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João Wainer lança ‘A Jaula’, que coloca Chay Suede trancado sozinho dentro de um carro

Longa de estreia do diretor é anterior à eleição de Bolsonaro, mas traz a escalada da paranoia pela segurança no País

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

17 de fevereiro de 2022 | 05h00

Quando Chay Suede começou a falar com o Estadão sobre o filme que estreia nesta quinta-feira, 17, o título ainda era 4X4. Terminou mudando para A Jaula. É um título que possui uma conotação muito específica. Jaulas servem para isolar – conter – animais selvagens. 

O “animal”, em questão, é um homem, o personagem de Chay. É um ladrão. Logo na primeira cena, arromba a porta de um carro, uma Pajero. Senta-se, tira o rádio, põe na sua bolsa e, ao tentar sair do carro, descobre que caiu numa armadilha. As portas estão lacradas, os vidros são encobertos – pode-se ver o exterior, mas, de fora, ninguém consegue ver o interior. E, ah, sim, o carro é isolado acusticamente. Chay – o personagem chama-se Djalma – pode gritar, mas ninguém o ouve.

A Jaula – uma armadilha. O filme marca a estreia no longa do fotógrafo e jornalista João Wainer. O sobrenome pertence a uma linhagem que, na imprensa brasileira, remete a um nome mítico, seu avô Samuel Wainer. O repórter pergunta como é que João se inscreve nessa tradição. Ele não vacila: “Ainda estou tentando descobrir”. Além das fotos, num recorte social, João realizou os documentários Pixo e Junho – O Mês Que Abalou o Brasil

A Jaula não começou como um projeto dele. A produtora Tx Filmes, associada à Star Original, adquiriu os direitos do filme argentino 4X4, com roteiro de Mariano Cohn e Gastón Duprat. O primeiro passo foi transpor o filme da realidade argentina para a brasileira. 

Rodado em 2018, quando a sociedade brasileira estava dividida no processo que levou à eleição de Jair Bolsonaro, o filme parte de um fenômeno que persiste – a paranoia da (in)segurança. Antes mesmo que Djalma arrombe o carro, Astrid Fontenelle já está na TV, como apresentadora de um noticiário sensacionalista. O conceito é conhecido: o cidadão armado. Chay reflete: “Quando fizemos o filme há quatro anos, a realidade era uma. Ninguém poderia prever que haveria uma pandemia, que haveria uma escalada da violência, que o filme ia demorar para estrear. Ele foi feito num quadro, será visto em outro. Estou muito curioso para saber qual será a reação do público. Talvez daqui a dez anos seja visto de uma outra maneira”. 

Para Chay, o cinema possui essa qualidade rara de iluminar o mundo em que se vive, estimulando a reflexão. No filme, Alexandre Nero faz o cidadão armado. Surge quando o filme já passou da metade. Tem um desfecho inesperado. “Ninguém é herói no filme. A Jaula não tem mocinhos, e essa, eu acho, é a contribuição do João ao debate sobre o Brasil atual.”

Há pouco, em outro longa brasileiro – Dora e Gabriel, de Ugo Giorgetti –, os personagens iam parar no porta-malas do carro. Agora Chay/Djalma fica no carro, isolado, sozinho. Acuado, com calor, com sede. “João (o diretor) criou condições especiais. A rua é um cenário, foi construída. As imagens de fora mostram a Pajero inteira, mas internamente ela foi serrada pelo meio para permitir a movimentação da câmera. Por mais que tudo isso tentasse tornar a situação mais confortável, é muito difícil atuar sozinho. Contracenar com outro enriquece”, conta o ator, que perdeu 9 kg para mostrar a transformação de Djalma.

Certamente não era fácil representar naquele espaço exíguo. “Foi um desafio e, para ser honesto, tenho de admitir que me joguei cheio de entusiasmo, mas também de apreensão. Conseguiria dar conta do Djalma? Não é fácil ficar ali tenso, contido, mas com a cabeça a mil. São dois movimentos contrários. Por isso, é difícil responder quando me perguntam o que foi mais difícil, o físico contido na jaula ou a cabeça? Djalma não é um bicho. É individualizado. Pensa na sua família. É um dos personagens mais complexos que já fiz.” 

Por falar em personagens, durante a pandemia Chay Suede fez a novela Amor de Mãe, na Globo. O repórter não se furta a dizer que o encontro final de Chay e Regina Casé, de filho e mãe, depois de todo o sofrimento, naquela estrada (da vida), foi um dos grandes momentos da TV brasileira. “Você diz que viu a cena, mas não é noveleiro. Eu sou. E aquilo foi muito forte. Toda a novela da Manuela (Dias) levava àquele momento, então a gente teve de ir fundo. A entrega ali foi uma coisa muito emocional. Como ator, tenho de estar preparado para viver esses personagens tão diferentes. Em cada um deles tenho de encontrar e colocar um pedaço de mim. Djalma representa um Brasil dos excluídos, mas não é um monstro.” 

Três perguntas para João Wainer

O cineasta João Wainer realiza sua estreia em longa-metragem de ficção com A Jaula. Não foi um tema de sua escolha. Ele foi contratado, mas fez do projeto um trabalho próprio. 

O que havia de tão atraente em 4X4, o título original argentino de A Jaula

Acima de tudo, o roteiro de Gastón Duprat. Sou fã do cinema argentino, que tem ótimos roteiristas. O desse filme era forte, bem escrito, perfeito para a realidade deles. A primeira coisa necessária foi transpor a história para o Brasil. João Cândido Zacharias fez um belo trabalho de adaptação. 

 

É um filme muito tenso, centrado num universo masculino. Onde entra a mulher nessa história? 

Tenho imensa admiração por Mariana Lima. Sempre quis trabalhar com ela. No original argentino, o negociador é um homem, e idoso. Mariana me deu outro colorido à personagem. Ela tem uma frase perturbadora, que desestabiliza ainda mais o relato. E tem ainda a Astrid (Fontenelle), em um papel que traz uma imagem diferente do que o público está acostumado. 

Qual sua expectativa? 

O filme está sendo lançado em um grande circuito. Até agora, só acompanhei as sessões de convidados. É um público predominantemente progressista, e tem reagido com entusiasmo. A Jaula vai na contramão do bolsonarismo. Quero ver como será a reação de plateias comuns. 


 

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