João Salles e Coutinho abrem o Brasil Documenta

Foi emocionante. O encontro entre João Moreira Salles e Eduardo Coutinho, que abriu o Brasil Documenta, na segunda-feira à noite, no Instituto Moreira Salles, na Gávea, foi verdadeiramente notável. João é um grande documentarista, basta lembrar o seu Notícias de uma Guerra Particular, co-realizado com Kátia Lund. Outro talvez aproveitasse o palco para roubar a cena do homenageado principal. João foi discreto.O mestre da noite era Eduardo Coutinho, o homenageado nacional do 1.º Fórum Internacional de Documentários, promovido pelo canal GNT, da Globosat.O que está em discussão no evento do Rio é a produção de documentários. Estética, narrativa, formas de financiamento, a relação entre cinema e TV. Várias mesas foram organizadas para debater o assunto, até sexta-feira. E existem os encontros. O de Coutinho e João Moreira Salles abriu o Brasil Documenta. Outro encontro notável vai encerrar o evento: quinta-feira à noite,Pedro Bial entrevista Nelson Pereira dos Santos.Coutinho, falando sobre sua experiência comodocumentarista, analisou longamente seus anos no Globo Repórter e o processo que culminou em Cabra Marcado para Morrer, que a maioria da crítica considera sua obra-prima e omaior documentário do cinema brasileiro. A maioria, não o entrevistador de Coutinho naquela noite. João acha que o melhor Coutinho é Teodorico, Coronel do Nordeste, que foi exibido num Globo Repórter, nos anos 70. "Foram sete, oito anos maravilhosos, durante os quais o Globo Repórter produziu eexibiu alguns dos melhores documentários produzidos no Brasil; e isso ocorria na TV, em plena ditadura", disse João.Como e por que isso era possível só pode ser explicado pelas circunstâncias, pelos talentos abrigados na Globo naqueles anos em que a poderosa ainda construía o seu famoso padrão dequalidade. Eventualmente, os documentários produzidos pelo Globo Repórter não agradavam à direção da empresa. "Mas nãoeram considerados ruins, não se usava essa palavra", disse Coutinho. "Dizia-se que não eram competitivos e, mesmo assim, eles passavam." Teodorico se beneficiou de uma particularidade. O personagem focalizado era parecido com Chacrinha, que ocupava, no horário, o outro canal, concorrente.Por sua natureza, latifundiário, cercado de jagunços, senhor de escravos brancos, Teodorico representava tudo contra o que Coutinho lutava, mas ele deu voz ao personagem e o própriocoronel do Nordeste achou que o retrato que o diretor fez dele era positivo. "Não era, mas ele estava na Globo e isso era o que importava", diz Coutinho. Ele admite que precisa ter umaligação forte com as pessoas focalizadas em seus documentários. Faz filmes sobre gente. Mas não acredita que pudesse filmar, por exemplo, um torturador. "Não conseguiria criar empatia nenhumacom uma figura dessas", resume.Nos seus filmes, Coutinho aprimorou a arte daentrevista. Sabe que é um bom entrevistador. É aí que concentra o foco do seu interesse. Em Cabra Marcado para Morrer, quando retomou, em chave de documentário, seu antigo projeto deficção, nos anos 60, sobre um líder camponês que havia sido assassinado no Nordeste, ocorreu uma coisa curiosa. Totalmente concentrado na entrevista com a viúva da vítima, ele nãointerrompeu o diálogo em nenhum momento, ao longo de cinco horas de conversa. O operador trocava o chassis da câmera, substituindo o filme, e ele não parava, para não perder o momento. Há partes desse encontro que só existem em áudio. Nãohá imagem.Para Coutinho, o bom personagem é aquele que sabe contar sua história e, por isso, ele usa uma palavra: fabulação. A pessoa pode ter a vida mais comum do mundo. Se souber contá-la, é uma grande personagem. E é importante que se estabeleça aintimidade entre o entrevistado e o entrevistador. Quando combina uma entrevista de antemão, ele nunca quer saber o que a pessoa vai dizer. "Guarde para quando a câmera estiver ligada" é a sua frase predileta. Não acredita que o documentário seja aquele tipo de filme que existiria mesmo se a câmera não estivesse ali. Sabe que a simples presença da câmera modifica arealidade. Mostra isso. Em Cabra Marcado para Morrer há planos que documentam a câmera filmando. Em Santo Forte ele mostra o pagamento dos entrevistados, pois faz questão de pagar, mesmo que seja pouco, pelo direito de imagem das pessoas. Nada de câmera oculta, de imagens roubadas. Coutinho estabelece umarelação de franqueza e honestidade. O estatuto da imagem deve ser evidente para o entrevistado, para ele e para o espectador.Na terça de manhã, houve a primeira mesa, sobre estética e narração. Giba Assis Brasil, da Casa de Cinema de Porto Alegre discutiu bastante o falso documentário de Jorge Furtado, Ilhadas Flores. Disse que, pelo formato peculiar do documentário - "Você volta para casa com um filme que não concebeu", segundo a definição de João Moreira Salles -, falar em roteiro dedocumentário é uma obra de ficção, por mais que os investidores exijam esse roteiro como garantia. A boutade de Giba provocou risos na platéia, mas Vladimir Carvalho, que estava com ele na mesa, lembrou que o clássico Aruanda, de Linduarte Noronha, que acaba de completar 40 anos e é um dos marcos definidores do Cinema Novo, teve um roteiro detalhadíssimo.A presença do narrador, abolida na maioria dosdocumentários modernos - com base na experiência dos mestres americanos do cinema direto, nos anos 60 -, forneceu farto material para discussão. Kátia Lund disse que precisou do narrador para contextualizar Notícias de uma GuerraParticular. Coutinho, na noite anterior, já havia radicalizado dizendo que o bom era usar logo quatro, cinco narradores. A mediadora Ivana Bentes destacou um aspecto importante: aausência de especialistas nesses documentários. João Jardim, co-diretor de Janela da Alma, disse que evitou colocar oftalmologistas falando sobre a dificuldade de ver em seu admirável documentário. Geraldo Sarno, na platéia, disse queisso não pode ser um dogma e lembrou que Nelson Pereira dos Santos, em Casa Grande & Senzala, não só recorre a um narrador como ele é um especialista sobre Gilberto Freyre (EdsonNery da Fonseca). Isso motivou uma intervenção do crítico Carlos Alberto Mattos. Os caminhos do documentário são todos os caminhos. Como o cinema, ele não pode ficar atrelado a dogmas.Tudo é válido, tudo é possível. "Depende de cada projeto", segundo Helena Solberg, diretora de Banana Is My Business, que também estava na mesa de terça.

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