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Jodorowsky virou diretor de cabeceira de artistas cult

Mestre, ele dirigiu filmes marcantes, como o mítico ‘El Topo’, que arrebatou o casal John Lennon e Yoko Ono

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2016 | 06h00

Há três anos, Alejandro Jodorowsky terminou o autobiográfico A Dança da Realidade com a reconstituição de um momento crucial de sua vida, quando o pai autoritário desautoriza o filho que vem lhe falar de sua vocação de poeta. O novo filme do autor passou em Cannes, em maio. Prossegue o ciclo autobiográfico – e já é uma das atrações anunciadas da 40.ª Mostra Internacional de Cinema, em outubro. Poesia Sem Fim é sobre um diretor de cinema. Ultimamente, Jodorowsky deu de dizer que Federico Fellini é seu autor preferido. O filme é felliniano.

Tem anões, palhaços, mulheres de seios fartos. Tem aquela imaginação delirante que fez de Jodorowsky um caso raro no cinema latino-americano e mundial. Ator, autor, dramaturgo – criou o movimento Pânico com Fernando Arrabal –, cineasta, quadrinista, guru psicomágico. Esse homem não cabe numa definição. Desafia cânones para ser fiel a si mesmo, e por conta disso virou o diretor de cabeceira de cineastas cults como o dinamarquês Nicolas Winding Refn.

Em 2013, fez a apresentação de A Dança da Realidade, em Cannes. O mundo todo – e a nova geração que cultua Drive – viu-o curvar-se perante Jodorowsky. Mestre! Em 1970, Jodorowsky já tinha uma adaptação de Arrabal, Fando y Lis, no currículo, mas foi naquele ano que dirigiu o mítico El Topo.

Um western pós-Sergio Leone. Na abertura, três pistoleiros interceptam o personagem-título no deserto. A cena é antológica. Ele se veste de preto, é taciturno. Você já viu outros mocinhos em perigos, mas nenhum como El Topo, que carrega uma criança nua na sela de seu cavalo. A imagem é tão perturbadora que arrebatou um certo John Lennon e sua companheira. Lennon e Yoko Ono tanto fizeram que o empresário dos Beatles comprou os direitos de distribuição para os EUA. Jodorowsky queixa-se agora que o cara retirou o filme de circulação e espera que ele morra para relançar El Topo. 

Depois de El Topo, vieram A Montanha Sagrada, Santa Sangre. É a obra-prima cinematográfica do autor. Uma mulher corta os próprios braços e se converte numa boneca manipulada pelo filho. É o mais louco, mórbido, belo dos filmes. E Jodorowsky nunca concluiu seu sonhado projeto de adaptação de Duna – que outro autor cult, David Lynch, transformou num filme incrivelmente ruim. Só podemos sonhar com o que teria sido o Duna de Jodorowsky.

E ler, reler seu romance ‘macondiano’, Quando Teresa Brigou com Deus. Há algo de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez nessa epopeia bíblica sobre uma família, a do diretor, num Chile ancestral. De lá, Jodorowsky caiu no mundo. Foi viver em Paris, depois, no México, hoje reside nos EUA. Em toda parte, foi sempre o ‘deslocado’.

No Chile, era francês, na América, desdenham dele como mexicano. É um homem do mundo, grande artista. A Dança da Realidade era tão desequilibrado que se podia temer por uma diluição do seu cinema. Poesia Sem Fim é uma reafirmação. Nem Fellini faria melhor. Jodorowsky debruça-se sobre sua vida nos bairros boêmios de Santiago nos anos 1940 e 50, revive as noites de sexo e bruxaria que o transformaram no criador que é. A Mostra, com certeza, terá grandes filmes. Esse é um deles.

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