Jia Zhangke reafirma seu estilo com ‘Amor até as Cinzas’

Jia Zhangke reafirma seu estilo com ‘Amor até as Cinzas’

Diretor chinês apresenta no filme um amor maior do que o encontro entre duas pessoas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2019 | 03h00

Embora tenha nascido na década de 1970, Jia Zhangke já testemunhou mudanças suficientes, na China e no mundo, para acreditar no que dizia François Truffaut (“o provisório é o definitivo”), ou vice versa. Truffaut dizia isso sobre o amor. Jia está explicando as mudanças sociais e políticas na China, que tem documentado em seu cinema. Mas há uma diferença entre os filmes mais antigos e os recentes, como As Montanhas se Separam e, principalmente, Amor até as Cinzas, que está em cartaz nos cinemas do Brasil.

“Nos filmes antigos, eu buscava entender mais as mudanças externas com que as pessoas tinham de lidar, mas agora estou mais interessado nas mudanças internas e na forma como elas (as pessoas) reagem ao mundo, não são simplesmente levadas por ele”, explicou Jia a um pequeno grupo de jornalistas em Cannes, no ano passado. “Tem a ver com a minha atriz, Tao Zhao, claro, mas também com essa nova vontade minha de examinar o tempo e os gêneros no cinema. Amor é sobre as mudanças ocorridas ao longo de 17 anos, Montanhas, sobre um período maior ainda.”

Por que o tempo? “Na China, tudo vem ocorrendo muito rápido, digo, as mudanças sociais, as tecnológicas. Afetam as pessoas, redesenham as relações humanas e familiares. O que antes demorava gerações, agora faz com que uma única geração seja fraturada e tenha de conviver com mudanças inimagináveis. Amor é sobre essa mulher que vai presa por disparar o revólver para proteger o companheiro. Ao recuperar a liberdade, e partir atrás dele, descobre que tudo mudou. O país, suas emoções.

“A sociedade chinesa sempre foi muito patriarcal, e eu estou cada vez mais interessado em ver as mudanças, do ponto de vista de outros focos. Estou trabalhando aqui com códigos de gênero, o filme de gângsteres, e numa perspectiva feminista. A mulher que pega em armas, que luta por seu destino.” Até que ponto seu filme é acusado, ou se trata de uma fantasia? “A preocupação nunca foi fazer um documentário sobre o submundo, ou as classes menos favorecidas. Pelo contrário, o que me move é tentar descobrir onde está o poder, de verdade, na China? O mundo mudou muito, o capitalismo criou uma nova casta que tem o poder e o dinheiro, mas ninguém sabe, poucos veem. A economia é dirigida, mas existem os bilionários. Pode parecer esdrúxulo dizer isso, mas o tema de Amor é esse poder oculto.”

Em Montanhas, a narrativa extrapolava a China e ia para a Austrália. “A China tornou-se uma potência econômica com ramificações em todo o mundo, então é natural que eu vá ao exterior para tentar refletir o que ocorre internamente, mas não me considero um diretor globalista. Pretendo continuar na China, enquanto tiver voz. Filmes críticos não são os mais incentivados em meu país.” 

A música ocidental é umas referência nesses filmes, Go West, YMCA. “Quando era criança, quando era jovem, tudo era proibido. A pop music virou um sinônimo de rebelião, e a gente ouvia rádios de Taiwan, de Hong Kong. Contrabandeava vídeos. A pop music era uma forma de ir contra o coletivismo que nos sufocava, então usar essa música é uma forma de estimular a memória coletiva, de quando éramos jovens e queríamos nos expressar de uma maneira individual.”

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