João Falcão leva aos cinemas <i>Fica Comigo Esta Noite</i>

Em janeiro, quando A Máquina estreounos cinemas, João Falcão já havia filmado o segundo longa, FicaComigo Esta Noite, que só agora, após a Copa e o Festival doRio - e em plena Mostra de Cinema São Paulo -, estréia com 70cópias em todo o País. A espera pode ter sido, em parte, umadecorrência do fracasso de A Máquina, que todo mundo apostavaque seria um grande sucesso e fez apenas míseros 20 milespectadores nos cinemas. Não deixa de ser curioso assinalar queClick, com Adam Sandler, que não deixa de ser uma Máquina àamericana (televisão, a angústia do tempo perdido, a necessidadede reaver o controle da própria vida) deslanchou e atingiuestratosféricos 3 milhões de espectadores, sendo um dos maioresêxitos do ano no Brasil. Por que o sucesso de um e o fracasso deoutro? O fator Adam Sandler, com certeza, ajuda a explicar adiferença. Escaldados, Falcão, o produtor Diler Trindade e adistribuidora Buena Vista estão agora cercando de cuidados olançamento de Fica Comigo Esta Noite, que se baseia na peça deFlávio de Souza, grande sucesso no teatro. A Máquina tambémhavia arrebentado no palco e o público não quis saber. Hoje emdia, é possível entender os motivos da rejeição. A questão é aexpectativa em relação a Fica Comigo. Agora vai? Falcão esperaque sim. Ele adorou fazer o filme. Fez com capricho e também temconsciência de estar oferecendo ao público um produto maisvendável. Pensando em termos de mercado, a comédia romântica compitadas de fantástico sempre conta com apoio do público,bastando lembrar o caso histórico de Ghost - Do Outro Lado daVida, um dos filmes mais vistos no Brasil em todos os tempos.Fica Comigo, por sinal, abre uma vertente de obras do filão.Logo em seguida virá Inesquecível, de Paulo Sérgio Almeida,outra história de fantasma apaixonado (adaptada do original deHoracio Quiroga). O risco parece ser consideravelmente menor queo representado por A Máquina, que chegou ao mercado como umverdadeiro objeto não identificado para o grande público. O título sugeria um filme de ação, no estilo MáquinaMortífera, o que afastou um segmento do público (e o que seriaatraído também não foi, porque o cartaz não tinha nada a ver). Aprópria implosão de estéticas de A Máquina (comédia, drama,mímica, teatro, cinema, TV, videoclipe) desconcertou as platéiase o quadro foi completado pelos exibidores e distribuidores que,logo no fim da primeira semana, sentindo que o filme nãodecolara, trataram de tirá-lo de cartaz. "Não houve boca a boca" lamenta o diretor, que só agora, com o lançamento em DVD,recebe as manifestações favoráveis das pessoas. "Fica Comigo" écomparativamente mais fácil. O sujeito morre e ganha ajuda deoutro fantasma para tentar se comunicar com a amada, sendo queeste outro fantasma também tem um amor - só que o tempo passou eela ficou velha. Amor, humor, fantástico. Este último é muitoimportante. Falcão assume que está fazendo uma fantasia. Achaque o cinema brasileiro está precisando disso, pois, como afirma- comprando polêmica -, a produção anda toda muito documental. Vladimir Brichta, Alinne Moraes, Gustavo Falcão e LauraCardoso interpretam o quarteto principal (os dois casais).Brichta desembarca no filme vindo do sucesso na novelaBelíssima, onde fazia o filho de Irene Ravache, em crise aosaber que a namorada que imaginava pura era uma prostituta. É oprimeiro papel de protagonista de Brichta no cinema, umpersonagem que trafega entre dois mundos, o dos vivos e o dosmortos, e canta, ainda por cima. Ele diz que foi divertido fazer um pouco porque confia no diretor, mas também porque foi umtrabalho muito carinhoso e artesanal. "Usamos truques de câmerae fios de náilon, não efeitos especiais de computador. A voztambém é a minha", conta. Alinne é uma força da natureza e, se é possívelacreditar, consegue ser mais linda na tela do que é na realidade(a câmera ama algumas pessoas, já dizia Billy Wilder a propósitode Marilyn Monroe). Gustavo Falcão vem de A Máquina (e está nanovela Cobras & Lagartos, como filho de Eliane Giardini).Laura Cardoso é um monumento da arte de representar no País,brilhando em teatro, cinema e televisão. Tudo isso - o tema, o elenco, o capricho da produção -são armas que João Falcão espera que ajudem a alavancar FicaComigo Esta Noite, porque o filme chega às salas como um ato decoragem do produtor, do diretor e da própria distribuidora, jáque, desta vez, não há por detrás a máquina da Globo. O filmenão vai se beneficiar nem do plano B da Globo Filmes e da RedeGlobo - os 20 segundos de exposição que alguns filmes recebem emalgumas praças. Fica Comigo vai depender de você, do seu bocaa boca. Não se trata de nenhuma ruptura de Falcão com a Globo,até porque ele fez uma versão dos Pecados Capitais, com seteepisódios em torno de três/quatro minutos, que a emissora vailançar em alto estilo, como parte de suas atrações de fim de ano em dezembro, no Fantástico. Falcão confessa que se sentiu impotente face ao destinode A Máquina. Dando a volta por cima, ele agora acompanha tudo- o lançamento, o cartaz, as estratégias de promoção. Estáapreensivo, mas admite que, na eventualidade de um novo fracasso- bata aí na madeira três vezes para que isso não ocorra -, nãovai desistir da carreira no cinema, já tendo outro projeto(original) para dirigir no ano que vem. Fica Comigo Esta Noite (Brasil/2005, 75 min.) - Comédiaromântica. Dir. João Falcão. 10 anos. Em grande circuito. Cotação: Bom

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