Jodie Foster volta ao cartaz "ainda mais perigosa"

Jodie Foster não posa de mocinha indefesa nas telas. Pelo contrário. Levou seus estupradores aos tribunais em Acusados, enfrentou o assassino canibal de O Silêncio dos Inocentes e saiu à procura de vida extraterrestre em Contato. "Com a maternidade fiquei ainda mais perigosa", avisa a atriz, que volta aos cinemas nesta sexta-feira na pele de mãe capaz de tudo para defender a filha. Quando sua casa é invadida por ladrões em O Quarto do Pânico, que estréia amanhã no Brasil, Jodie contra-ataca como legítima heroína de filmes de ação. Corre, salta, luta e até provoca explosões."Foi o papel mais físico da minha carreira", conta a atriz, mãe de dois meninos: Charles, de três anos, e Kit, de 8 meses. Foi no set do thriller dirigido por David Fincher (de Clube da Luta e Seven) que Jodie soube que estava grávida do filho mais novo. "Pela primeira vez interpretei uma mãe já tendo sentido o drama na pele. Intelectualmente uma atriz sem filhos pode se preparar para o papel de mãe. Mas aquele sentimento visceral e aquele medo de que algo aconteça com seu filho talvez só uma mãe de verdade saiba representar."Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista de Jodie à Agência Estado, concedida no hotel Four Seasons de Beverly Hills. Ela fala do novo filme, da predileção por personagens intensas, da banalização do trabalho do ator em Hollywood e dos 40 anos, que serão completados em novembro. Como de costume, a atriz duas vezes vencedora do Oscar (por Acusados e O Silêncio dos Inocentes) evita abordar a vida pessoal. Solta a já famosa frase "não é da conta de ninguém", quando o assunto é a identidade do pai de seus filhos, nunca revelada. "Quem tem uma mãe como eu não precisa de pai. Sou extremamente controladora", brinca.Agência Estado - Como foi rodar o thriller grávida?Jodie Foster - Fazer um filme é sempre muito técnico. Bastou seguir a cartilha. O que mudou foi a minha disposição. Ou melhor, indisposição (risos). A garota que interpreta a minha filha (Kristen Stewart) zombava de mim porque eu dormia no horário do almoço e até nos intervalos de filmagem. A gravidez me dá muito sono.Levou o seu filho mais velho ao set?Não. Charles não entenderia. Só de ver o comercial do filme na televisão, ele me perguntou se aqueles homens, os ladrões, me deixaram mesmo com medo. Expliquei que tudo foi faz-de-conta, mas ele não pareceu convencido.Foi difícil rodar quase todo o filme no mesmo quarto (um cômodo de segurança máxima para onde sua personagem leva a filha quando os ladrões entram na casa)?Foi desagradável aquela sensação de estar sempre trancada. Por sorte, não sou claustrofóbica e ainda tinha a companhia de Kristen, que abriu os meus olhos para o que é ser adolescente nos dias de hoje. Tivemos longas conversas. Espero estar mais preparada quando os meus filhos chegarem lá (risos).Como se saiu nas cenas de ação?Foi divertido. Procurava há tempos um papel mais físico para exercitar uma faceta até então inexplorada. O que mais me atraiu em O Quarto do Pânico foi a disciplina do roteiro. Não existe aquela introdução, onde os personagens são apresentados aos espectadores. Normalmente os filmes trazem uns 45 minutos de histórico, chegando a cansar. Aqui não. A história começa imediatamente após os créditos iniciais. Todo o drama dos personagens que o público precisa conhecer para simpatizar com eles é revelado durante a ação. Assim, a platéia quase perde o fôlego. Mesmo sendo um papel físico, sua performance é intensa, com forte carga emocional...Eu realmente sou louca por dramas. Quando vou a uma videolocadora, por exemplo, nem passo pela estante de comédias. Normalmente me sinto atraída por mulheres que são levadas ao limite, que precisam superar seus medos para vencer. Engraçado observar que as pessoas estranham ver mulheres nessa situação. Principalmente em Hollywood.O que ainda a motiva a trabalhar para outros cineastas, enquanto pode dirigir a si mesma nos filmes que quiser?Mesmo tendo experiência como diretora (em Feriados em Família e Mentes que Brilham), não dispenso convites para trabalhar com cineastas que admiro. É importante sentar e aprender com os outros. Com David Fincher, por exemplo, aprendi a não desistir quando as coisas ficam mais complicadas no set. Ele é muito determinado.David Fincher não se sentiu intimidado ao dirigi-la, considerando que você, além de diretora, é uma das mulheres mais poderosas em Hollywood?Não. Esse poder a que você se refere nada mais é do que um cálculo matemático. As listas dos mais poderosos da indústria são feitas com base no número de pessoas que assistiu aos seus últimos cinco filmes. Como me recusei a fazer um filme atrás do outro, apesar das pressões da indústria, acabo em posição privilegiada por apresentar uma boa média.Como você escolhe os seus filmes? Quando comecei no cinema (aos nove anos, no filme da Disney Napoleon & Samantha), era ingênua. Almejava coisas quase inatingíveis. Hoje, como não tenho de provar mais nada para ninguém, sou movida pela paixão. Só faço o que me agrada, sem ter compromisso com nada. Atingir esse estágio foi maravilhoso, principalmente porque não imaginava que ainda seria atriz à beira dos 40 anos. Estar chegando à casa dos 40 me dá uma sensação libertadora. Você olha para trás e percebe que precisa se contentar com o que já fez e baixar as expectativas. O que não deu tempo de fazer antes, dificilmente será feito daqui para frente. Como consegue manter a vida pessoal longe da mídia?Nunca tive uma vida social agitada, o que dificulta o trabalho para a imprensa. Eles só têm acesso a quem se expõe. Faço apenas o necessário para divulgar o meu trabalho, mas jamais permiti que a minha vida pessoal fosse o centro das atenções. Sempre separei a atriz da pessoa.Acha que a mídia banaliza o trabalho do ator?Sim. Atualmente só interessa saber quanto fulano ganhou pelo filme tal, se beltrano já está com rugas e com quem ciclano foi visto na festa de ontem à noite. O que importa cada vez menos é o seu desempenho no filme. Infelizmente.

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