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Joachim Lafossee acerta a mão no novo filme, 'A Economia do Amor'

Diretor belga ainda se beneficia do elenco, com a ótima Bérénice Bejo

Luiz Carlos Merten, Impresso

30 de novembro de 2016 | 19h01

No original, é A Economia do Casal, L’Economie du Couple. No Brasil, virou A Economia do Amor. Curioso título, porque o amor, por princípio, extravasa. Não se mede por conta-gotas. Não se faz economia no amor, pelo menos não no sentimento. Ele tem de ser torrente – ou não? O belga Joachim Lafosse é um diretor que tem trilhado o caminho dos festivais. E adora as questões morais, Os Cavaleiros Brancos, que esteve até há pouco em cartaz, discute as implicações de uma ONG europeia especializada em adoções de crianças africanas. O ator é Vincent Lindon, um dos mais engajados do cinema francês na atualidade.

Por mais humanitária que seja a busca de pais para essas crianças, a atividade passa por trâmites ilegais, o que torna a causa vulnerável. E Os Cavaleiros Brancos – brancos, porque usam jaleco de médico e se valem disso para adentrar o deserto africano – ficava a dever ao espectador, como cinema. A Economia do Amor é melhor – bem melhor. Talvez não seja 100% original, porque o cinema já contou muitas histórias de casais em processo de ruptura. O que fazer quando o amor acaba? Cada um vai para o seu lado, isso, naturalmente, se as pessoas são razoáveis. Muita gente não apenas rompe – odeia. O casal de A Economia do Amor, o ator e diretor Cédric Kahn e a maravilhosa Bérénice Bejo, começam o filme alterados, gritando.

Chegaram ao ponto de não se suportar mais. Fim – mas há um problema. Ambos investiram na casa em que sempre viveram com as filhas. E agora nenhum quer abrir mão do investimento. Coabitam sob o mesmo teto, mas com as dificuldades que você pode imaginar. As brigas – a tensão – do começo vão indo até que se estabelece uma trégua. Surgem momentos bem interessantes. Uma cena de dança com as filhas, outra de assalto noturno à geladeira. Evocam momentos que foram mais felizes. Mais para o final, volta a gritaria.

A casa é personagem e o filme, claustrofóbico. Num clássico de 1970 – The Happy Ending/Tempo Para Amar, Tempo para Esquecer, o roteirista e diretor Richard Brooks filmou a ruptura de outro casal, John Forsythe e Jean Simmons. Um amigo da dupla, Lloyd Bridges, tinha uma cena memorável em que analisava a economia do casamento. Você sempre ouve falar na família como célula social. Brooks preferia enquadrar o casamento como motor da economia. Quem casa quer casa, tem de montá-la. A roda da economia funciona. Quase 20 anos depois, em A Guerra dos Roses, de Danny De Vito, de 1989, Michael Douglas e Kathleen Turner preferiam destruir a casa a contemporizar. Agora, Kahn e Bérénice tentam contemporizar, apesar de tudo.

Em todos esses filmes, desenha-se uma crise ‘econômica’ do casal, e do casamento. Mas o problema real é de afeto. Joachim Lafosse é particularmente duro com o marido. Não é só o que ele investiu. Abrir mão, para Cédric Khan, é reconhecer seu fracasso. É o que ele não quer. Torna-se indesejável, senão antipático. Um filme cruel, mas necessário.

 

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