo dela são apenas sombriamente cômicas até que se percebe a maldade de sua persistência.

No fim do filme, Russell, que na velhice estava preso com Frank, é levado numa cadeira de rodas do improvisado campo de bocha da dupla. “Estou indo para a igreja. Não ria”, diz ele a Frank. Essa ordem, “não ria”, a fala final de Pesci, vale seguramente para o público. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

Tudo o que sabemos sobre:
Joe Pescicinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.